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Avaliação da Semana | Escola presencial, falta de professores, campanha contra a escola pública

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Escola presencial em tempo de pandemia

Retomadas as aulas presenciais, não se confirmam para já os prognósticos mais pessimistas dos que previam, a breve trecho, um novo confinamento. São aborrecidas e limitativas as máscaras e demais restrições com que alunos e professores se confrontam quotidianamente, mas que todos entendem como males necessários. Contudo, a situação continua preocupante.

Embora as medidas tomadas pequem, em geral, pela insuficiência – a exiguidade dos espaços e as turmas grandes impedem o distanciamento físico nas salas de aula, cantinas e recreios – parece claro que os maiores problemas não residem sequer nas escolas, mas nas aglomerações nas proximidades e nos transportes escolares, onde a regra do “tudo à molhada” desacredita toda e qualquer “teoria das bolhas” que tente implementar.

Mas se nas escolas se faz o que se pode, da parte dos serviços e autoridades de saúde acumulam-se os sinais de incapacidade de resposta: indicações dúbias e contraditórias perante casos reportados, demora na realização de testes e na comunicação dos resultados, casos suspeitos que não são testados, eventuais positivos que, estando assintomáticos, são aconselhados a fazer a vida normal. Tudo isto são situações que vamos sabendo existir à nossa volta. E o mais preocupante nem é estar-se, aparentemente, a perder o pé. É ter-se assumido uma narrativa em torno da segurança dos espaços escolares, onde será virtualmente impossível a existência de contaminações. E como a prioridade é manter as escolas abertas, os mais pragmáticos já perceberam que, se não se testarem as eventuais cadeias de contágio em ambiente escolar, elas nunca chegarão, oficialmente, a existir. Contudo, entrar em estado de negação é um jogo perigoso: esperemos que, neste caso, não venha a acabar mal…

Reservas de recrutamento quase esgotadas

A situação não é nova, mas está a acontecer este ano com uma rapidez avassaladora, pois há um número maior de baixas e pedidos de substituição de professores. A este ritmo, os professores disponíveis em vários grupos de recrutamento deverão ficar todos colocados nas próximas semanas, esgotando as respectivas reservas. Nas zonas pedagógicas onde as dificuldades de contratação são maiores – Grande Lisboa e Algarve – será já virtualmente impossível, a partir de agora, encontrar docentes disponíveis a não ser através de ofertas de escola.

Os elevados custos dos alojamentos são geralmente apontados como a causa principal do problema, mas esta é apenas a ponta do icebergue. A questão de fundo tem a ver com uma profissão que se foi deliberadamente tornando pouco atractiva – o que afasta candidatos aos cursos de formação e aos concursos de professores – e com um modelo de colocações extremamente penalizador, que obriga os candidatos não colocados inicialmente a ficar à espera, com a vida em suspenso, até à eventualidade de uma colocação que pode ser apenas temporária, com horário incompleto e numa região distante do país. Com um corpo docente envelhecido, cada vez menos pessoas se querem sujeitar a isto, e nessa medida, enquanto não forem profundamente revistas as políticas de quadros e de concursos, apostando na estabilidade e na valorização profissional da classe docente, a falta de professores só se irá agravar.

Campanha contra a escola pública

Orquestrados a partir de uma reportagem do JN que dava conta de uma suposta avalanche de inscrições em colégios, diversos comentadores foram discorrendo sobre a alegada má experiência vivida pelos alunos das escolas públicas durante o confinamento. Enquanto, nos colégios de elite, tudo teria corrido às mil maravilhas…

Vamos ser honestos. Antes de mais, sejam quais forem os meios e condições disponíveis, o ensino exclusivamente à distância será sempre uma experiência limitada e empobrecedora relativamente à escola presencial. Depois, é evidente que, no contra-relógio em que o ensino remoto de emergência foi implantado, os colégios partiram em vantagem. Mas essa é a vantagem que já existia antes do confinamento, e decorre, não tanto da qualidade dos colégios, mas sobretudo do nível sócio-económico e dos recursos dos alunos e das suas famílias.

Enquanto nas escolas públicas a primeira e principal preocupação foi a de garantir a todos os alunos os meios de manter o contacto com os professores. Todas implementaram, desenvolveram e avaliaram os seus planos de ensino à distância. Uns mais bem sucedidos do que outros, certamente. Nenhum deles capaz de conseguir mais e melhor do que se obtém com aulas presenciais. Mas todos reveladores da capacidade e do esforço dos seus professores de construir uma resposta educativa adequada às circunstâncias difíceis em que todos vivemos. Sem deixar nenhum aluno para trás.

António Duarte, professor e autor do blogue Escola Portuguesa

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