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Artigo da Semana, por Luís Sottomaior Braga.

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INDISCIPLINA – OS PROFESSORES NÃO SÃO DE FIAR E ALÉM DISSO SÃO IGNORANTES DA SUA PROFISSÃO…

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Numa das informações aos pais sobre as provas que decorrem esta semana, preparadas pelo IAVE e que li numa reunião de acalmação da angústia paternal dos exames dizia-se qualquer coisa como “as provas servem para obter resultados sobre o desempenho dos alunos que sejam fiáveis” o que, a contrario, significa que, fora dos exames, os resultados produzidos pelos docentes não são fiáveis.

A boa vontade levaria a dizer que a coisa foi escrita assim porque a escrita clara não é uma das virtudes dos escribas do IAVE. A má vontade, ou o senso do realismo, permite concluir que é mais um sinal da desconfiança face aos professores e à sua capacidade, atávica da “administração educativa” (constituída por professores que, na sua maioria, “optaram” ou foram “optados” e, até, por alguns que renegaram dar aulas para administrar os que as dão…).

No Público de 20 de Maio a atitude subtil prossegue nas declarações de um grupo de trabalho parlamentar sobre o problema da indisciplina, que o estudou, e conclui que, no quadro da sua compreensão, o facto de maior destaque (daí talvez o título de 1ª página do jornal) é que “60% dos professores não tiveram até hoje qualquer formação específica para lidar com o problema.”

São portanto ignorantes. E ignorantes que são, existe largo mercado para ações de formação que os demovam dessa ignorância, que serão feitas pelas instituições de Ensino Superior que detetaram a alegada carência, que outros dirão não ser as melhores e serão trocadas por produto melhor que o Estado (ou os próprios professores) financiarão para ficarem os docentes certificados na ausência de ignorância do problema.

E ainda hão-de ser ações de formação obrigatórias (como as de TIC, em que se esturrou tanto dinheiro no ciclo formativo passado).

Quem me conhecer sabe que nada tenho contra a formação e que, sobre esse assunto, digo sempre: que haja muita e boa. E que, em vez da mera certificação acho que estudar e realizar formação é essencial (daí recusar os mestrados e especializações certificadas bolonhesas em administração escolar, que hoje pululam em que a experiência, mesmo má, vale pelo estudo).

Esse não é o ponto. O ponto é que, mais uma vez, no momento do toque a rebate, se vai lançar a culpa dos problemas à suposta ignorância dos professores (que se recorda são todos, pelo menos, licenciados e profissionalizados para darem aulas e gerirem a indisciplina delas – que faz parte do quadro do exercício profissional, como sempre fez – pelo mesmo Ensino Superior que lança agora o tema de que o problema é a sua falta de formação).

A indisciplina grave é para uma relação pedagógica como uma doença terminal na relação médico/paciente. Terão 40% de todos os médicos formação na gestão de doenças terminais?

E terão 40% dos deputados formação específica para legislar sobre educação?

13 ideias sobre indisciplina que são prioridade à frente disso

Assim, este professor, básico e parolo de Viana, que só sabe que nada sabe e aceita aprender sempre mais, mas que dá aulas há 20 anos (e sobre a sua formação, por pudor, nem fala) acha que a reflexão sobre o sistema tem mais faces do que alombar nos professores e seus alegados defeitos.

Deixo aqui listadas 13 coisas de que é preciso falar antes de falar da suposta má formação dos professores. Algumas delas até mais baratas do que fazer novas e novíssimas ações específicas de formação e que, se forem olhadas com atenção, talvez se diminua ao azar que nos assalta nos noticiários:

  1. Os cortes orçamentais reduziram ao pessoal auxiliar não-docente e muita indisciplina de sala de aula começa nos recreios e corredores: mais trabalhadores não docentes, pagos e motivados, e que não sejam precários colocados pela Segurança social (já agora, sem formação específica) pode ser meio mais barato de ter resultados rápidos e eficazes;
  2. E juntar a isso técnicos especializados em sociologia, psicologia, ação social para acompanhar os problemas na base da prevenção;
  3. Melhorar as instalações das escolas, evitando que a configuração física propicie episódios que aumentam a perceção e propensão à indisciplina (cantinhos, locais impossíveis de vigiar, degradação que os orçamentos magros não permite reparar, por exemplo);
  4. Regular os transportes escolares e arranjar forma de haver mais vigilância, mesmo nos casos em que ela não é obrigatória (quantos episódios de agressão pontual ou constante começam nesse ambiente selvático que são os autocarros escolares?);
  5. Criar meios de os pais serem pais: horários flexíveis e reduzidos, penalização dos empregadores que não cumpram as leis de proteção à família (ou que prejudiquem quem invoque os direitos). De que serve a dispensa para “ir à escola” dos trabalhadores se os patrões os prejudicam se a usam?
  6. Reforçar da autoridade dos professores (e, por exemplo, valorizar os diretores de turma que, em meros 90 minutos semanais, tem de resolver problemas, enquistados de anos, de turmas com 25, 26 ou mais nos intervalos da papelada monstruosa);
  7. Responsabilizar as famílias que não o sejam, evitando a descarga dos maus efeitos do que não fazem nas escolas;
  8. Melhorar os mecanismos de gestão das escolas (por exemplo, as regras de distribuição de serviço que fazem com que muitas vezes os professores que ficam nos “gabinetes” ou “núcleos”, ou o que for, de gestão da indisciplina não sejam os mais qualificados, mas sim os que tem mais tempos de dispensa letiva, muitas vezes não sendo os mais motivados para o tema). Outro exemplo, já leram o Estatuto do Aluno? Conseguem tirar alguma coisa daquele arrazoado entre boas intenções e normas inoperativas?
  9. Reintroduzir a Formação cívica (que, ao contrário do que o Ministro pressuroso veio dizer, só existe quando as escolas conseguem tempos, o que é mais raro do que se julga e que portanto foi extinta por este governo) e idealizar uma reforma curricular que evite a sobrecarga dos alunos e deixe espaço a um currículo mais aberto e menos dirigido, o que ajuda a mitigar a propensão para a indisciplina (artes previnem indisciplina, música previne indisciplina, desporto previne indisciplina, literatura previne indisciplina, exercício da liberdade previne indisciplina);
  10. Reduzir em termos gerais, a carga horária que, nas comparações internacionais, é excessiva para professores (vejam-se os números do burnout docente que, ponderados, devem fazer pensar se vale a pena carregar o contexto com ainda mais formação que, pela histeria, há-de ser obrigatória).
  11. Reduzir a carga horária no que tem de excessivo para os alunos. (Sobre esta temática podem consultar o artigo “Panelas de Pressão”)
  12. Resolver o país e a sua crise social, económica, institucional e de confiança (já sei, é mais fácil apontar o dedo aos professores e à sua ignorância, do que ver o que de político há nisto tudo);
  13. Fazer com que os políticos e a “administração educativa” ganhem juízo e olhem as questões sem deitar pedras aos professores porque estão mais à mão.

Luís Sottomaior Braga (professor de História do Ensino Básico)

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1 COMENTÁRIO

  1. Estou de acordo a 100% com o professor Luís Sottomaior Braga. Todos os males da sociedade são provocados por falta de Civismo/Ética – logo a formacão para a cidadania, isto é, saber respeitar o outro, deverá começar no pré-escolar (“é necessária uma aldeia para educar uma criança”).
    Tem que ser muito bem trabalhada a Regra dos (3) R:

    Respeita-te a ti mesmo,
    Respeita o outro,
    Responsabiliza-te pelas tuas próprias acções

    Modesto Vitória

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