Início Editorial Artigo Semanal – Engraçadex, um produto que acaba com os alunos engraçadinhos…

Artigo Semanal – Engraçadex, um produto que acaba com os alunos engraçadinhos…

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Cansado das bocas foleiras? Farto das graçolas de mau gosto? A sua aula mais parece um café? Não se preocupe, nós temos a solução! ENGRAÇADEX! Com Engraçadex as suas aulas ficarão imunes a chico-espertices. De fácil aplicação e de rápida eficácia. Um produto ComRegras.

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Era rápido, fácil e barato, só que os nossos dias como professores estariam certamente contados…

Agora a sério. Este tipo de comportamentos pode-se enquadrar na denominada pequena indisciplina. Os “bitaites”, os ruídos parasitas, são perturbadores do processo ensino-aprendizagem e quando sistemáticos, podem irritar até o mais calmo dos professores. Alguns comentários/ atitudes até podem ser um bálsamo na aula, desde que sejam feitos com bom gosto e não paralisem toda a sua dinâmica. O problema é que são muitas vezes dirigidos a colegas e/ou professores e a sua qualidade é no mínimo questionável…

Os adolescentes querem deixar a sua marca, é uma questão de afirmação social, e para isso a rebeldia é um meio rápido e eficaz. Algo tão natural como as nossas crises de meia-idade.

Então como é que devemos reagir quando um aluno diz, ou tem alguma atitude menos própria em contexto de sala de aula?

A atitude mais comum quando um professor assiste a um comportamento deste género é a aplicação da medida corretiva – advertência oral. É pacífico, todos fazemos e se formos professores respeitados com uma boa relação com os alunos a “coisa” morre ali e seguimos para “bingo”. O problema é quando o comentário, a brincadeira ou o som torna-se repetitivo-irritante.

Vamos a situações concretas:

Um aluno começa a cantar na aula, ou está a bater com a caneta na sua mesa fazendo um som incomodativo. Depois da advertência oral não ter surtido efeito, muitos professores optam por fazer nova advertência oral, desta vez associada à aplicação de outra medida corretiva – a ordem de saída da sala de aula. Das duas uma, ou o aluno acata e termina a ocorrência ou o professor tem de cumprir com o que prometeu a fim de não perder a face perante a turma. Caso o aluno não acate surge o mostro “burocrocix”: o aluno perde o resto da matéria; o tempo útil da aula diminui; o professor tem trabalho suplementar pois tem de elaborar a respetiva participação disciplinar; o aluno tem uma falta injustificada; o diretor de turma é obrigado a registar essa falta; sucede o contacto com o encarregado de educação explicando o que aconteceu (o que pode correr muito bem ou pode ser o cargo dos trabalhos com um “bónus” de reuniões em horário pós-laboral); para as escolas que têm gabinetes disciplinares, implica o registo, análise e possível intervenção. Ou seja, o professor resolveu a situação, é verdade, e o aluno até pode ficar sobre o efeito da “anestesia” (ordem de saída da sala de aula) por alguns dias, mas mais cedo ou mais tarde a situação vai ocorrer novamente and where he go again…

O que proponho.

Os adolescentes são obcecados pela sua imagem, pelo seu estatuto. Beliscar a sua “marca” é algo que os adolescentes tentam evitar a todo o custo e isso pode e deve ser aproveitado por nós.

Durante a minha formação tive o prazer de ser lecionado pelo professor Luís Graça (pessoa com elevada reputação no mundo do Andebol). Posso afirmá-lo que foi um dos meus melhores professores. Numa das suas aulas, durante um exercício, os meus colegas tinham que se dirigir para o final de uma fila. Ao fazê-lo, começaram a tocar numa campainha que estava na parede e que emitia um som que se ouvia pelo pavilhão todo. Uma, duas, três, quatro vezes e o professor não dizia nada… Achei estranho, mas depois percebi porquê. No final do exercício, o professor Luís Graça chamou-nos e explicou-nos o que fazer enquanto futuros profissionais de ensino quando nos deparamos com este tipo de situação. A solução – expor ao ridículo aquilo que é ridículo… Um a um os alunos foram convidados a tocar na campainha, só que desta vez toda a turma ficou a ver. Foi um momento caricato, ver jovens de 20/21 anos, tocarem novamente na campainha, envergonhando a sua vaidade… Certamente que nunca mais se esqueceram, não é amigos?

