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As escolas fecham e agora? “Não vale a pena dramatizar demasiado a situação”

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A resposta das crianças era inequívoca: sentem-se mais seguras em casa, mas aprendem muito melhor na escola. O primeiro-ministro António Costa encontrou então uma solução que parece resolver esse problema — fecham-se as escolas por 15 dias, mas sem ensino à distância. Em conversa com o PÚBLICO, os especialistas acreditam que esta será a melhor solução para crianças e famílias e revelam-se, no geral, optimistas.

Não é a primeira vez que crianças e adolescentes estão em confinamento com as escolas fechadas e esse é, claramente, um ponto a favor, indicam os especialistas. “Não podemos olhar da mesma forma para este confinamento. O primeiro, em Março, não tinha um horizonte temporal”, explica José Morgado, investigador do ISPA – Instituto Universitário, em Lisboa, que acrescenta estar “optimista”.

O psicólogo e investigador da Universidade do Minho, João Lopes, concorda: “O ser humano tem uma capacidade imensa de adaptação e nas crianças ela é ainda maior.” O professor reconhece que as crianças podem ficar com saudades dos amigos e de participar em “actividades organizadas”, mas “essa falta é mitigada”, mal regressarem à escola.

Este novo confinamento vai ser vivido “em modo de férias”, acredita João Morgado. Do ponto de vista da aprendizagem, o docente do ISPA não apresenta “grandes preocupações”, dado que “estamos em meados de Janeiro” e com “capacidade para recuperar”, mesmo que a escola fique fechada “mais três ou quatro semanas”.

Já para o psicólogo João Lopes, os constantes “soluços” de encerramentos prejudicam a aprendizagem. Ainda assim, o investigador universitário avisa que “não vale a pena dramatizar demasiado esta situação” e evoca o optimismo das crianças para todas as situações — “mesmo em cenários de guerra”, continuam a brincar.

O fecho das escolas sem ensino à distância promete também facilitar a dinâmica familiar, já que, relembra João Morgado, agora os pais não têm também “o peso de ser professores”. Ainda que as crianças estejam de férias, o investigador aconselha que se mantenham algumas rotinas familiares, dado que “estas são organizadoras do comportamento”.

“Corpos activos dão cérebros activos”

E se do ponto de vista da aprendizagem, os danos não serão nefastos — assumindo que o confinamento não se prolongará — Carlos Neto, investigador da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa, está preocupado com a “regressão no desenvolvimento motor”, fruto de um período longo de pandemia. O docente lamenta a proibição da permanência em espaços verdes públicos imposta pelo Governo: “O aprisionamento do corpo tem muitas consequências, em especial para as crianças”.

Quinze dias em casa sem actividades lectivas podem ser a oportunidade perfeita para dar às crianças “liberdade de usar o espaço” e “livre expressão corporal”, que o investigador diz ser fundamental, já que “corpos activos dão cérebros activos”. Devem ser evitadas actividades sedentárias, sendo estas substituídas, sugere o especialista, por jogos, explorações na rua, nas imediações de casa, dançar e cozinhar em família.

Carlos Neto pede uma “atenção redobrada” aos pais para que incentivem as crianças a brincar — aquilo que chama “estado de emergência de brincar ao ar livre”. Se deixarem de brincar, “estão a perder uma capacidade de regulação emocional”, “a deixar de viver o risco”, a “criar vulnerabilidades” e depois “o corpo é que paga”, alerta o investigador.

Pode não ser fácil inventar novas brincadeiras para os mais pequenos, reconhece o docente da Universidade do Minho, “é preciso uma grande criatividade e disponibilidade interior dos pais” para “descobrirem os filhos de uma outra forma”. “É preciso reinventar o tempo de estar em casa” — defende o especialista, que compara o “corpo em confinamento” a uma “espécie de vivência da vida na ponta dos dedos”.

Para João Morgado, nem tanto ao mar nem tanto à terra e, em especial, nos pré-adolescentes e adolescentes é importante que “mantenham a rede de contactos” com os amigos e colegas da escola, através das redes sociais. Essa interacção permite “abrir janelas de esperança”, conclui.

Fonte: Público

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