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Apresento-vos os melhores amigos dos alunos: “Não Sei”, “Não Gosto”, “Não Quero”, “Não Faço”.

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nao-sei-nao-gosto-nao-quero-nao-facoA aula decorria normalmente, já tinha feito dois exercícios, ao terceiro vejo uma aluna sentada quando não era suposto, deixei passar talvez fosse um “aguaceiro”, não era, era mesmo trovoada…

Eu: Manuela (nome fictício) é a tua vez…

Manuela: Não faço…

Eu: Como???

Manuela: Não faço professor!

Eu: Porquê?

Manuela: Porque não sei…

Eu: Mas não sabes correr? Só tens de correr…

Desde quando é que desaprendeste de correr? (estávamos a fazer corridas de velocidade)

Manuela: (encolhe os ombros…)

Eu: Mas passa-se alguma coisa ou passou-se alguma coisa? Estás magoada? O que é…?

Manuela: Não gosto professor, como não gosto não vou fazer…

(após mais umas tentativas para tentar demover a aluna, farto-me do “drama” pois até tinha 20 e tal alunos à espera e o tom muda…)

Eu: Mas isto não é para ser ao gosto do “freguês”, é para fazer e ponto final, se tiveres algum problema vens falar comigo, sou todo ouvidos, mas se não tens nada e é uma questão de “apetece” então a conversa muda já, portanto decide, ou fazes ou sais?

Manuela: Então vou-me embora…

E foi…

Este é um exemplo do que já me aconteceu por diversas vezes ao longo dos meus 15 anos de docência, este ano já vai na 5ª… Muitos alunos vivem num mundo de puro conforto, a vida é bela e cor de rosa, todos os seus desejos são vontades concretizadas e o “não” é uma palavra estranha quiçá de uma outra dimensão. No outro extremo temos os alunos que não acatam uma orientação, uma ordem, são os desafiadores compulsivos, se dizes para irem para a esquerda querem ir para a direita, se dizes para ir para a direita querem ir para a esquerda.

Ambos sofrem da doença “eu sou o sol e todos giram à minha volta”. São incapazes de sentir qualquer tipo de desconforto, quer físico ou emocional, a sua vontade é A VONTADE, e os seus amigos “Não Faço”, “Não Gosto”, “Não Quero” e “Não Sei”, são presença assídua das salas de aula.

Não sei, como não sei não gosto, como não gosto não quero e como não quero não faço…

E voilá, este é o raciocínio de vários alunos da nossa praça, para eles faz todo o sentido e nas suas cabeças estão cheios de razão. Só que como eu lhes digo frequentemente, se a vida se baseasse nessa premissa, para que serviria a escola? Alguns, quais mentes brilhantes respondem… “Para nada…”, ou não fosse motivo de honra ter a última palavra…

Do outro lado estão os professores, estes têm de criar mil e uma estratégias para tornar o ensino lúdico, interessante, motivador, apelativo… Mas se o ensino não tem de ser chato e eu sou o primeiro a dizer que o nosso ensino na globalidade é chato, mesmo aqueles que tentam fazer algo “fora da caixa” são frequentemente confrontados com estes “amigos” imaginários.

A novidade, a mudança, o fazer algo diferente, o sair da sua zona de conforto, está muitas vezes associada a uma avalanche de rebeldia, teimosia, direi mesmo de mimo exacerbado. A competição com os estímulos exteriores torna a escola pouco apelativa e desinteressante, é uma competição injusta onde a escola demora demasiado tempo para se adaptar e quando se adapta já tudo mudou, ficando sistematicamente atrasada.

A vontade própria é excelente, não há dúvidas quanto a isso, mas é também uma sacana que pode dar cabo de uma aula. Esta vontade que no passado era reprimida, brota agora com enorme facilidade, demasiada facilidade, a dedicação, o esforço, a responsabilidade, são palavras desconhecidas de muitos alunos. A escola de todos e para todos tem destas coisas, é um desafio diário de elevada complexidade onde cada aula só é previsível na sua própria imprevisibilidade. Não adianta fazer grandes planos ou imaginar grandes cenários, nem criar grandes expectativas, cada aluno, cada aula é uma caixinha de surpresas.

Venha a próxima que amanhã é outro dia…

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1 COMENTÁRIO

  1. Ora nem mais! Como me identifico… É preciso coragem e o que nos deve levantar o ânimo é que, lá no fundo, ainda conseguimos fazer muito da nossa missão como educadores! Forca ai!!! Um dia pior, outro melhor..e aos pouquinhos vamos ajudando a fazê-los crescer! 😉

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