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Avaliação da Semana | A nova telescola, a eterna burocracia, o boicote às aulas online

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A nova telescola

Já se conhecem os conteúdos dos primeiros programas da nova telescola e as fichas de trabalho elaboradas como complemento das aulas. O modelo foi concebido como solução de recurso para os alunos que, retidos em casa, permanecem reféns da tecnologia do século XX: a televisão. Não se devem por isso esperar milagres de um recurso educativo que não irá seguramente anular, em tempo de pandemia, as desigualdades no acesso à educação. Se contribuir para mitigar o fosso que inevitavelmente se vai aprofundar entre os que têm e os que não têm, já não será mau de todo…

Sendo de destacar a dedicação e o esforço dos docentes que, em tempo recorde, fizeram os programas e os materiais de apoio, há que notar também a necessidade evidente de melhorar o modelo de ensino e aprendizagem com recurso à televisão, desde logo naquilo que já conhecemos, as fichas de trabalho que complementam as sessões. Se é apenas a isto que os pobrezinhos têm direito, convirá fazer um pouco melhor…

Burocracia… a distância

Recuperar e manter o contacto com os alunos desaparecidos, articular estratégias e actividades com os colegas, delinear horários, prazos e procedimentos: tudo isto está a consumir longas horas de trabalho aos professores neste arranque de um terceiro período diferente de tudo o que já experimentaram profissionalmente.

Contudo, há algo que me parece ainda mais desgastante e disruptivo do trabalho dos professores, que não deveria, nestes tempos difíceis, tirar o foco do que é essencial: o contacto, o acompanhamento, a orientação pedagógica dos seus alunos. Estou a referir-me, obviamente, à nova burocracia escolar que está a ser criada em torno do EaD, planos de trabalho semanal, planificações disciplinares, comunicações aos pais, registos de tudo e mais alguma coisa. É uma vez mais o espírito do controleirismo, insuflado nas escolas nas últimas duas décadas, a impor-se, como se os professores precisassem de policiamento constante e prestação de contas permanente para exercerem a sua profissão. Em tempo de aulas presenciais, escrever um sumário é mais do que suficiente para dar conta do que se fez. Porque é que, a pretexto da pandemia, terá de ser diferente?…

O boicote às aulas online

A semana que agora finda ficou tristemente marcada pelo verdadeiro bullying de alguns youtubers que entraram abusivamente em aulas por videoconferência, com o objectivo de as perturbar e interromper. O ataque, que rendeu dezenas de milhares de visualizações no youtube e donativos dos seus admiradores, configura diversos ilícitos criminais que se espera sejam investigados. E só foi possível com a colaboração de alunos presentes nas aulas que foram boicotadas: foram eles que forneceram as credenciais de acesso às sessões.

Um episódio lamentável, em que ninguém fica bem na fotografia. Os responsáveis ministeriais e dirigentes escolares que empurram os professores para as aulas online, sem assegurar os recursos necessários nem a formação e a segurança dos utilizadores. Os alunos que não souberam demonstrar respeito pelos seus professores nem merecedores do esforço destes para continuarem, mesmo em circunstâncias difíceis, a ensinar. Dos próprios professores, que não deveriam sujeitar-se a estas humilhações, usando ferramentas que não dominam. Mas, acima de todos, os youtubers que disfarçam a falta de criatividade e de talento com ataques soezes a profissionais que lhes deveriam merecer todo o respeito.

António Duarte, professor e autor do blogue Escola Portuguesa

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