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Avaliação da Semana | Aulas presenciais, exames self-service, ameaças do ministro

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Aulas presenciais: a normalidade possível

Alunos, professores e funcionários responderam à chamada e, no que dependeu deles, de um modo geral não desiludiram: com as necessárias protecções, cumpriram a primeira semana de aulas presenciais decretada pelo Governo.

Cumprindo as regras determinadas pelas autoridades de saúde, os estudantes do secundário deram um exemplo de responsabilidade e maturidade, enquanto o pessoal docente e não docente convocado demonstrou, mesmo em condições adversas, o seu profissionalismo.  Se estas aulas são mesmo necessárias e se os responsáveis educativos tomaram as melhores decisões, essa é toda uma outra questão. Que merece continuar a ser discutida.

Exames self-service

Já se tinha notado que a realização dos exames nacionais se tornou, em tempo de pandemia, uma questão de regime: o ME abdicou deles para a conclusão do secundário, mas continuam a ser exigidos como provas específicas para o acesso ao ensino superior. Têm de se fazer a todo o custo, mesmo que, no final, pouco mais sejam do que uma caricatura do que deveriam ser.

As últimas informações oficiais, via IAVE, dão conta de que, face à dificuldade em determinar que matérias foram ou não leccionadas em todas as escolas, a maioria das perguntas serão de resposta opcional. E os alunos podem responder a mais perguntas do que as exigidas, cabendo aos classificadores, depois de as verem todas, escolher as mais bem cotadas. Ou seja, se fazer exame se tornou opcional, o exame em si será, na prática, construído à medida das escolhas de cada um. O que subverte por completo o princípio da prova nacional, avaliando conhecimentos e competências que qualquer aluno, na conclusão de um ciclo de ensino, deveria ter adquirido.

As ameaças do ministro

Criticado por desaparecer sempre que avista problemas e dificuldades no sector que tutela, o ministro da Educação optou, desta vez, por dizer alguma coisa. Mais lhe valia ter, como é o seu hábito, ficado calado. Pois ao ameaçar com inspecções e processos disciplinares as escolas onde venha a existir uma hipotética inflação das notas, Tiago Brandão Rodrigues ensaiou um discurso patético e lamentável.

A verdade é que a prática de aumentar artificialmente as classificações está enraizada em diversos colégios especializados em colocar alunos na universidade. De onde tende a disseminar-se para as escolas, públicas e sobretudo privadas, que com eles competem directamente na angariação de alunos. Se o recado era para estes, irá ter o mesmo resultado de advertências anteriores. E é razão suficiente para que o ministro não tivesse envolvido toda a gente na insinuação suspeitosa.

Mas também há outra realidade a ter em conta. No actual contexto de confinamento os critérios de avaliação nunca poderão ser os mesmos do ensino presencial. Com os alunos a trabalhar em casa, em condições que os professores deixaram de controlar, a avaliação passa a ser um exercício feito por aproximação, sem o rigor avaliativo a que estávamos habituados. Como é que sabemos se foi o aluno que fez, ou outra pessoa qualquer? Se trabalhou sozinho, ou resolveu o exercício em grupo, com os colegas? Se chegou por si às respostas ou foram estas que chegaram até ele, por chat ou por email? Como qualquer professor sensato entendeu desde o primeiro momento, não há condições, nesta fase, para penalizar alunos pelo que não fizeram durante o terceiro período. Mas terão de existir para valorizar o trabalho dos que efectivamente se esforçaram. E, em caso de dúvida, é sempre preferível beneficiar o aluno do que prejudicá-lo. É evidente que, ainda que o movimento seja ligeiro, as médias finais irão subir, não descer, em relação ao 2.º período. E o ministro deveria ser capaz de perceber porquê. O que torna ainda mais inconcebíveis as suas ameaças.

António Duarte, professor e autor do blogue Escola Portuguesa

2 COMMENTS

  1. No terceiro período os professores e os alunos continuaram a trabalhar muito, embora de forma diferente.
    Os testes são mais pequenos, com menor duração, é aplicado um teste diferente para cada aluno , mas realizam-se durante uma sessão síncrona; a prova oral passou a ser o método de avaliação (15 minutos com cada aluno chegam para fazer uma boa avaliação de conhecimentos) e, depois as fichas semanais…essas, sim , feitas com ou sem apoio de terceiros.
    Tal como acontece no regime presencial , há sempre aqueles que revelam alguma ou muita falta de responsabilidade e de empenho. Não é o facto de vivermos tempos de pandemia e ensino à distância que justifica a falta de trabalho. Se houve condições para trabalhar e o aluno não o fez, tal deve refletir-se na sua nota final. Se subiu, muito bem, se desceu, tudo bem também! Caso contrário, aqueles que trabalharam efetivamente vão sentir-se desmoralizados e os que o não fizeram, prometem continuar no futuro com o mesmo comportamento.

    • Caro Mário, se na sua escola conseguem todos trabalhar dessa forma, dou-vos os meus sinceros parabéns.

      Eu assumo já que não o conseguiria. Por exemplo, a avaliar com uma prova oral de 15 minutos cada um dos meus 156 alunos, provavelmente já não iria fazer mais nada até ao final do ano. E também não lecciono uma disciplina que permita fazer um teste para cada aluno sem que isso coloque problemas insuperáveis, quer de tempo para a elaboração, quer de equidade em relação aos alunos.

      Quanto à necessidade de todos trabalharem, inteiramente de acordo. O problema coloca-se quanto às “condições para trabalhar”. Se o exercício é muito trabalhoso ou o professor está a ser demasiado inquisidor e de repente “a net cai”, isso é uma avaria técnica ou o aluno que não quer trabalhar? Vamos lá a casa dele confirmar o problema técnico?

      Repare, eu considero o seu raciocínio correcto no plano dos princípios. Não vejo é condições para a sua aplicação com o rigor que enuncia.

      A prova dos nove irá ser, naturalmente, verificarmos no final do ano em quantas escolas irão descer as notas do 2.º período aos alunos que efectivamente se estiveram a borrifar para o trabalho…

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