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Apuramento do ilícito.

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gabinete“Sim senhor, muito bonito! Pois cá tenho os cavalheiros novamente no gabinete! Então esta é a terceira vez este ano, senhor Diogo? A quarta? Muito bem. E o seu companheiro de parvoíces mais uma vez a acompanhar, não é verdade, senhor Marcelo? Então desta vez arranjaram-na bonita, não é?”

Os meliantes, de olhar baixo, escondido pelo sombreado das pestanas e pelos cabelos em desalinho, simulam recato e apoquentação. Os ombros hirtos seguram os braços cruzados de mãos escondidas nas axilas e apenas o bater inquieto de um pé trai o cenário de impassibilidade.

“Ora então, vamos lá a ver: os senhores resolveram não ir à aula de Matemática, pois foi? E decidiram então que seria muito mais interessante ir agredir os colegas mais novos na fila do refeitório, certo?”

“Não foi nada disso”, rugiu o Diogo e respirou fundo, numa tentativa esforçada de transformar a raiva em razoabilidade. “Nós íamos almoçar. Eu estava uma beca maldisposto, porque… bem, eu hoje não comi nada de manhã e estava esquisito da cabeça e não ia ficar a apanhar alta seca na aula de Matemática durante uma hora e meia e então disse ao Marcelo que ia mas era comer e ele disse que vinha comigo e eu disse-lhe ‘tá bem”. O Marcelo abanava a cabeça para cima e para baixo em enérgica confirmação. Resolveu aproveitar o momento para adicionar argumentação razoável: “eu não ia deixar ele ir sozinho, ‘por causa que’ ele estava maldisposto e quando as meninas estão maldispostas nas aulas e pedem para ir lá fora os setores deixam sempre uma amiga ir com elas, não é? Então pronto”, concluiu com propriedade.

“Bom, depois já voltamos a questão da falta à aula. O que eu quero saber agora é como é que chegámos à situação do aluno do sexto a ter de ir ao hospital para ser tratado – para vossa informação teve de levar seis pontos na testa e vai ficar lá em observação para prevenir mais problemas; da dona Adélia ter um braço todo negro; da vitrina quebrada; e ainda a questão dos óculos do rapaz, que estão neste mísero estado”, conclui, exibindo a prova número um, a saber, uma armação de arames retorcidos, onde outrora presumivelmente se encaixavam lentes, agora desaparecidas.

“Nós só queríamos ir almoçar…”, começa o Marcelo, procurando arduamente encontrar palavras simpáticas que neutralizassem a feiura do ocorrido. Foi instantaneamente interrompido pelo companheiro com um gesto firme da mão.

“Deixa-me contar a mim. Nós chegámos à porta do refeitório e dissemos aos putos que lá estavam: “a gente vamos passar à frente que estamos com pressa” e eles chegaram-se para o lado, mas aquele choninhas do caral… – travou a fundo perante o olhar contundente do director e reformulou o discurso – o Daniel não deixou e começou a dizer que tínhamos de ir para a fila e blá blá blá e portanto tivemos de lhe aviar um bochecho valente no meio das trombas. Eu ainda o chamei à razão e disse-lhe: ‘ouve lá, ó betinho, eu não sei como são as regras lá na tua rua, mas lá de onde eu venho os grandes mandam e os pequenos obedecem, tás a ver?’

Mas o chavalo mesmo assim não atinou e começou a berrar ‘ó D. Adélia ó D. Adélia’ e começou a fazer ali um chavascal, guinchava que parecia que estava a pisar pioneses e eu mandei-lhe uma bucha mas ele é uma florzinha de merd… um fraquinho da treta e caiu todo junto para cima da vitrina e nessa altura a D. Adélia, que vinha a correr para acudir à coisa, tropeçou aqui no pé do Marcelo e disse f*da-se e esbardalhou-se em cima do choninhas que por sua vez já estava dentro da vitrina. E foi isto.”

Olhou com desapego e displicência para o seu interlocutor e ainda o agraciou com um esclarecimento ilustrativo da sua razão: “é como diz o meu pai quando a minha mãe se começa a esticar: ‘ó rapariga, tu féte atencion, que quem não tem dentes fortes não se aventura a trincar entrecosto, tás a perceber?!’ E olhe que ela acama logo que é um mimo!”

MC

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