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As nações das turmas numerosas não podem continuar a falhar – Paulo Prudêncio

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Antes de mais, deseja-se que a ciência nos retire deste pesadelo. Enquanto não se dissipa a tempestade, as nações das turmas numerosas encerram escolas e olham o futuro com apreensão. E um regresso à história dos últimos três milénios (D. Acemoglu e J. Robinson) centra o debate no essencial. Apesar das teses que inscrevem as riquezas naturais, a geografia, a religião ou o clima, as nações falham pela incapacidade em transformar — consistentemente durante décadas — políticas, instituições e empresas extractivas (que aglomeram a riqueza em “elites” e oligarquias) em inclusivas (que distribuem a riqueza e reduzem as desigualdades), com reflexos na economia, na cultura, nas empresas e na escolarização.

E as turmas e as escolas numerosas são um indicador extractivo nuclear das desigualdades com e sem pandemia. A sua eliminação gera sucesso escolar com qualidade e aumenta o número de membros de uma componente decisiva das democracias: a classe média. Essa supressão, que arrasta soluções para outras áreas críticas do universo escolar, é uma exigência desta conjuntura, mas pode projectar-nos estruturalmente nos médio e longo prazos. Nesta fase, a frequência das turmas numerosas e a sua envolvência interna (salas de aula, corredores, refeitórios e recreios) e externa (acessos, espaços de lazer e habitações), cria plataformas giratórias da disseminação do vírus na sociedade.

E quanto mais tarde se fecham as turmas numerosas numa pandemia descontrolada, pior. O seu encerramento foi fundamental na 1.ª vaga e permitiu evidências científicas: em 17 de Junho já se percebia que “uma turma de 20 contacta 800 pessoas em 48 horas” — quanto mais de 30 — e em 9 de Dezembro “concluía-se que a reabertura das escolas foi uma das decisões mais relevantes para a segunda vaga pandémica na Europa e na América do Norte”.

Além disso, desde Setembro que se observava que as escolas (por muito que se esforçassem professores, outros profissionais de educação e alunos) não cumpriam os 3 c’s (distância física, espaços fechados e aglomeração de pessoas) e que não eram avisadas as epifanias da “escola é segura” e do “está tudo a correr bem”. E num momento imperativo para palavras-chave como incerteza e humildade, havia uma “confraria pela verdade” que integrava comentadores, deputados, dirigentes escolares e dirigentes de pais, que o advogava acrescentando outro aparecimento: “Os números de infectados sobem quando as escolas encerram.”  

A menos que se tivesse algum contacto divino para solicitar a falta de comparência do vírus nas escolas — “já Laplace dissera a Napoleão: na ciência Deus é uma hipótese desnecessária” —, os dados da perda de controlo da pandemia em Portugal eram taxativos: não se conheciam, em Dezembro, 87% dos locais de contágio e os universos sanitário e escolar tiveram, em Novembro, a indicação de que a “covid-19 acelerou entre a população mais jovem, que foi no grupo dos 10 aos 19 que o contágio mais cresceu com a agravante de ser nas crianças e nos jovens que se concentra o maior número de falsos negativos e assintomáticos”.

Enquanto a cadeia de contactos acelerava, o discurso recorria à historicamente insensata pedagogia da criança-rei: “A geração que está na escola não pode perder novamente semanas de aulas.” Ou seja, é uma geração que não se deve sacrificar para salvar a vida dos avós ou bisavós. Numa altura em que tanto se teme o crescimento do autoritarismo, recupere-se Hannah Arendt — “Entre o passado e o futuro, oito exercícios sobre o pensamento político” —, por muitos considerada a filósofa que melhor desconstruiu o nazismo, e perceba-se os perigos para a democracia com a educação de gerações de invencíveis, e ressentidos, egoístas (o grupo etário até aos 10 anos frequentou sem máscara salas de aula com turmas numerosas).

Acima de tudo, as aulas são presenciais; embora se saiba que, em regra, não há aprendizagens completas, longe disso, tanto atrás de um ecrã como de uma máscara; e muito menos nesta actualidade. Só a aflição e o desconhecimento equacionou a opção entre ensino à distância e aulas presenciais. Nunca se tratou disso. Aliás, optar neste momento pela Internet como recurso ocupacional e formativo é mais sustentado do que na 1.ª vaga.

Só que o marketing político gerou desconfiança e zangou as pessoas. Como nos recordamos, e pouco depois do início do ensino à distância, ouviram-se elogios à escola digital do século XXI (até a flexibilidade curricular, e perante a perplexidade de quem lecciona, foi usada em pleno parlamento como atributo do sucesso). Agora, que interessava a escola aberta, já tinha sido, afinal, um falhanço. O que nos falta fazer nesse domínio é muito exigente e teme-se que ainda não exista massa crítica: para além da redução de alunos por turma ou organização, a escola caminhará, com salas de aula, para uma abrangente sala de estudo (ou biblioteca: A. Nóvoa) em ambiente de conectivismo (tese de George Siemens que seria preciosa na pandemia).

Por fim, a escola a tempo inteiro sublinhou a ausência da sociedade na educação. Para além de se terem eliminado 8967 escolas desde o ano 2000 — quase o dobro das que existem e desertificando o interior do território —, até as refeições das crianças, que a escola assegurou na 1.ª vaga e voltará a fazer agora, são um argumento com peso político. É chocante. Inscreve a falência da sociedade, uma vez que há fins-de-semana, interrupções lectivas e férias.

É importante que se recorde que a escola é apenas um subsistema, mas com uma insustentável centralidade entre nós porque a sociedade não se responsabiliza pela educação. Mas, e desde logo neste momento de crise, deve ser convocada para cinco soluções simples, a pensar nos 3 c’s dentro e fora da escola, e na redução dos contactos entre 50% e 75%: horários desfasados, turmas por turnos (semana sim, semana não), desconcentração de intervalos, pequenas interrupções a cada quatro ou cinco semanas de aulas e redução temporária da carga curricular para simplificar a execução das quatro primeiras. Ou seja, as nações das turmas numerosas não podem continuar a falhar.

Fonte: Público

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