Regressando ao presente, ainda esta semana vi um aluno subir para cima de um muro, evidenciando uns movimentos pélvicos de mau gosto, associados a um movimento de mão típico de quem quer dar uns açoites noutra pessoa… Uma imagem pouco agradável… Nem foi tarde nem foi cedo. “Pessoal!!! Temos aqui um jovem que vos quer mostrar uma nova coreografia, olhem todos para aqui por favor…” Acham que ele fez mais alguma coisa? Acham que ele vai repetir a “façanha” sem pelo menos verificar muito bem se eu ou outro professor não está por perto?

E aqueles alunos que durante as aulas ou no recreio gostam de se “engalfinhar” na brincadeira. Basta uma frase, aludindo à sua virilidade masculina, algo tão valorizado na adolescência e pronto. “Vá rapazes, a aula de massagens ainda não começou…” ou algo desse género. É uma linguagem simples, que eles entendem e de imediato ouvem-se os colegas dizer “eeeeeeeeeeee” e pronto, separam-se, pegam nas mochilas e vão-se embora.

Ou quando temos um aluno que está mais entretido com os seus dotes vocais/instrumentais numa aula que não é educação musical. Podemos sempre dizer algo do género, “Amigos, ansiei por este momento o dia todo, o vosso colega após ter ensaiado muito, finalmente tem à nossa disposição a sua música/canção/coreografia pronta. O palco é seu…” São poucos os que se atrevem a continuar.

No entanto pode acontecer que haja alunos que não se ficam e que nos queiram desarmar entrando na brincadeira. É fundamental que tenhamos um plano B, uma saída airosa a fim de não sermos nós a ficar mal na “fotografia”. Falemos deste último exemplo. Caso o aluno utilizasse o “palco” era importante desvalorizar a sua performance, caso contrário era incentivar aquela conduta. Algo como “Amigos, (o termo amigos é intencional pois cria uma ligação mais afetiva o que diminui a probabilidade de uma resposta agressiva) infelizmente fica provado que o vosso colega tem que dedicar-se a outra carreira, por isso meu caro, estude, aproveite esta aula e não perca o seu tempo, o dos seus colegas e já agora o meu…”

Em resumo, a minha estratégia consiste em:

– desvalorizar a situação;

– utilizar certos aspetos da personalidade do aluno contra ele, como a sua imagem;

– expô-lo à turma, utilizando-a como fator de pressão;

– usar o humor o sarcasmo e a ironia;

– ter poder de “encaixe” e resposta pronta para aqueles que respondem.

É fulcral que fique claro para o aluno “vedeta”, que aquilo que ele pensa que faz bem, nós fazemos ainda melhor, provando-lhe que ainda não tem “pedalada” para nos acompanhar. Nesse momento o professor torna-se soberano, a autoridade é conquistada e já não precisará de utilizar o autoritarismo como estratégia disciplinar.

Daí para a frente, teremos um aluno que vai pensar sempre duas vezes antes de percorrer um caminho no qual poderá ficar mal na “fotografia”. Por arrasto conquistaremos o resto da turma pois aquele que dava mais nas vistas não foi capaz de perturbar o professor.

Esta é a minha estratégia, conduta ou que lhe quiserem chamar, posso-vos dizer que tem resultado e não tive conhecimento de qualquer queixa a um encarregado de educação ou que qualquer aluno tenha necessitado de acompanhamento psicológico em 15 anos de ensino. Até tem acontecido o oposto, talvez por utilizar uma linguagem/estratégia mais acessível e descontraída, costumo ter uma relação bastante saudável e bem-disposta com os alunos.

Nota: o facto de me expor desta maneira é obviamente um risco, só que estou cansado de ouvir falar de indisciplina no abstrato, sem que se enunciem estratégias para situações concretas. No ComRegras, sempre que possível,  quero fazer algo diferente. Compreendo que esta forma de estar, este “à vontade” digamos assim, não se coaduna com todas as personalidades. Certamente haverá outras estratégias que vocês implementaram para “desarmar” os engraçadinhos, por isso colegas fica o desafio, partilhem connosco qual é o vosso Engraçadex.

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5 COMENTÁRIOS

  1. Plenamente de acordo. O dramatismo que por vezes os professores ensaiam, só dá mais protagonismo.

    • Trata-se de desvalorizar mas indiretamente estou a valorizar. A estratégia utilizada visa resolver a situação em vez de entrar num braço de ferro com o aluno.

  2. adorei o artigo. Necessitava de a ler mais vezes. Deixe aqui mais exemplo como este. Gostaria de ler mais. Sou prof. de profissionais e estou em pânico com estes garçolas. Infelizmente são vários.

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