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Apuramento do ilícito 2

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marcar número_telefonarOs rapazes continuam sentados no gabinete. Os olhares arredios, perdidos nas pequenas imperfeições da parede, evitam cruzar-se. As caras vermelhas e transpiradas vestem-se dos trejeitos distraídos de quem se embrenha em pensamentos agitados. O director, sentado à secretária, procura contactos, toma notas, lança olhares zangados e vigilantes na direcção dos velhacos. A mão estaciona, de caneta esquecida em punho, a meio caminho da folha.

O pensamento escorre-lhe para dentro de si, vê-se menino ainda, recorda o olhar sério e interessado do seu pai quando, ao serão, lhe fazia perguntas sobre a escola. Revê os seus livros e cadernos abertos na mesa da sala, onde fazia os deveres. Os dedos maciços e tortos do pai, pouco habituados ao rendilhado fino das letras, folheavam as páginas carregadas de caligrafia miudinha e irregular com a delicadeza inesperada de quem degusta um privilégio. Desde cedo entendeu claramente, apesar da imaturidade da meninice, que o valor que o seu pai atribuía ao conhecimento e à educação era tão desmesurado que jamais abriria no seu entendimento uma brecha de tolerância para faltas de respeito ou comportamentos despropositados. Sempre sentiu, desde que se entendeu como gente, o reinado absoluto da razão inapelável de um adulto sobre uma criança, mais ainda se esse adulto fosse um professor.

O olhar foge-lhe para os tratantes, o semblante carregado de zanga e incompreensão. Pega no telefone e ampara, com o indicador, o primeiro número que anotou. “Pronto, vou agora ligar para tua casa, menino Diogo”, informou com secura e agastamento. “Os vossos pais vão ficar muito contentes convosco, vão, vão”, continuou, “quando eles souberem a despesa que vão ter por causa da vossa gracinha!” Respirou fundo para engolir a arrelia. “E a tua mãe, Diogo? Já pensaste como ela vai ficar quando souber que vais apanhar uma suspensão outra vez? Isso não te preocupa? Não pensaste nisso? Hã?”

O Diogo pensou. Pensou na sua mãe e tentou recordar-se de quando a vira pela última vez. Anteontem? Não, ontem de manhã. Fora chamá-la logo cedo, antes de ir para a escola, porque precisava de dinheiro para pagar as refeições na escola e comprar folhas de ponto. Encontrou-a ferrada a dormir. Respondeu-lhe um resmungo numa voz mastigada de sonâmbula e atirou-lhe com a almofada quando ele insistiu. Quando chegou a casa, à tardinha, ela não estava. Deixara-lhe um recado, rabiscado no verso da conta do supermercado: “saio tarde; se quiseres jantar vai a casa da avó; se não quiseres, come pão, há manteiga no frigorífico; não fiques a ver televisão até tarde”. No espaço livre do papelito, o Diogo escreveu: “quando chegares não te esqueças de assinar o teste de Ciências, ontem não assinaste e a parvalhona da setora passou-se, marcou-me falta”.

Depois ficou alapado no sofá, a ver séries madrugada a dentro. Acordou de manhã, enregelado e baboso. O teste de Ciências lá estava, em cima da mesa, intocado, o bilhetinho ainda encostado a ele. Os olhos baços do sono percorreram a cozinha, o saco vazio lembrou-o de que tinha comido o pão todo na noite anterior. No frigorífico encontrou uma caixa com uma substância indefinida e espapaçada, de forte odor acre. Retraiu-se com um esgar de nojo e fechou a caixa rapidamente. Calçou as sapatilhas e saiu para a escola. Teve outra falta de material. Faltou a Matemática para ir almoçar. O resto já se sabe.

O director continuava a mirá-lo, os olhos muito abertos de perplexidade, à espera da resposta à sua pergunta. “Agora não dizes nada, não é? Ok, vamos lá ver o que a tua mãe acha.” O Diogo observava-o enquanto marcava os dígitos uma vez e outra e mais outra. Via-lhe o olhar frustrado e a impaciência dos gestos, a experimentar sem sucesso os números de contacto de que dispunha. Sorriu dissimuladamente, de cabeça baixa, e cochichou entre dentes: “Sim, sim, vai tentando… boa sorte aí, mano!”

MC

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