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Artigo Semanal – Acabar com o Bullying!

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ACABAR COM O BULLYING!

stop bullying imageÉ inevitável abordar o que aconteceu na semana passada e pelos vistos não ficou por aí… O que está a acontecer é uma “estalada” na aparente pacatez social sobre um problema que passa muito tempo escondido. De lés a lés, a sociedade acorda para este “cancro” juvenil, mas com o tempo, a comunicação social e consequentemente a sociedade, hibernam novamente para assuntos bem mais acessórios do que este.

Está na altura das questões disciplinares deixarem de ser tratadas por “vagas” mediáticas. Quando a comunicação social publica algo chocante, de imediato surgem algumas “comichões” entre os intervenientes político-sociais, como se fosse da praxe opinar sobre algo que está debaixo da alcatifa. Estas são as piores alturas para resolver problemas, pois a temperatura do tecido social pode fomentar juízos e decisões precipitadas.

Neste artigo pedi a ajuda das colaboradoras do ComRegras: a Dra. Inês Afonso Marques, Psicóloga Clínica da Oficina da Psicologia e a Professora Leonor Rodrigues membro da Comissão de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ). Através dos seus conhecimentos e experiência, será possível entrar na cabeça de um “bullie” e de uma vítima e conhecer melhor o trabalho efetuado nas escolas e CPCJs.

Entremos então nas mentes de “bullie” e vítima.

Eu bullie

Há quem me veja como popular e de auto-estima elevada. Muitas vezes sedutor e manipulador. Infelizmente, o abuso continuado que pratico em relação aos outros, parece aumentar o meu poder social, reforçando este ciclo. Ciclo que na verdade, e numa grande maioria dos casos, é uma forma de esconder algumas partes de mim das quais não gosto. Tenho um auto-conceito forte, mas há características que tento esconder. Ser o bullie é como vestir uma máscara que retira a possibilidade dos outros repararem num lado mais frágil, fazendo-me sentir mais poderoso… Sinto uma verdadeira falta de empatia pelas vítimas que escolho, como se não me conseguisse colocar no lugar delas e perceber o quanto mal lhes estou a provocar. Não tenho muita facilidade em reconhecer os meus sentimentos, nem os dos outros. Cresci a acreditar que os “problemas” se resolvem sempre ganhando pela força, verbal, física ou relacional. Não aprendi a regular a minha irritação, frustração ou raiva.

Eu vítima…

Geralmente, os bullies identificam em mim uma característica com a qual resolvem implicar de forma sistemática. Sejam os meus óculos, a forma como ando, as minhas notas, o meu penteado ou a roupa que gosto de vestir. Tendo a ser passiva, sem força ou coragem para expor aquilo que penso ou sinto. Bloqueio sem saber como reagir em momentos de maior tensão.

Enquanto alvo recorrente, possuo maior risco para vir a desenvolver perturbações ansiosas, para me isolar socialmente, para desinvestir do estudo e baixar as notas, para desenvolver sintomas psicossomáticos como dores de barriga, dores de cabeça, náuseas, problemas de sono e alterações de apetite.

Por vezes, com o passar do tempo, e com os abusos continuados, por parte dos meus pares, eu própria acabo por ir perdendo a minha capacidade de empatia e encontrando na agressão uma forma de retaliação. Mas, felizmente, nem sempre é assim. Há vítimas que encontram na “crise” uma oportunidade para descobrir dentro de si, ou desenvolver, importantes recursos de assertividade e expressão emocional.

A Dra. Inês Marques também deixou uma sugestão de leitura para pais e educadores:

anti-agressão

Bullying – manual anti-agressão, Joel Haber e Jenna Glatzer, Casa das Letras

Agora os procedimentos da Comissão de Proteção de Crianças e Jovens, pela Professora Leonor Rodrigues.

Relativamente a casos de bullying nas escolas, aparecem por vezes sinalizações denunciadas por pais ou terceiros às Comissões de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJs). Eventualmente há casos que os professores conseguem detectar, mas dentro da sala de aula, o professor tenta sempre manter uma cultura de civismo e companheirismo.

Com a figura do Professor Tutor representante da Educação nas CPCJs não existem números significativos de casos de bullying em acompanhamento. Estas situações são resolvidas pelas Entidades com Matéria de Infância e Juventude (EMIJ) de primeira linha, escolas, centros de saúde, associações e outros, que em articulação, intervêm falando com a criança ou jovem, vitima e agressor, no sentido de perceberem qual a ligação de desempatia que existe. São convocados os pais de ambos para intensificar a colaboração na resolução do problema e é feito uma intervenção individual de acompanhamento com a psicóloga da escola e com a professora tutora da CPCJ. Se a situação for já de perigo eminente, aí sim sinaliza-se a criança e a CPCJ que poderá ser encaminhada para consulta de pedopsiquiatria e psicologia se as técnicas considerarem necessário, e fazer a devida intervenção parental no sentido de habilitar estes pais a lidar com a criança ou jovem numa perspetiva reabilitativa e construtiva.

