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Avaliação da Semana | Avaliação a distância, telescola e obsessão com exames

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Avaliação a distância

Apesar de realizadas em circunstâncias inéditas, correram bem as reuniões de avaliação feitas remotamente, com os professores confinados às respectivas residências. Recorrendo aos programas de gestão escolar, ao email, ao chat e/ou à videoconferência, os professores avaliaram os seus alunos dentro da normalidade e resolveram, como o fariam presencialmente, os restantes assuntos constantes da ordem de trabalhos.

A necessidade de simplificar procedimentos, eliminando ou adiando para melhor altura tudo aquilo que iria complicar o desenrolar dos trabalhos, teve também esta vantagem: ajudou muitos professores e dirigentes escolares a aperceberem-se do excesso de burocracia que atrofia o trabalho pedagógico, e que coloca os professores, demasiadas vezes, a trabalhar para os papéis. Em vez de se dedicarem, como deveria suceder sempre, aos seus alunos.

A telescola no século XXI

Aparentemente, a decisão está tomada, faltando apenas acertar os pormenores técnicos da solução, antes que seja oficialmente anunciada: os alunos até ao 9.º ano irão ter aulas através da televisão durante o terceiro período. Evidentemente, continuarão a ter apoio e contacto com as suas escolas e os seus professores. Contudo, da forma como se fará a articulação entre as videoaulas e a escola ainda nada se sabe em concreto.

Estando longe de ser a melhor solução, esta reedição actualizada da velhinha telescola acaba por se revelar a opção mais exequível e realista, tendo em conta as sérias carências e enormes assimetrias no acesso às tecnologias digitais a partir de casa. Não sendo viável colocar um computador com internet em centenas de milhares de habitações onde ele não existe ou não está disponível, o recurso à televisão acaba por ser a alternativa menos má, quando está em causa garantir o acesso universal à escolarização, sem deixar ninguém para trás.

A obsessão com os exames

A crise sem precedentes trazida pelo covid-19 poderia ser aproveitada para resolver de vez o velho problema do acesso ao ensino superior, demasiado dependente dos exames do secundário. Este sistema sobrecarrega as escolas secundárias e subalterniza um ciclo de ensino com finalidades próprias, em vez se de responsabilizar as universidades e escolas superiores pela selecção dos seus próprios alunos.

Numa jogada arriscada, o Governo aposta em fazer regressar às aulas os alunos do secundário no início de Maio, sem que haja garantias de que a pandemia já esteja, nessa altura, suficientemente controlada. A ideia é conseguir um final de ano lectivo “normal” para estes alunos e a realização dos exames, pelo menos da primeira fase, ainda antes das férias de Verão. Empenhado em que nada mude e que tudo se conserve na mesma, não querendo inquietar os poderosos lobbies universitários, o Governo prepara-se para fazer uma escolha perigosa para a saúde e a vida de alunos e professores.

António Duarte, professor e autor do blogue Escola Portuguesa

4 COMMENTS

  1. “Empenhado em que nada mude e que tudo se conserve na mesma, não querendo inquietar os poderosos lobbies universitários, o Governo prepara-se para fazer uma escolha perigosa para a saúde e a vida de alunos e professores.”

    O que gostaria de saber é quem são os lobbies que andam por aí. Serão universitários, por certo.

    Pois que os professores do ensino básico e secundário nunca são ouvidos.

    • Sem entrar por teorias da conspiração, basta constatar que a universidade é o lugar de recuo de uma grande parte da classe política.

      Convém-lhes que não haja grandes mudanças no stato quo e que os trabalhos, as reformas e os desafios caiam sempre, não em cima deles, mas dos colegas do “ensino inferior”…

  2. França e Reino Unido SUBSTITUEM exames por avaliação contínua.

    Por que razão não adotar a mesma estratégia em Portugal?
    No 12º ano, por que razão é que a nota da disciplina à qual os alunos fariam exame, não se transforma na nota de acesso ao Ensino Superior?
    Que condições terão os discentes para realizar exames? Foram os conteúdos lecionados de forma equitativa no país? E o acesso aos mesmos, foi igualitário?
    Mesmo apelando à resiliência, obrigação dos jovens nesta época, parece que a realização de exames está, na opinião de pais e docentes, claramente comprometida .

  3. Já que os professores não são ouvidos, resta questionar os pais. Arriscam colocar os filhos nas escolas? E nós professores envelhecidos (como tanto gostavam de fazer notar até há uns dias) não nos podemos recusar alegando falta de segurança?

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