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Até quando iremos aguentar?

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«PORQUE MORREM OS PROFESSORES?!

No último mês morreram, em Portugal, quatro professores, no exercício das suas funções. A notícia já seria muitíssimo triste se fosse por acidente de trabalho, como infelizmente estamos habituados, quando a ouvimos ou lemos e o lamento é sempre o mesmo e sincero: “Coitado! É triste! Deixa mulher e filhos!”
Situações penosas, pais que deixam filhos, mulheres que deixam filhos.
Com os professores é igual.
Quatro professores morreram no cumprimento das suas funções. Uma mulher morreu durante uma aula: caiu para o lado! Os restantes morreram enquanto enviavam trabalhos, por email, para as escolas, ou a corrigir exames.
Todos morreram por exaustão, pois a ansiedade mata.
A ansiedade mata, a pressão exercida por muita gente mata. A pressão exercida de forma leviana por gente que julga os professores sem qualquer noção do que está a fazer, sem qualquer pudor, nem responsabilidade social. Somos, os professores, julgados indecentemente por qualquer cidadão, a quem “dê na bolha”, sem a mínima formação académica e cívica para o fazer. E, fazem-no impunemente!
Todos conhecemos, todos já ouvimos, todos já fomos indignados, pela desfaçatez com que somos enxovalhados em bares, em esplanadas, em autocarros, em locais públicos, em conversas em voz alta, nas escolas, em perfeita ingerência na atividade profissional, na formação académica e na dignidade pessoal, com mentiras a que nos temos calado, por gente que anda impunemente e “de cara levantada”, “cometendo o crime” de nos ir matando aos poucos, por sermos gente com família, com passado, com presente e sem futuro, por termos honra e vergonha.
Qualquer catraio de dez anos, ou menos, nos pode chamar mentiroso, a nós que temos netos da idade destas crianças e que sabem como devem falar com os mais velhos e respeitar todas as pessoas. Qualquer catraio chega a casa e conta a sua versão de situações que muitas vezes (a maior parte) não correspondem à verdade e a família aceita de braços abertos, de forma vergonhosa.
Esta é a verdade! Pura e dura!
A argumentação que se utiliza para contrariar estas realidades é a triste realidade de chamar incompetente, mentiroso, incapaz, irresponsável, a gente que estudou, muitas vezes sabe Deus com que sacrifícios, gente que trabalha há quarenta anos, gente que já passou os sessenta anos e que se vê vilipendiada por gente que nada conseguiu provar na vida, nem na escola, nem profissionalmente, nem socialmente. Estão fora desta realidade os muitos pais que também sofrem desta estirpe, por verem os seus filhos diariamente prejudicados pelo tempo que os professores perdem a escrever recados por faltas de material, por chegadas com atraso, por falta de estudo, por falta de testes por assinar, por violência contra colegas, por agressividade física e verbal sobre colegas, sobre funcionários, sobre professores, sobre condutores dos autocarros, sobre toda a gente. São os pais destes meninos, “colecionadores” destes recados que vêm à escola reclamar por testes mal corrigidos, por professores incompetentes, por escolas mal dirigidas, por alunos que chateiam os seus filhos, por notas mal atribuídas, por tudo e mais alguma coisa.
Só não se queixam dos recados que estão por assinar, dos almoços que não marcam e que os filhos não comem, pela atenção que não dão aos miúdos, pela agressividade que lhes transmitem com estes comportamentos que não têm só na escola.
As crianças funcionam em espelho! O que observam em casa, fazem na rua.
Depois, há professores a sofrer com isto, há funcionários exaustos com isto, há outros meninos prejudicados com isto!
Estas pessoas não fazem a mais pequena ideia do que se passa dentro de uma escola, não querem reconhecer que nas escolas temos que ser pai, mãe, professor, amigo, polícia, irmão, tutor de crianças com carências múltiplas e graves!
Sim, há muitas crianças com tutoria! Acontece, na maioria das vezes, porque, em casa, não se exerce esta função. O mais caricato é que há quem venha à escola “ensinar” como se deve fazer a tutoria de um filho!
Em que ficamos…?! Se sabem como se faz, porque necessitam de tutoria?!
Quando se começar a obrigar essas pessoas a justificar, nos locais próprios, com mediadores especializados, as conversas que têm sobre trabalhadores também especializados e que “matam” com a ansiedade que provocam, pela injustiça, pela mentira e pela calúnia, talvez isto entre na ordem.
Afinal, o que se faz a quem fala do que não deve, do que não sabe e do que não consegue justificar?!
Talvez, quando isto acontecer, algumas pessoas “sejam metidas na linha”, para bem dos professores, para bem das muitas crianças bem educadas, para bem dos muitos pais como deve ser, para bem de um país que se quer a evoluir e não o está, pela leviandade de algumas (muitas) pessoas!
Claro, somos humanos, temos família, temos vida e…morremos de ansiedade!»

Texto do colega António Girão

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