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Artigo Semanal – Conselhos de Turma de Avaliação e seus Umbigos

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UmbigosNota prévia: se quiserem ler um artigo que só diz bem dos professores, então mais vale ignorarem este e aguardar por um mais “fofinho”…

“Mas que raio é que este título tem a ver com a (in)disciplina?”

É uma boa pergunta, diretamente não tem nada a ver (se estiver a falar do comportamento de alguns professores nos conselhos de turma até estaria, mas isso é outra conversa…) mas no fim tudo termina nas questões disciplinares… Talvez esteja tornar-me no Freud da disciplina… cruzes canhoto!

Apesar de ainda não ter chegado aos “entas” já tenho alguma experiência em conselhos de turma de avaliação (CTA). Já passei por uma série de escolas e o timbre dos CTA é semelhante. Se no primeiro e segundo período a “coisa” corre sem grandes sobressaltos, no final do ano assistimos a alguns partos difíceis, com arrufos egocêntricos associados a um burnout de fim de ano.

Simplifiquemos.

Existem quatro tipos de condutas evidenciadas pelos professores nos CTA. Importa referir que estas condutas não são sinónimos da sua forma de estar em contexto de sala de aula, por isso permitam-me a caricatura:

o professor “meiguinho” – evidencia uma enorme compreensão para o insucesso do aluno, para os seus desvarios comportamentais e precária situação familiar.

o professor “Suíça” – normalmente fica calado, não gosta de entrar em debates e por vezes tem atitudes tão ativas como a cadeira vazia que está ao seu lado.

o professor “durão” – com pouca paciência para justificações, restringe-se às avaliações e ponto final.

o professor “balança” – mais ponderado, mediador, analisa as diferentes hipóteses e depois debita de sua justiça.

Num momento de introspeção diria que sou provavelmente 40% professor “balança” e 60% professor “durão”.

Estes estados de espírito manifestam-se também nos presidentes dos CTA – os diretores de turma (DTs). Apesar de existirem orientações da direção, a forma como a conversa é feita pelos DTs é muitas vezes “manipulativa”. Em alguns casos, os DTs transformam-se em papás ou advogados de defesa e “salve-se” aquele que ouse atribuir negativas. Chegam mesmo a encalhar reuniões até que seus intentos sejam atingidos. No outro extremo temos os DTs “pão pão queijo queijo”, onde a reflexão e análise são palavras que não constam dos seus vocabulários e o que importa é bater o recorde da reunião mais rápida da história. Mas justiça seja feita, a maioria dos DTs com que trabalhei/trabalho são pessoas equilibradas e ponderadas.

Mas tudo bem, nós não somos todos iguais e muitas vezes da diferença surge a luz e numa boa prática democrática a maioria prevalece.

Estas discussões mais acaloradas surgem normalmente quando estamos a decidir a retenção ou transição do aluno, e um dos fatores que normalmente fazem pender os pratos da balança, é exatamente a postura que o aluno evidenciou ao longo do ano. É humano, e considero perfeitamente compreensível, que quem prejudica terceiros não tenha a empatia dos seus pares e neste caso, dos seus professores. Por isso, de lés a lés surgem aqueles colegas que não se aguentam e as suas opiniões são muitas vezes vitimas dos seus umbigos… A generalidade porém não tem má vontade e quando propõe a retenção de um aluno, fá-lo com uma preocupação genuína sobre o seu desempenho, passado e futuro.

Nos CTA, essa análise temporal precisa de ser feita e muitas vezes assim acontece, o que leva a algumas decisões baseadas na fé. É que por vezes não nos resta muito mais… Quando digo fé, quero dizer a vontade do aluno. Já bati nesta tecla várias vezes, mas nunca é demais: os alunos têm vontade própria e nem sempre as influências externas determinam as suas ações. Cabe-nos a difícil tarefa de orientar o aluno, de dizer qual a porta que ele deve atravessar, mas só ele o pode fazer. Mesmo bem aconselhado, é imperativo que o aluno faça a sua análise à mensagem que os professores lhe enviaram – transição ou retenção.

Eis o que pode acontecer:

O aluno transita de forma “administrativa”, abençoado pelo CTA. Pode interpretar esse “milagre” como um incentivo a manter a sua má conduta e fraco desempenho, pois o seu objetivo foi atingido na mesma. Por outro lado, pode encará-lo como uma oportunidade, num acreditar das suas capacidades, aumentando consequentemente a sua autoestima e consideração para com os professores.

O aluno não transita. Para aqueles que se esforçaram pode ser a gota de água, a réstia de esperança no ensino pode terminar nesse momento. O próximo ano será marcado pela indisciplina e falta de assiduidade. Para aqueles que não se esforçaram, pode ser o clique necessário para mudar de atitude, pois constataram que o seu desempenho/conduta não compensou.

São muitos “ses” e é por causa destas e por outras que avaliar é tão difícil.

Nestas duas semanas temos decisões importantes para tomar, decisões que vão condicionar o aproveitamento/comportamento futuro dos nossos alunos. Fica o conselho se me permitem… não sejam reféns dos vossos umbigos.

Boas reuniões.

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