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As condições (im)possíveis!

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As condições que temos nas escolas serão as possíveis … se possível.

Seria estranho conseguirmos ter as condições impossíveis. Seria um paradoxo curioso.

É absolutamente extraordinário que, no ensino neste momento, se fale em “condições possíveis”. Se a expressão base é o “sempre que possível” implicitamente se diz que se não for possível cumprir uma dada condição… não faz mal, cai no capítulo das impossíveis e obviamente não se pode violar o paradoxo de ser possível uma condição que é, por definição,  impossível.

Na praia, ao ar livre os alunos tinham 8 m2 por cabeça de acordo com as orientações da DGS.
Era possível.

Se tivessem ido à Festa do Avante com os pais teriam os mesmos 8 m2, ao ar livre, mas com máscara, de acordo com as orientações da DGS.
Era possível.

Quando forem à escola vão ter cerca de 3.14 m2 .
É o possível.

Bem … nem sequer isso. Porque a sobreposição da área útil, do espaçamento de 1 metro entre alunos torna esse valor em quase metade ou até menos.

Bem… mas nem sequer isso. Porque apenas será assim … se possível, como os diferentes exemplos de vários professores que nos têm chegado o demonstram. A distância entre alunos poderá ser bastante inferior a um metro com a área útil para cada aluno a ser severamente diminuída.

O gráfico faz a comparação com a área disponível por pessoa para vários cenários de acordo com a informação veiculada na comunicação social.

 

Os recursos nas escolas são praticamente os mesmos …

O número de professores é praticamente o mesmo …

Os computadores nas escolas são praticamente os mesmos, provavelmente até são menos porque houve, entretanto, uns quantos que morreram de velhice …
(os 100.000 que vão chegar são, aparentemente, para os alunos … não para as escolas – acho muito bem que os alunos tenham PC. Acho mal que as escolas tenham “chocolateiras”)

As mesas são praticamente as mesmas …
(o que originou algumas soluções tipo Tetris de alguns professores mais criativos – os meus sinceros parabéns são soluções brilhantes … dignas de um jogador de alto nível!)

Mas a escola tem a autonomia para resolver o problema. Portanto resolva-o. Se possível. Com os mesmos exatos recursos… ou até com menos ….

Parafraseando o Jorge Ascenção, presidente da CONFAP, na conferência do #somossolução: “nem a Escola é uma praia, nem o professor é o nadador salvador. […] dentro da escola vai haver rigor imposto pelo professor. “

Está-me cá a parecer que, se correr mal, os culpados do costume vão ser os professores… porque não tornaram o impossível possível.

Tudo isso é muito bonito, mas …. e soluções?

As soluções passam por gastar dinheiro. Inevitavelmente.
Num sistema de ensino, já completamente sufocado do ponto de vista financeiro (no pun intended!) … não podia ser de outra forma.

As soluções poderiam passar por diminuir o número de alunos por turma. Para diminuir o número de alunos por turma não é necessário aumentar 100% o número de professores. Bastava que em cada 3 turmas de 25 se fizessem 5 turmas de 15 para “apenas” aumentar o número de professores 66%. É um aumento de custos? Claro que é. É sempre possível? Claro que não. Poderia alterar-se este rácio ? Sim claro. Mas turmas de 28 alunos não faz sentido numa escola “normal”, quanto mais numa escola sob uma pandemia. A Itália optou por uma solução similar.

As soluções poderiam passar por aumentar os espaços disponíveis, complementando a redução do número de alunos por turma. Há tantas infraestruturas camarárias vazias neste momento por falta de eventos que, se os municípios se tivessem mobilizado, tal seria fácil de resolver. A Grécia optou por esta solução colocando ao serviço das escolas várias infraestruturas (verdade seja dita, muitos municípios portugueses tiveram atitudes similares)

As soluções poderiam passar por minimizar o tempo dos alunos na escola, alternando com ensino à distância numa solução híbrida ou mista. Espanha, alguns estados dos EUA, Japão e Uruguai optaram por variantes sobre esta solução.

As soluções poderiam passar por diminuir objetivamente a carga horária das disciplinas, concentrado nas “aprendizagens essenciais”, num regime de “flexibi… Desculpem… nem consegui acabar a frase.

As soluções poderiam passar por reduzir a presença dos mais velhos (alunos), para permitir um mais cuidado acompanhamento dos mais novos. Partes da China e da Coreia tiveram esta solução, aplicando um ensino misto nos anos mais tardios, permitindo assim reservar espaços para diminuir o número de alunos por turma dos mais pequenos, garantindo assim que o impacto para os mais pequenos era menor: podiam brincar nos intervalos, menos alunos por turma, etc…

Mas há medidas adicionais tomadas noutros países que foram completamente ignoradas em Portugal, ou que só tiveram adesão fruto de uma clara mensagem da sociedade:

  • Na Itália as crianças que pertençam a agregados familiares com membros de grupos de risco, ou sejam elas próprias pertencentes a grupos de risco, podem assistir às aulas remotamente.
  • Em Espanha as escolas são enfaticamente recomendadas a prioritizar as atividades ao ar livre tentando evitar que os alunos passem demasiado tempo dentro da sala de aula.
  • Nalguns países, todos os que entram em contacto com crianças são testados para COVID, prevenindo assim possíveis focos de infeção. Em Portugal, apenas devido ao esforço de alguns municípios e Governos Regionais, está tal a ser realizado.
  • Nos Países Baixos as escolas foram recomendadas a rever todos os seus sistemas de ventilação, com medidas exatas da qualidade de ar interior.

Se é verdade que cada escola é uma escola e que cada caso é um caso, como é que se passa de uma situação em que a escola não tem dinheiro para mudar um tampo de sanita ou gerir o seu economato, para uma situação em que se combate uma pandemia, sem efetivamente gastar bastante mais dinheiro?

Compare-se, então, o que foi feito por esse mundo fora com o que está a ser feito em Portugal, num espírito de racionalidade e sem quaisquer enviesamentos ideológicos ou políticos.

Há muitas soluções que poderiam ser implementadas … e são possíveis.

1 COMMENT

  1. Aqui está uma publicação digna de se ler, em que se criticam sim, as medidas tomadas nas escolas portuguesas, mas também se apresenta soluções, sejam elas viáveis ou não. Não é criticar só porque sim.

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