Home Escola As transições administrativas compensam?

As transições administrativas compensam?

609
0

Esta é uma eterna questão e muito se fala em estudos sobre as vantagens e desvantagens das passagens administrativas. O Luís Costa do Bravio, apresentou um estudo que ele próprio realizou na sua escola e que prova que a transição administrativa nem sempre é sinónimo de sucesso.

Cortar as asas aos alunos?

A “pedido” do meu amigo Alexandre Henriques, editor do blogue ComRegras, publico aqui uma pequena parte de um estudo de caso que fiz, em 2004, na Escola EB 23 de Real, Braga.

Com o objetivo de perceber o que acontecia — não na teoria, não no mundo das suposições ou das crenças, mas na prática, no nosso país, numa escola concreta (a minha), com alunos concretos, de carne e osso — resolvi estudar o percurso escolar dos alunos retidos e o daqueles que, então, apesar de terem negativas suficientes para ficarem retidos, eram aprovados administrativamente (sei que a designação é simplista, mas serve), pelo Conselho de Turma, ao abrigo do Despacho Normativo 644-A/94 e do Decreto-Lei 30/2001. O estudo abrangeu os anos letivos de 1999/2000 a 2003/2004.

Farto de ouvir dizer que reter os alunos é “cortar-lhes as asas” (discurso com renovadíssima atualidade), meti pés ao caminho e fui ver o que se passava. Vejam só o que eu vi, “claramente visto”:

Desempenho no ano seguinte

*Tem historial de sucesso o aluno que obteve aprovação em todos os anos letivos posteriores. Todos os restantes casos foram considerados como historial de insucesso.

Historial de desempenho

CONCLUSÕES DO ESTUDO

ALUNOS APROVADOS ADMINISTRATIVAMENTE

  • Elevada taxa de insucesso no ano seguinte;
  • Significativo número de alunos que, no ano seguinte, voltaram a transitar administrativamente;
  • Relação ténue do número de negativas com o sucesso/insucesso no ano seguinte;
  • Elevada percentagem de insucesso nos alunos que são aprovados administrativamente no 5.º e 7.º anos;
  • Maior taxa de sucesso nos alunos que são aprovados administrativamente no 8.º ano;
  • Relação ténue dos níveis negativos de L. Portuguesa e Matemática com o sucesso/insucesso no ano seguinte.

ALUNOS RETIDOS

  • Considerável taxa de sucesso no ano seguinte;
  • Significativo número de alunos não matriculados (abandono escolar);
  • Relação ténue do número de negativas com o sucesso/insucesso no ano seguinte;
  • O número de retenções, no 7.º ano, tem vindo a diminuir paulatinamente;
  • A maior taxa de sucesso, no ano seguinte, verifica-se nos alunos retidos no 5.º ano;
  • Relação ténue dos níveis negativos de L. Portuguesa e Matemática com o sucesso/insucesso no ano seguinte;
  • Historial de pleno sucesso muito significativo.

Eu tenho uma opinião diferente da do Luís sobre esta matéria. Mas considero o estudo importante até para alertar que a passagem administrativa só por si, não resolve nada, aliás, a passagem administrativa tem inúmeros perigos e é imprevisível. Por isso defendo que professores e principalmente os pais, no momento da retenção/transição, façam o seu trabalho e incutam no aluno/filho o significado da sua retenção ou transição “abençoada”. Se vamos esperar que o aluno, por si só, leia as entrelinhas da decisão do conselho de turma, então mais vale jogar no euromilhões que as probabilidades são melhores…

Como referi existem outros estudos, nomeadamente da OCDE e do qual fiz referência – deixo o link e um gráfico elucidativo

A retenção tem cariz excecional. 86% dos alunos retidos não recuperam.

percentagem de alunos que recuperaram

Não querendo abusar da vossa paciência, pois sei que só gostam de artigos pequenos e o tempo e a paciência são um bem escasso nos tempos que correm, recomendo a leitura do artigo do Gabriel Vilas Boas, que vai ao encontro da minha posição e que deixo um excerto.

“RETER O ALUNO NÃO É SOLUÇÃO!” ENTÃO, QUAL É A SOLUÇÃO?

Enquanto Diretor de Turma entreguei hoje os registos de avaliação dos alunos da minha direção de turma. Cerca de 90% dos alunos transitaram. Pais, alunos, professores sabem perfeitamente que mais alguns deviam ter ficado retidos, no entanto, várias circunstâncias acabaram por ditar a sua transição. Foi a melhor solução? Provavelmente, foi a menos má.

Mesmos os professores da velha guarda já se renderam à evidência do sistema: reprovar o aluno, raramente melhora o seu rendimento escolar. Nos anos seguintes, o aluno repete a atitude desinteressada, continua desatento, desmotivado, relapso nas suas obrigações. Se for colecionando “chumbos”, provavelmente vai tornar-se também num problema de comportamento, pois a disparidade etária dentro da sala de aula aumenta assim como a sensação de frustração e impotência perante o insucesso.

Por fim uma sondagem sobre as passagens administrativas e a forma como são feitas, um assunto pertinente e que falarei mais tarde.

[socialpoll id=”2369759″]

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here