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Assistentes Operacionais

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De contínuos a funcionários, passaram por nomes mais pomposos como auxiliares educativos; agora têm uma designação mais técnica- são assistentes operacionais, seja lá isso o que for.

De qualquer forma desempenham funções fundamentais nas escolas. São recursos escassos, claramente insuficientes, e precários.

Em dia de greve, uma palavra sobre estas roldanas que fazem a engrenagem funcionar.  Greve justa, a meu ver, mas talvez não tão eficaz quanto seria desejável. Receio que a maioria não possa dar-se ao luxo de um dia de greve, dadas as remunerações exíguas e, por conseguinte, talvez não haja a adesão necessária para se conseguir o real impacto dessa greve. Se parassem em massa, a sociedade parava. Asseguram que a escola funcione enquanto os encarregados de educação trabalham.

Se os encarregados de educação sonhassem o que se passa nas escolas certamente haveria muita instituição fechada a cadeado e muita manif na rua. Penso que, na generalidade, deixam lá ficar os filhos de manhã, voltam ao fim do dia, e reclamam, se assim entenderem.

Terão noção de como é difícil manter uma escola limpa, segura e funcional?

Fechar portas para que nada seja roubado nos intervalos;

vigiar que os meninos não se matem no recreio, onde a euforia de estar “à solta” os põe, potencialmente, mais em risco;

impedir que atirem o lanche ao lixo com a pressa de ir brincar;

evitar que se engalfinhem quando perdem o jogo;

curar os arranhões das brincadeiras;

enxugar lágrimas de dor, mimo, saudades ou arrelias;

aparar birras;

detectar olhos brilhantes e testas quentes de febre;

lidar com todos os tímidos, os agressivos e os agredidos, os autistas, os hiperactivos, os malandros e os mal educados… todos ao mesmo tempo (e sem formação específica para o efeito);

assegurar que as casas de banho não se tornam fossas logo no primeiro intervalo;

garantir que ingiram alguma coisa na hora do almoço, pelo menos a sopa, e que a cantina não se torne um campo de batalha com alimentos a voar de mesa em mesa…

enfim, a empreitada é hercúlea!

E isso tudo em rácios absurdos, nem sempre respeitados, carradas de crianças para poucos adultos. Ninguém reclama, ninguém reivindica, mas se algo de errado acontece serão os poucos em funções que terão de responder…

O ministério tem de responder à carência e precariedade de pessoal não docente nas escolas. Volta e meia anuncia a colocação de uma mão cheinha de assistentes operacionais, migalhinhas para tapar o sol com a peneira, podia eu falar tanto acerca disso…Quando despejam para a escola os enjeitados sociais, vindos do fundo de desemprego, pessoas sem o mínimo perfil para trabalhar com crianças, enfim, repito: não sei como os pais mandam vir com tanta coisa e deixam passar outra tanta!

Ainda por cima não é um processo célere. Os próprios directores das escolas se queixam de um “calvário concursal”… Mesmo após o aval ministerial, há uma série de procedimentos que levam vários (demasiados) dias úteis até que alguém aterre na escola para cuidar dos nossos manelitos e margaridas.

Como na justiça, ou na saúde, morosidade equivale a ineficácia… é que precisamos de escolas operacionais todos os dias!

Este artigo foi originalmente publicado por mim aqui: http://martavista.blogspot.pt/2017/01/assistentes-operacionais.html

Mais sobre este assunto:

https://martavista.blogspot.pt/2016/07/escola-em-manutencao.html 

https://martavista.blogspot.pt/2018/01/abraco-forte-nano-conto.html


Cerca de 500 escolas encerradas devido a greve

(Público)

Cerca de 500 escolas estão encerradas nesta sexta-feira devido à greve dos trabalhadores não docentes, segundo um balanço de sindicatos que representam estes profissionais. Falam de uma adesão entre 80% e 85%.

O balanço foi feito ao final da manhã por Artur Sequeira, da Federação Nacional dos Sindicatos de Trabalhadores em Funções Públicas e Sociais, que lembrou os principais motivos do protesto: baixos salários, precariedade ou a falta de funcionários nas escolas.

UGT espera a mesma vontade do Governo para trabalhadores não docentes como para os da saúde

“Se não for agora quando será?”, desafiou. O secretário-geral da Federação Nacional de Educação (FNE), João Dias da Silva, afirmou, apesar de não ter dados sobre a adesão à greve, que há muitas escolas encerradas de norte a sul do país. A greve foi convocada por estruturas sindicais afetas às duas centrais sindicais, CGTP e UGT, no dia em que o calendário escolar tem marcada uma prova de aferição de Educação Física para os alunos do 2.º ano de escolaridade.

Oito em cada dez diretores escolares queixam-se da falta de assistentes operacionais, segundo um inquérito, realizado no mês passado. O trabalho, realizado pelo blogue Comregras em parceria com a Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP), revelou também que quase metade destes funcionários tem mais de 50 anos e apenas 1% ganha mais de 650 euros.

A maioria dos diretores escolares (82%) depara-se diariamente com a falta de funcionários, de acordo com os dados recolhidos junto de 176 dirigentes. Muitos destes trabalhadores estão nas escolas há mais de 20 anos e recebem o salário mínimo: 41,5% ganham 580 euros, 57,4% levam para casa entre 581 e 650 euros e apenas 1,1% tem um vencimento superior a 650 euros, segundo o inquérito.

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6 COMENTÁRIOS

  1. Como assistente operacional ou continúo,sinto um enorme orgulho!
    Não tem valor o trabalho que efectuo com as crianças e jovens no agrupamento em que trabalho.
    Fica aqui uma questão para quem ” reclama” os filhos são o ” nosso ” principal tesouro! Então e quem todos os dias se responsabiliza , trata e conforta?
    Quanto a si Marta o meu muito obrigado e um bem haja este Portugal merecia mais mães como a Marta.
    Muito, muito obrigada

  2. Eu me retrato neste texto, como auxiliar de acção educativa que foi esta a categoria com que comecei a trabalhar em 1986 no agrupamento onde ainda trabalho hoje já com 61 anos e poucas forças!
    Obrigada Marta por este texto que é a realidade das escolas hoje em dia!

  3. Obrigada Marta por ter retratado tão bem a minha profissão neste texto tão simples e tão bem escrito e descrito.

  4. Fantástico. É pena que os que ganham muito não percam um bocadinho a ler este artigo. Parabéns Marta e muito obrigada por todas nós, auxiliares, assistentes ou que nos queiram chamar. 🙂

  5. Só não concordo com uma coisa no texto: fazer a confusão entre autismo e mau comportamento. Autismo de facto precisa de acompanhamento de pessoas com formação específica e acredito que nem todas as pessoas estejam preparadas para lidar com estas crianças, mas é um problema efectivo não é um estado de espírito ou má criação.

  6. Pena que haja funcionários que não estejam minimamente interessados no bem das crianças, antigamente se nos viam com a cabeça ao sol já estávamos a ser chamados à atenção hoje em dia passam o dia ao sol.sem chapéu (apenas 1 exemplo), nem tudo é assim como diz o texto mas como em todo lado há funcionários e funcionários.

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