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Art. 102º – Filme e Livro

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UM FILME DE 3 ESTRELAS SOBRE A ESCOLA E LEITURAS SOBRE “TIRANIA DOS PAIS”

O fim-de-semana prolongado do dia do trabalhador, merecido descanso para semanas de 40 e 50 horas de labuta, foi ocupado com escola.

Escola no cinema e escola em leituras. Curiosamente filme e livro de origem francesa

a tirania dos pais dos alunos

Residente em Viana lá vou fazendo, às vezes, o caminho até ao Porto, para ver em sala filmes que fujam ao padrão de desenho animado, ou porrada com efeitos visuais, que domina o cinema da minha terra. E na tarde de 2 de Maio não dei o tempo por perdido.

Uma turma difícil, filme francês que não vai encher salas, terá a virtude, para quem não for professor, de dar uma imagem realista, sensata e contida, do clima das escolas difíceis, com indisciplina e exclusão (sejam as que, em França, chamam ZEP, sejam as que, por cá, com originalidade, chamamos TEIP).

Traça um retrato consistente (a cena da aula de substituição, em que os alunos se coordenam para por a professora a chorar, conseguindo-o, é, por exemplo, um retrato sugestivo e documental do que se passa tantas vezes). Mas, não se resume a constatar o que está mal (a discreta professora, personagem principal, chega a ser sovada e insultada num corredor) conseguindo, como dizia um crítico, ser um “feel good movie” inteligente, que traduz a utopia da educação. E sem ser mais lamechas do que precisa ser a realidade crua de ser professor e de viver o nosso possível sucesso profissional, na expectativa do sucesso futuro dos outros que ensinamos.

Realmente, os alunos reconhecem os professores que o são mesmo e ser professor pode ter laivos de heroísmo, mesmo que seja só lutando contra dirigentes limitados (que acham que falar do genocídio é por em risco a convivência entre comunidades, como o diretor de escola do filme) ou fotocopiadoras avariadas (uma cena deliciosa do filme, em que nos revemos todos, neste tempo de poupanças).

Como a história é baseada num caso acontecido (uma turma de insucesso de uma escola francesa de periferia urbana, com grande diversidade étnica, ganhou, contra todas as apostas, um concurso nacional escolar sobre o holocausto), a reflexão tem algum valor de transposição.

E sempre dá esperança, que é algo que nos falta muito a todos, dentro das escolas.

Os críticos franceses andaram pela média das 3 estrelas, criticando aspetos técnicos (por exemplo, os diálogos são em parte improvisados, o que talvez seja virtude, não defeito, ou a luz geral em tons escuros, que talvez seja escolha).

Vale a pena ver, pela reflexão que produz, pela emoção e por detalhes mais interessantes para os professores: o lugar da autonomia de ação docente e do correr riscos para haver resultados; a importância de colocar regras claras e firmes na relação com os alunos; a perceção de justiça dos jovens e os efeitos de a praticar; o papel das bibliotecas e dos livros; a força das biografias e do ensino da História na formação de cidadãos (a discussão com os alunos sobre a caricatura de Maomé, num tímpano de uma Igreja Românica, vale bem muitas tiradas de facebook “Je suis Charlie”); a educação para os direitos humanos e a sua utilidade na luta contra a indisciplina; o valor da comunidade de profissionais no trabalho docente ou, coisas banais, como a utilidade das atividades não letivas (os momentos marcantes da mudança dos alunos do filme são uma visita de estudo e um testemunho verídico de um deportado num campo de concentração, Léon Zyguel, que os indisciplinados alunos respeitam no guião, pela idade e pela força da mensagem, sem serem precisos apelos à ordem).

O deportado, que se representa a si próprio, acaba por ser personagem central da história e deixo aqui uma nota biográfica. O jogo de identificação dele com os alunos, para alguns críticos, demasiado óbvio, tem a simplicidade do que é vivido e vale pela força da biografia. E mostra que “fazer a escola mais interessante” é muito mais do que infantilizá-la, torna-la lúdica e divertida ou reduzi-la a banalidades agradáveis e confortáveis.

BuchenwaldJá houve políticos, hoje reclusos, que chamaram gongoricamente heróis aos professores, sem saber muito bem o que diziam.

Um herói falso a escrever sobre a injustiça. Professores portugueses: Heróis, não! Injustiçados.

Se há filmes sobre polícias, torturadores, soldados, médicos ou políticos em que, ficcionando ou com base verídica, se lhes criam retratos carregados de heróis qual é o mal de carregar um pouco nas tintas, sem exagerar demasiado, para mostrar as virtudes simples e quotidianas de quem corre riscos, contra o clima de derrota e determinismo social negativo e fazer afinal apenas alguma justiça?

PS: O livro fica para se falar depois. Deixei acima o link para a editora (carregar na imagem). Leitura feita, ainda estou a absorver o choque de ver nele o retrato do que entrevejo na prática diária das escolas, que já assume proporções parecidas cá, mesmo sendo escamoteado dos discursos: a influência excessiva dos pais na gestão e mau efeito na produção de resultados sociais das escolas. Um tema que merece ser abordado, mesmo moderando o teor do livro e adaptando a um olhar português. E tem tudo a ver com as questões de comportamento dos alunos e indisciplina.

Luís Sottomaior Braga

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