 A maioria dos Agrupamentos têm um Gabinete de Gestão de Conflitos, coordenada pelos serviços de psicologia, professora tutora da CPCJ e professores. Estes gabinetes são projetos que desenvolvem atividades junto das turmas problemáticas ou onde surgem estas situações. Esta intervenção junto das turmas baseia-se em atividades de desenvolvimento de competências pessoais e sociais, onde são abordados temas de desenvolvimento moral, sexual e outros, com estratégias de role-play, “pegar a vez”, dramatização, análise e resolução de problemas, brainstorming, entre outros. A articulação com a Saúde, através do Projeto de Educação para a Saúde (PES), também tem desenvolvido um trabalho extraordinário junto das escolas, com implicações positivas nas relações interpares.

Nesta áurea pedagógica, o Bullying não é uma situação que me pareça eminente, o que urge é sim verificar se verdadeiramente estamos a falar de Bullying, ou de etapas do desenvolvimento que precisam ser entendidas e trabalhadas para passar de um modo saudável à etapa seguinte.

O “bullying” é um fenómeno que precisa de ser atacado a diferentes níveis. Recentemente surgiu um estudo que mostra a realidade do “bullying” na Europa. Apesar de ser de 2010, não deixa de ser preocupante verificar que Portugal está no pelotão da frente.

Bullying 2010

Por isso é preciso apresentar um plano para minorar este flagelo. Para o efeito temos de trabalhar em conjunto, abrangendo os diferentes intervenientes. Fica a proposta:

Prevenir

– Criar um Plano Nacional de Prevenção para a Delinquência. Segundo os últimos dados, a delinquência juvenil está a aumentar, por isso faz todo o sentido que se combata este problema antes que atinja proporções demasiado elevadas.

– Implementar com caráter obrigatório, gabinetes/observatórios/equipas que visem combater a violência escolar. Apesar do estatuto do aluno fazer referência a equipas multidisciplinares que podem exercer essas competências, estas não são de cariz obrigatório.

– Apostar na formação de professores, dos que estão no terreno e dos que se vão formar. Já o disse e volte a repetir, a preparação deve ser efetuada antes do professor estar no terreno. As faculdades não podem ignorar o que se está a passar, devem incluir “cadeiras” de gestão de conflitos e gestão da sala de aula.

– O mesmo se aplica na formação dos assistentes operacionais. Segundo um artigo do site Educare, 70% das situações de bullying ocorrem no recreio. Estes desempenham um papel central e com todo o respeito, este cargo não pode ser atribuído a cabeleireiros, pedreiros, empregados fabris, etc. As nossas crianças precisam de “gentes” qualificadas e não de remendos…

– Trabalhar com as famílias. Muitos destes casos surgem na sequência de famílias completamente desestruturadas. A segurança social e as comissões de proteção de crianças e jovens precisam de ser reforçadas e as famílias negligentes devem ser punidas. A legislação já existe, só falta aplicá-la.

Legislar

– Considerar o Bullying como crime público. Em 2011 a proposta de lei caducou. A reboque dos últimos acontecimentos, faz todo o sentido trazer para cima da mesa este assunto. Aliás, um dos alimentos dos “bullies” é exatamente a timidez das vítimas, o medo que elas têm em contar a terceiros o que se está a passar ou mesmo de apresentar queixa. Apesar da escola ter a obrigação de denunciar estes casos, esta “pequena” alteração traria repercussões sociais importantes,  aumentando a pressão sobre escolas e consequentemente sobre os “bullies”.

– Imputar os jovens a partir dos 14 anos de idade. Os jovens já não são como eram, a sociedade está muito diferente. Muitos dos que têm 14/15 anos já têm comportamentos criminosos que fazem corar muitos adultos que vivem no mundo criminal.

Cumprir

– Aplicar a nova Lei Tutelar Educativa em toda a sua plenitude. Este diploma entrou em vigor no mês de fevereiro e ainda não foi construída uma única casa de autonomia. Segundo as últimas informações, o Ministério da Justiça ainda está a estudar a sua implementação…

– Por fim, denunciar e punir todos aqueles que escolhem o “bullying” como caminho.

Não quero terminar sem deixar de transmitir a minha experiência pessoal enquanto coordenador de um gabinete disciplinar, deixo-vos um artigo onde podem consultar a estratégia que utilizo quando estas situações entram no meu gabinete. Felizmente, até hoje tenho tido elevadas taxas de sucesso. Que este artigo vos ajude a ajudar…

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