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Artigo Semanal – Como Reforçar a Autoridade do Professor sem Decretos

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unidosGinásio 3x por semana, cursos de defesa pessoal, aquisição de equipamento de intervenção, tasers, etc…

A indisciplina terminava, mas também terminava o conceito de escola. Um professor não é um policia, e apesar de ser pau para toda a obra, o professor deve utilizar a sua principal arma ao lidar com as questões disciplinares – a inteligência.

O atual governo quer inovar, colocando militares em modo babysitter durante os intervalos escolares. As primeiras reações foram as esperadas, pois por baixo da capa da segurança surge o garrote financeiro a nortear mais uma vez a politica educativa. No entanto fica o meu desejo genuíno, que esta medida seja um sucesso, a bem de todos…

Só que dentro daquela sala, o professor é soberano e terá de ser o capitão de uma nau que por vezes mete água. A forma como se prepara e conduz essa nau, são as traves mestras de uma viagem que se quer sem sobressaltos e só mesmo um icebergue ao “bom” estilo Titanic poderá afundar uma aula bem estruturada, mas este é assunto para aprofundar noutras núpcias… Hoje quero centrar-me no momento em que a nau está a ir ao fundo.

Os motivos são sobejamente conhecidos e abrangem uma série de variáveis, passando pela família (a nível macro) e terminando, por exemplo, na hora em que é leccionada a aula (nível micro).

O governo fez a sua parte, ou pensa que fez, criou um estatuto do aluno que é claramente mais punitivo, reforçando no papel a autoridade do professor (art 42.º do estatuto do aluno), só que a parte preventiva, apesar de referida, foi claramente desvalorizada. Falar em equipas multidisciplinares (artigo 35.º), sem disponibilizar recursos é como ter a carroçaria de um Ferrari com um motor de uma Casal Boss, mota épica pelo seu barulho e fraco andamento…

Mais uma vez a escola terá de improvisar ao bom estilo Macgyver, com pessoal não especializado (sim, nós não temos formação para lidar com questões disciplinares), 90 minutos semanais e muita “carolice”, até se consegue fazer uma equipa de prevenção/intervenção… Mas não chega, é preciso ter professores com autoridade e não autoritários. Então quais os procedimentos que a escola deve adotar para reforçar essa autoridade?

Desresponsabilizar

“Por sua causa vou ser castigado!” Esta frase já foi proferida demasiadas vezes… Quando chegamos a este nível de insensatez, devemos retirar a responsabilidade (indireta) aos professores pelas punições aplicadas aos alunos. Alguns poderão pensar que estamos a colocar um escudo e uma armadura no professor, sim, também estamos, mas redirecionar o alvo da indisciplina para algo que não seja o professor é fundamental. Numa primeira fase a indisciplina não passa de um mero fósforo, mas rapidamente pode transformar-se num incêndio de grandes proporções. Na aula seguinte, é certo que as brasas ainda estarão bem quentes… O diretor de turma, o gabinete disciplinar (caso exista), ou a direção terão de assumir o papel de “carrascos”, terão de ter as costas suficientemente largas para suportar as ondas de choque de alunos e famílias.

Estabelecer sanções prédefinidas para os casos de recusa em sair da sala de aula, recusa em entregar o telemóvel, sistemática expulsão da aula e falta de material, terão um efeito dissuasor. Se essas sanções forem assumidas pela entidade escola e se ainda por cima forem debatidas e aceites previamente pelos alunos, bastará ao professor lembrar o que poderá acontecer no caso de incumprimento para que o aluno pense duas vezes. O professor é protegido e indiretamente é-lhe reforçada a autoridade.

Solidarizar

Quando vou falar com uma turma que agiu em conluio contra um professor, o meu principal objetivo é reforçar a sua autoridade. Para isso, lembro os alunos que eles podem funcionar em grupo, mas o professor apesar de estar sozinho na sala de aula, tem toda uma estrutura ao seu lado. O “ataque” que é feito, atinge simultaneamente os restantes professores, os pais e restantes alunos. Como dizem os adeptos do Liverpool You’ll Never Walk Alone e tem de ser mesmo assim, pelo menos na minha escola temos esse lema, o professor nunca está sozinho e esse apoio é inequívoco e fazemos questão de o demonstrar.

Reforçar

Acrescento também que a próxima participação disciplinar que for feita pelo professor está inerente uma consequência. Esta afirmação só pode ser feita se quem estiver a liderar a nau tiver o bom senso para não deturpar as minhas palavras. Aliás, com conhecimento de causa vos digo que por norma alunos e professores moderam as suas reações nas aulas seguintes.

Timing

Ao contrário da justiça em Portugal que tem fama de ser lenta, a resposta às situações disciplinares tem de ser rápida. Se não for, é como abrir o guarda-chuva depois da tempestade ter passado, ficamos na mesma todos encharcados e a caminho de uma gripe. Por isso é importante estabelecer um tempo máximo para a entrega das participações disciplinares, pelas minhas bandas são 48 horas.

Valorizar

O professor… Não é assim tão complicado, é de graça e só pode trazer benefícios. Os últimos anos destruíram grande parte da nobreza de ser professor. Maria de Lurdes Rodrigues devia ter sido responsabilidade pelas atrocidades que cometeu à entidade professor. Esta é uma questão central, ouço vários professores dizerem que não se importam de lecionar numa escola complicada, desde que se sintam valorizados e apoiados. O(a) diretor(a) tem um papel decisivo nesta matéria.

O aluno tem de estar sempre no topo da pirâmide da aprendizagem, mas simultaneamente tem de estar no fundo da pirâmide disciplinar, inverter estas pirâmides não é um tiro, é uma granada nos nossos pés.

Os professores têm de saber que todas as participações disciplinares não caem em saco roto. Estas têm de ser analisadas e registadas em historiais disciplinares individualizados, bem como ponderada a estratégia a implementar no futuro. Eis a mais valia de ter uma equipa que se dedica às questões disciplinares.

Punir

Tem de ser… Cada ação tem uma consequência e a sociedade funciona assim. A escola tem de preparar os alunos para a sociedade e as regras e as punições fazem parte dela. E punir pode ser simplesmente falar com os pais ou advertir o aluno, mas também pode ser aplicar as medidas sancionatórias previstas no estatuto do aluno, sem complexos nem traumas.

Assumir

Mas tudo isto pode ser posto em causa se a fonte estiver entupida… O professor terá de fazer o seu papel e ter a coragem de assumir que algo não vai bem, partilhando com diretores de turma, equipas disciplinares ou direção o que se está a passar. Anda por aí muita vergonha escondida e alguns colegas continuam a associar a indisciplina à incompetência, se tal assim fosse, o professor seria um mero gestor de personalidades/conflitos, mas a sua competência vai muito para além disso.

Caros colegas, sou professor há 14 anos e se há algo que aprendi neste tempo é que temos de nos desenrascar sozinhos. Não devia ser assim, é tremendamente injusto, mas é a realidade. Cada governo quer implementar as suas visões e ideologias e temos de nos colocar a salvo dessas tempestades. Por isso as escolas devem pensar no seu bem estar, introduzindo medidas que visem reforçar a autoridade a quem lhe pertence por idade, estatuto e responsabilidade.

P.S – Amanhã publicarei um texto que demonstra como uma escola/direção retira a autoridade a um professor. Leia aqui.

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