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Avaliação da Semana | 400 milhões para a Escola Digital, infantários a meio gás, revolução à custa dos professores

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400 milhões para a Escola Digital

Entre o vasto conjunto de medidas destinadas a enfrentar a nova realidade económica e social decorrente da pandemia, está a aposta naquilo a que o Governo chama a “Escola Digital”. Os 400 milhões de euros prometidos deverão ter já despertado a atenção de um punhado de empresas candidatas a fornecer equipamentos e software educativo. Mas nada garante que isto não venha a ser, uma vez mais, uma mera oportunidade de negócio para uns quantos, sem efeitos reais e duradouros na melhoria da Educação.

Na verdade, o voluntarismo do Governo passa por cima de uma avaliação séria da realidade do [email protected] e da percepção clara, que têm os professores no terreno, de que a tecnologia não resolve, por si só, os problemas educativos. Pelo contrário: as soluções de ensino não presencial, ainda que apoiadas na melhor tecnologia disponível, não permitem chegar a todos os alunos e aprofundam desigualdades e assimetrias no acesso à educação. Mesmo as aprendizagens efectivas dos melhores alunos ficam aquém do que conseguiriam fazer no contexto do ensino presencial, em interacção com colegas e professores.

Fornecer computadores às escolas e aos alunos carenciados será decerto uma medida positiva que, ao fim de uma década de desinvestimento nesta área, só peca por tardia. Mas é uma ilusão perigosa acreditar que é por aqui que passa a revolução educativa do século XXI.

Infantários abertos… mas com poucas crianças

Na reabertura dos jardins-de-infância, repetiu-se um padrão que é recorrente da parte do Estado: impor aos empregadores privados regras que não cumpre com os seus próprios trabalhadores. Enquanto o pessoal das creches foi testado ao covid-19 antes da reabertura das instituições, na rede pública de educação pré-escolar, que voltou a receber crianças esta semana, em vez de jogar pelo seguro, confiou-se na sorte. E não se adoptou idêntico procedimento.

Talvez seja esta a principal razão que fez com que a maioria dos pais com crianças entre os 3 e os 6 anos de idade optasse por não levar os filhos ao infantário: a falta de confiança na eficácia das medidas preventivas que foram tomadas. Faltarem apenas quatro semanas para a conclusão do ano lectivo e as crianças terem acompanhamento através de outras soluções que as famílias foram encontrando são factores que também terão pesado nesta decisão.

E, afinal de contas, é seguro ir para o infantário nesta altura? Paradoxalmente, a resposta será, na generalidade dos casos, afirmativa. Pois com uma média de 70% de ausências os grupos ficaram naturalmente mais pequenos, o que permite o uso dos espaços segundo as novas regras, evitando situações de sobrelotação. Resta saber como será quando, lá para Setembro, regressarem todos…

Revolução digital… à custa dos professores?

Tem sido de bom tom elogiar o trabalho dos professores, assim como o dos profissionais de saúde e de outros trabalhadores que, durante a pandemia, não baixaram os braços, nem se entregaram ao desânimo ou à lamúria. Ao contrário dos que aproveitaram o confinamento para aprender novas habilidades caseiras, os professores reinventaram a sua profissão de forma a conseguirem continuar a acompanhar e a ensinar os seus alunos a partir de casa. Graciosamente, colocaram os seus computadores, telemóveis e acessos de internet ao serviço da profissão.

No entanto, quando se fala agora em prolongar, ainda que de forma parcial, a experiência do [email protected] no próximo ano lectivo, não é aceitável que se queira transformar a boa vontade em obrigação e a excepcionalidade em novo normal. Se pretende que os professores continuem a leccionar a partir de casa, o ME deve assumir a responsabilidade de fornecer os equipamentos e os recursos necessários para que esse trabalho seja feito. Ou de compensar os professores pelas despesas que venham a pagar do seu bolso. Quando se volta a falar em milhões para a Educação, e antes que eles se sumam em negócios duvidosos em torno de novos Magalhães ou de mais uns inúteis manuais digitais, é bom que os professores, e quem os representa, se façam ouvir na defesa dos seus direitos.

António Duarte, professor e autor do blogue Escola Portuguesa

1 COMMENT

  1. Lembram-se do programa E-escola?
    Pc’s a 200 …300 € para alunos e profs?
    Podiam fazer uma coisa do estilo para profs.

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