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As razões do SIM e do NÃO para regressarmos à escola JÁ

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SIM (ALEXANDRE HOMEM CRISTO)

Com a atual queda dos níveis de contágio, a avaliação de risco/benefício justifica a reabertura gradual das escolas, a partir do início de março, começando pelas creches, pré-escolar e 1º ciclo do básico. Porquê? Porque o dano social de manter as escolas fechadas tornou-se maior do que o contributo dessa medida para a contenção da pandemia.

Os benefícios da reabertura são conhecidos: o ensino presencial devolve a oportunidade de aprendizagem e desenvolvimento a centenas de milhares de crianças. Não é exagero — um ano depois, conhecemos os efeitos do confinamento e do ensino a distância. Primeiro, como aceleradores de desigualdades sociais e educativas: a aprendizagem fica pior para todos, muito pior para os alunos mais novos e muitíssimo pior para aqueles em risco de insucesso escolar ou oriundos de contextos sociais desfavorecidos. Segundo, como desestabilizadores do desenvolvimento físico, mental e social das crianças — há sinais do deteriorar da sua saúde. Terceiro, porque os alunos do ensino básico já sofreram um longo período sem ensino presencial em 2020 (dos mais longos na UE), que acumula com o atual.

Ninguém quer desconfinar à pressa e depois pagar o preço. Por isso, a questão é se é possível minimizar os riscos de reabertura das escolas através de planeamento adequado. E, como eu, são muitos os professores, diretores escolares, epidemiologistas, médicos e peritos que argumentam que sim — com condições.

Pela experiência do 1º período, é possível conciliar a contenção da pandemia com o ensino presencial

Há que ser claro no discurso: reabrir escolas não pode ser sinónimo de desconfinamento geral. Ou seja, não pode ser um passo rumo à reabertura do comércio ou da restauração, nem um incentivo à suspensão do teletrabalho. Reabrir gradualmente as escolas a partir de março tem de ser apenas isso: reabrir gradualmente as escolas.

Pela experiência do 1º período de aulas, sabe-se que é possível conciliar a contenção da pandemia com o ensino presencial. O cumprimento dos protocolos sanitários tornou as escolas espaços controlados e com baixa incidência de contágio, sobretudo para os mais novos. Mas mesmo esses protocolos devem agora ser reforçados — por exemplo, com testes regulares para detetar assintomáticos.

A reabertura gradual tem a tripla vantagem de restringir o ensino presencial aos alunos mais novos. Porque são esses os mais prejudicados pelo ensino à distância. Porque a faixa etária até aos 10 anos é a que revela menores riscos para a sua saúde e a dos outros. E porque assim se limitaria o número de alunos que voltaria às rotinas do ensino presencial, mantendo-o reduzido.

Externo às escolas, não ignoro o risco de a reabertura incentivar maior circulação da população. É um risco reduzido com o comércio encerrado, mas efetivo quanto ao cumprimento do teletrabalho. Mas, se afinal tudo se resumir a esta questão instrumental, lamente-se que a paixão pela Educação seja derrotada pela inércia: triste o país que sacrifica as crianças, os jovens, os mais frágeis do seu tecido social porque, afinal, de outra forma não consegue segurar os adultos em casa.

Subscritor do abaixo-assinado ‘Prioridade à Escola’

NÃO (RUI GUALDINO CARDOSO)

Os números da covid-19 baixaram e as vozes levantam-se para que as escolas abram. Ora bem, a pressa sempre foi inimiga da perfeição.

As escolas, embora não sejam um local primordial de transmissão da doença, são um vetor a ter em conta. A mensagem que se tem passado é de que as escolas são um lugar seguro. São tão seguras como qualquer outro lugar.

As escolas prepararam este ano letivo tendo em conta os cenários que poderiam ser despoletados pelo evoluir da pandemia no país. Tudo o que estava ao alcance das escolas foi cumprido ao detalhe. Mas tudo não chegou. A escola não falhou, foi a sociedade e a prevenção que falharam.

As escolas voltaram a fechar porque o SNS não aguentava a pressão de ter toda uma sociedade em movimento.

Qualquer professor de História ensina aos seus alunos que necessitamos conhecer o passado para enfrentar o futuro. Esta é a primeira razão pela qual as escolas não deverão reabrir antes de uma avaliação dos riscos e da elaboração de um plano para a sua reabertura baseado em dados científicos.

O regresso à escola é uma luz no fundo do túnel, mas para atravessar este caminho ainda faltarão mais umas semanas

Outro dos fatores preponderantes para a não reabertura das escolas é a capacidade de organização da testagem em massa que se quer implementar.

O regresso às atividades letivas presenciais deverá ser realizado, unicamente, quando as condições sanitárias deem um sinal de confian­ça à sociedade. Dados das duas últimas semanas são animadores, mas os especialistas avisam de que nada está garantido.

As escolas só deverão reabrir quando a comunidade científica assegure que estão reunidas as condições sanitárias. O regresso neste momento iria transmitir à sociedade uma falsa sensação de segurança.

As escolas irão reabrir, mas as condições têm que ser asseguradas, e para isso é necessário um plano. Esse plano não pode falhar.

O faseamento do regresso às aulas presenciais é um fator que pode permitir uma avaliação entre a reentrada de um nível de ensino e outro. A reabertura das escolas por ciclos de ensino, intervalados por 15 dias, para permitir uma análise da evolução, seria o ideal para uma atuação atempada. O ensino secundário poderia recomeçar as atividades presenciais pelo último ano, ficando os 10º e 11º anos em regime misto durante 15 dias.

Muitos selecionam a perda de aprendizagens e a evolução a várias velocidades dos alunos nas suas aprendizagens como uma das razões para o imediato regresso ao regime presencial. Mas os professores fazem ajustes à avaliação e ajustam os conteúdos ao ponto de entrada dos alunos. Assim sendo, a recuperação das aprendizagens dos alunos está protegida.

O regresso ao ensino presencial é um objetivo pretendido por todos. Os professores sentem-se muito mais realizados profissionalmente, os alunos aprendem e consolidam conhecimentos com mais facilidade.

O regresso à escola é uma luz no fundo do túnel, mas para atravessar este caminho ainda faltarão mais umas semanas.

Professor do 1º ciclo no Agrupamento de Escolas do Viso

In Expresso

 

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