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Avaliação da Semana | Escola anti-racista, cortes na Educação, escolas mais inseguras

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A escola portuguesa não é racista

Algumas escolas e faculdades da capital apareceram ontem com pichagens racistas e xenófobas nas paredes exteriores. Já não é a primeira vez que tal sucede, mas as mensagens provocatórias, para além do natural repúdio que provocam em qualquer cidadão bem formado, tendem a levantar a velha e incómoda questão: Portugal é um país racista?…

Não sendo este o espaço para desenvolver o tema polémico, julgo que há pelo menos uma coisa de que podemos estar razoavelmente seguros e nos devemos congratular: as comunidades escolares – alunos, professores, funcionários – não se revêem neste discurso e atitude. As escolas portuguesas não são racistas; pelo contrário, cultivam a inclusão, a tolerância e os valores da igualdade e da democracia. O repúdio pelo sucedido foi generalizado, havendo a destacar, na Secundária Eça de Queirós, a forma espontânea como uma das turmas logo se mobilizou, na primeira aula da manhã, para colocar mãos à obra e, numa verdadeira lição de cidadania activa, limpar as paredes conspurcadas da sua escola.

Educação, ordem para cortar

Não têm faltado, nos últimos tempos, as promessas de que muita coisa irá melhorar no mundo da educação: computadores para todos os alunos, mais funcionários nas escolas, melhores condições de trabalho e acesso à profissão para os professores mais jovens e, para os mais idosos e desgastados, a possibilidade de acesso à pré-reforma em condições vantajosas.

No entanto, dos computadores que deveriam, palavras do primeiro-ministro, estar disponíveis no arranque do ano lectivo, ainda nem um foi avistado nas escolas. Quanto aos funcionários, as carências subsistem e acena-se, agora, com uma – mais uma! – revisão da portaria dos rácios, para finalmente colocar os profissionais que há muito se sabe estarem em falta. Já em relação aos professores, basta olhar a versão preliminar do novo Orçamento de Estado para perceber que, sem a adequada dotação orçamental, não será ainda em 2021 que haverá incentivos à colocação em zonas onde faltam recorrentemente professores. Não serão abertos lugares nos quadros que compensem a saída dos docentes que se têm aposentado. E as pré-reformas terão de aguardar por melhores dias. No plano das concretizações, o presente da Educação mostra-se sombrio enquanto o futuro é eternamente adiado…

Escolas mais inseguras

As escolas são, em termos de possibilidades de contágio pela covid-19, lugares seguros. Dizem-nos, e fazemos por acreditar. Também é verdade que a experiência do confinamento demonstrou que o ensino à distância não é resposta satisfatória para a generalidade dos alunos, aumentando a desigualdade no acesso à educação e empobrecendo as aprendizagens, pelo que confinar de novo será sempre opção de último recurso.

Perante isto, e depois de um mês e meio de aulas ter permitido identificar as fragilidades que continuam a comprometer a reabertura segura das aulas, seria sensato pensar em melhorar os pontos fracos do sistema: agir mais rapidamente perante casos suspeitos, alargar os critérios de testagem, rever protocolos e procedimentos relativos a cantinas e refeições em comum, entradas e saídas nas escolas, transportes escolares, etc. E adaptar os planos de contingência ao tempo frio, húmido e chuvoso que virá aí…

No entanto, percebemos que pouco ou nada está a ser feito para que as escolas, e tudo o que as rodeia, possam ser efectivamente, ambientes seguros. As novas normas da DGS vieram, pelo contrário, aligeirar procedimentos, reduzindo quarentenas de 14 para 10 dias, permitindo que uma turma continue na escola mesmo depois de um caso positivo confirmado entre os alunos e o regresso às aulas após dez dias de doença, sem teste negativo a confirmar a cura. Numa altura em que se intensificam os contágios, as novas medidas não inspiram confiança. E poderão fazer das escolas aquilo que, até agora, se tem conseguido evitar: serem focos activos da propagação da pandemia.

António Duarte, professor e autor do blogue Escola Portuguesa

1 COMMENT

  1. Quero aqui deixar a minha homenagem às funcionárias que diariamente batalham, incansavelmente, para higienizar as salas. É o que tenho visto e é visível o seu cansaço. Desde o início que defendo uma maior participação da comunidade escolar na tarefa de higienização.

    Quanto à segurança, sabemos que temos que colaborar ao máximo, ou seja, devemos assumir as atitudes corretas e fazer uma pedagogia permanente junto dos alunos. Claro que ajudaria muito que os dados de cada comunidade escolar fossem transparentes e as orientações da DGS claras e, sobretudo, idênticas perante situações similares.

    Será catastrófico voltar a casa! A Covid-19 revelou e agravou as inúmeras dificuldades sistémicas do sistema educativo, mostrou a ineficiência do ensino à distância e a importância da relação personalizada com os alunos para o processo de aprendizagem. Mais uma vez, a natureza humana agigantou-se perante algumas “modernices pedagógicas” que caíram sem oferecer qualquer resistência.

    O sistema misto, quando necessário, responsabilidade individual e coletiva e muita transparência são fundamentais para atravessar este longo período de incerteza. A dúvida estará em saber se estaremos à altura, se seremos capazes de seguir os exemplos da Finlândia (sim, em matéria cívica e capacidade crítica mostram-se muito resilientes!), Noruega e Estónia (“Público”, 31 de outubro de 2020). Quero acreditar que sim, apesar de uns tantos “covidiotas” que andam por aí, mas correrão, certamente, para o hospital se ficarem doentes!

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