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Aulas Online? Vamos Lá Cair Na Real, Malta – Patrícia Reis

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O cenário idílico: as crianças em casa, em frente ao computador, do outro lado o professor, entusiasta da disciplina que for, desenrascado com as tecnologias, e capaz de prender às cadeiras, à distância, uma turma de pirralhos com dez anos. A realidade: não vai acontecer o cenário idílico, temos pena, tente mais tarde. Tempo de espera previsto? Talvez uns anos. E porquê, perguntarão alguns leitores que, na sua maioria residentes de grandes centros urbanos, consideram que são tu-cá-tu-lá com as tecnologias.

O banho de realidade vem já a seguir, segure-se bem que a água nem está tépida, está gelada: um em cada cinco alunos não tem computador em casa e 5% das famílias com crianças até aos 15 anos não tem internet. Pois é. Um smartphone nem é uma banalidade neste país, acredita? Portanto, vamos lá ver: como é que vamos manter os alunos ocupados (são dois milhões de alunos, senhores!) e a aprender até ao final do ano lectivo? A resposta é simples: não vamos, não somos um país modernizado de norte a sul, de este a oeste. E, tantas vezes, demasiadas vezes, encaramos o país com os olhos privilegiados de quem mora em Lisboa ou no Porto. O país não são essas pessoas, nas quais me incluo.

Uma amiga, com a filha em casa, ela que frequenta uma escola estrangeira cujo idioma a mãe não domina, está aflita com a perspectiva de não conseguir ajudar a filha e, mais ainda, com a possibilidade da filha transitar de ano escolar sem as bases exigidas pelo programa de ensino.

Para ensinar à distância existem agrupamentos que estão a pedir computadores a empresas, e há quem se recorde do projecto Magalhães de José Sócrates, talvez não tivesse sido uma desgraça, afinal talvez até fosse uma boa ideia. À falta de meios, das famílias e dos professores, há ainda que ter em conta que a miudagem não está habituada ao teletrabalho escolar e, tantas vezes, não terá a concentração para tanto. Não me refiro aos alunos universitários, esses sim, estão prontos para trabalhar remotamente (assim tenham como), quanto mais não seja porque têm outra capacidade de concentração e de compreensão sobre os dias que estão a viver. Os miúdos são vítimas do momento que atravessamos, as famílias não têm resposta, o país não tem condições, não há lugar para ilusões. Volta-se a falar de aulas através da televisão. Seja, vamos a isso, mas à portuguesa vamos ter de criar duas comissões, três gabinetes e um protocolo e regulamento, que a burocracia está mais no nosso sangue do que qualquer outra coisa. Num cenário idílico este último período escolar teria salvação? Sim, isso e porcos a andar de bicicleta também andariam pelo ar a deixar-nos os bens essenciais para sobreviver ao isolamento profilático.

Fonte: 24.sapo.pt/

 

 

1 COMMENT

  1. Claro que a colega tem razão. É um Tsunami e os destroços são muitos, uns contra os outros. Muitas linguagens/estratégias digitais simultâneas, muita parafernália. Os professores ingentes de inovação e de “agora é que vão ser elas” e os alunos e os pais perdidos na onda da inovação, muitos sem saberem nadar, muitos sem nunca ter visto uma praia. Uma casa com três crianças, vá, quantos computadores para usar ao mesmo tempo? e os pais em teletrabalho? cada qual onde? um no escritóriio?? outro debaixo da mesa da sala, que por cima já está o pai a trabalhar de um lado e a mãe doutro? a TV, uma boa ideia, mas com horários? o irmão do meio à mesma hora do mais velho?
    Claro que a escola do 3º período tem de funcionar. Ninguém pode ganhar ferrugem. Os neurónios têm de ser alimentados. Agora que a escola digital substitua a escola real? vou alí e já venho. Apenas resolve os problemas disciplinares. Agora são os pais que colhem o que semearem.

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