Início Editorial Artigo Semanal – Professores contratados, distribuição de serviço e seus vencimentos.

Artigo Semanal – Professores contratados, distribuição de serviço e seus vencimentos.

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CochesO mês de julho pode não parecer, mas é dos meses mais importantes para os professores. E não estou a falar no facto de ser o mês anterior às tão pretendidas e necessárias férias. O mês de julho, é o mês onde normalmente se define a distribuição de serviço.

O ser humano é por natureza egoísta e a sua boa vontade e solidariedade, apesar de estarem presentes em inúmeras situações, não são a matriz do seu comportamento. O mesmo se passa no mundo dos professores: o mês de julho é o mês onde se coloca em prática o jogo do “empurra”. Esse jogo consiste basicamente em empurrar tudo o que é turma e cargo complicado para os outros colegas. É o mês dos bastidores, onde se vê quem de facto tem influência nas escolas. O mês que determina a carga laboral e muitas vezes a sanidade mental no próximo ano letivo.

A distribuição de serviço está normalmente associada à continuidade pedagógica e ao tempo de serviço do professor. A parte do tempo de serviço não está escrita em lado algum, nomeadamente nos regulamentos internos, mas é um método instituído nas escolas e aceite pela generalidade da comunidade docente. O problema é que este método determina normalmente que as piores turmas (vocacionais/profissionais/turmas com maior número de alunos) caiam no “colo” dos colegas contratados, que nesta altura estão mais preocupados com concursos, BCE e afins.

A direção, como é óbvio, tem total (sim, total) responsabilidade sobre este procedimento. A politica do “salve-se quem puder” por parte do corpo docente afeto à escola, é um sentimento natural, em virtude da elevada carga laboral e complicações inerentes aos cargos e turmas mais difíceis. A direção fica numa posição incómoda pois, se aceita as orientações dos seus professores, vai ter de lidar no próximo ano letivo com inúmeras problemáticas, nomeadamente ao nível disciplinar. Por outro lado, se é a própria direção a fazer a distribuição de serviço, vai certamente melindrar certos “estatutos instituídos”…

Os colegas contratados, além de terem de percorrer “n” quilómetros para arranjarem um horário e abandonarem seus lares e amigos, têm muitas vezes uma comitiva de receção que os brinda com turmas de “alto gabarito” e horários que mais parecem um queijo Suíço. Esta é muitas vezes a sina de quem profissionalmente vive com um horizonte anual.

Mas não ficamos por aqui. Existe uma outra faceta que poucos falam, mas que está presente no subconsciente de muitos professores. Ao contrário do mundo empresarial e outros ramos da função pública (forças armadas, polícias, serviços administrativos, etc.), o vencimento dos professores não é proporcional às suas responsabilidades e/ou carga laboral.

(Um esclarecimento: retiramos desde já as direções, pois recebem um suplemento que, no meu entender, é perfeitamente justificável.)

O sistema remuneratório está ligado a uma hierarquia de tempo de serviço que nada tem a ver com mérito, responsabilidades ou carga laboral. A avaliação existente é uma fachada política, com consentimento sindical e que resulta num documento de 3 páginas, onde ainda antes de o entregarmos, já sabemos que a classificação atribuída será de “Bom”. Pelos motivos já referidos, é prática comum que os colegas com vencimentos mais baixos- muitos deles sem vínculo definitivo- assegurem os cargos mais complicados que a lei ainda permite, como as direções de turma. É seguramente dos cargos de maior responsabilidade e que mais trabalho dá. E quanto maiores, mais indisciplinadas e menos assíduas são as turmas, maior é o número de horas para o damage control.

Como resolver esta situação? É possível, mas nunca irá acontecer, porque o “lagostim” não tem os meios para derrubar a “lagosta”. Bastava que os cargos fossem atribuídos a quem está nos escalões mais elevados ou, em último caso, que fossem atribuídos suplementos remuneratórios a quem os tem e terminaria esta “exploração”.

De repente o jogo do “empurra” passaria a chamar-se o jogo do “agarra”…

Mas fiquem descansados, pois está instituído desde há muito, um prémio para os professores que desempenhem os seus cargos com elevados níveis de profissionalismo. Sabem qual é? Um carimbo na testa, com um nome muito técnico: “perfil”. São sempre os mesmos professores que levam com as tarefas mais complicadas, com a dose extra de problemas e que passam o ano a fazer das “tripas coração” para conjugar trabalho e vida pessoal.

São os professores previsíveis, que nunca dizem não e que fazem o trabalho com competência, assegurando uma série de serviços, mesmo depois das aulas terminarem. São aqueles que vivem no romantismo da escola pública, que ainda lutam por ela e que não se aproveitam.

Esta é a escola que pouco se fala, onde existem “Senhores” e “Servos”, onde alguns são sugados enquanto outros passeiam na altivez das suas carruagens douradas…

Imagem retirada de: http://www.portugalsenior.org/?p=18730
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1 COMENTÁRIO

  1. Muito Bom! Enquanto fui lendo o artigo fui recordando imagens dos últimos 15 anos como se estivesse a rever um filme. Só faltava dizer que, apesar desta “competência toda” dos professores da elite, os candidatos são os que têm que prestar provas. P.S Não precisei fazer a prova, tenho mais de 5 anos de TS, mas continuo a não concordar com ela.

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