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Aprendizagem da leitura de alunos com dificuldades de aprendizagem

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O tempo excessivo que leva a introdução da leitura da língua portuguesa, em todos os métodos de  leitura é a causa para que alguns alunos com dificuldades de aprendizagem graves, baralhem as aprendizagens no tempo, e falhem o objetivo.

O aspeto lúdico é muito importante. Os métodos globais são em geral os mais indicados para estes alunos.

Os animais são figuras simpáticas para as crianças e por isso escolhi uma dúzia  de  nomes  que abrangem a maioria dos sons de leitura: abelha, antílope, cavalo, macaco, carneiro, porco, cachorro, galinha, peixe, cão, caracol e esquilo.

O jogo consoante vogal pode inicialmente ser trabalhado de modo semelhante ao método das 28 palavras, nas palavras “macaco” e “cavalo”. Permitindo ao aluno descobrir outras palavras com estas silabas. Mais para a frente acrescenta-se “antílope”, acrescentando o som nasalado ao jogo. Nessa altura pode apresentar-se a palavra  “cão”, que ensina outra forma de nasalar as palavras e mostrar silabas compostas com um ditongo.

Nesta altura já temos um conjunto significativo de palavras, que entusiasmam e dão esperança ao aluno.

Numa segunda fase apresento as restantes palavras de forma gradual, mas rápida, com a ajuda de programas do “jclic”. O aluno depois de globalizar as palavras  e relacionar com a imagem, deve decompor em sílabas muitas vezes e registar no caderno. Escreve-as por fim com o teclado e depois no caderno. Por fim incentivo o aluno à construção de frases, com as palavras globalizadas ligadas por outras, que vai aprendendo.  Ex: A abelha voa. O antílope corre. O cavalo salta. Etc…

De referir que evito inicialmente os casos de leitura mais complexos, como o “ce”, “ci”, “gue”, “gui”, “gi”, “ge”, o “s” com valor de “z” os dois “ss” ou o som de duas consoante, como “zebra”.

A construção e leitura de frases com as palavras globalizadas podem mostrar sucesso. Quando os métodos tradicionais falham porque não tentar métodos alternativos?

Duilio Coelho

Professor do 1º Ciclo

7 COMMENTS

  1. Existem trabalhos científicos vários que provam, não meras opiniões, que o método global é desaconselhado , inclusive à luz da neurociência. A Universidade do Minho tem trabalho profícuo nesta área. Existe um célebre trabalho da pedagoga americana Jeanne Chall, dos fins dos anos 60 que é o primeiro grande estudo de campo sobre o tema… Infelizmente, em Portugal, ainda se vai ensinando por ”opinião” e não conforme a literatura científica e o que recomenda quem sabe da ”poda” . É a mesma ideia de sempre : o que é antigo é mau e o que é supostamente moderno é que é bom… (embora o Método Global já tenha barbas brancas ainda é corda divisória, para muitos, entre os progressistas e os reacionários…) Ah, já agora, existem também estudos científicos que dizem que as crianças com um leque vocabular mais precário, também pela sua origem sócioeconómica, são claramente beneficiadas quando ensinados pelos métodos clássicos…

  2. Cada aluno é um caso diferente! Eu afirmei em geral e já lá vão 37 anos de serviço a trabalhar com alunos.
    O aluno primeiro globaliza a palavra e só depois decompõe. Em geral uso este ou outro método global para alunos que já falharam no analítico/sintético. Ter os instrumentos todos (diversos método e utilizar o que melhor se adequa ao aluno é que tem valor).

  3. Métodos de alfabetização: delimitação de procedimentos e considerações para uma prática eficaz

    Literacy methods: definition of procedures and considerations for effective practice

    Alessandra Gotuzo SebraI; Natália Martins DiasII
    IPsicóloga, Doutora e Pós-Doutorada em Psicologia pela Universidade de São Paulo, Professora, pesquisadora e orientadora do Programa de Pós-graduação em Distúrbios do Desenvolvimento da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Bolsista de Produtividade CNPq – Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, SP, Brasil
    IIPsicóloga, Mestre e Doutoranda do Programa de Pós-graduação em Distúrbios do Desenvolvimento da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Bolsista FAPESP. Professora convidada do curso de Psicopedagogia da UPM. Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, SP, Brasil

    …Conforme alguns estudos apontam , o tipo de instrução característica do método global não enfatiza o ensino explícito e sistemático dos princípios da língua escrita, tal como faz o método fônico, de modo que nem todas as crianças conseguem apreender tais princípios. Essa dificuldade é ainda maior, fazendo ainda mais evidente a discrepância entre os métodos, com clara inferioridade do global, no caso de crianças que apresentam risco de atraso de leitura e escrita ou aquelas com desvantagens socioculturais28-30.

    …Porém, apesar de evidências da inferioridade e das desvantagens do método global, seu uso foi grandemente difundido e ele continuou sendo utilizado por anos em escolas em todo mundo1. Tal discrepância entre a prática educacional na alfabetização e as evidências oriundas de estudos científicos foi apontada por diversos autores1,13,31, que destacavam, entre outros fatores, a falta de pesquisa experimental conduzida pelos adeptos do método global e uma postura na qual imperava o dogmatismo, apesar do fracasso a que eram fadados seus estudantes.
    ….Além da superioridade do método fônico na alfabetização em contexto regular, diversas associações de dislexia em todo o mundo recomendam instruções fônicas para o ensino de indivíduos com dislexia. De fato, nas diretrizes da British Dyslexia Association38 para o ensino de crianças disléxicas, é recomendada a inclusão de atividades do método fônico. Os professores são incentivados a desenvolver habilidades de rima, segmentação fonêmica e discriminação de sons e a ensinar as relações entre as letras e os sons. É interessante observar que tais diretrizes são recomendadas em países de língua inglesa, cuja ortografia tem relações grafofonêmicas bastante irregulares, com correspondências imprevisíveis entre letras e sons. Logo, se o método fônico é recomendado para o inglês (que é extremamente irregular), certamente ele é ainda muito mais eficaz no português, cujas relações entre letras e sons são bem mais regulares e que, portanto, propicia maior sucesso na aplicação de regras de conversão grafofonêmicas39.
    Pesquisas comparando os métodos de alfabetização têm se concentrado principalmente nos procedimentos fônico e global. Em geral, estas investigações têm demonstrado a superioridade do fônico, especialmente com crianças com desvantagem sociocultural ou cognitiva. Estudos de meta-análise comprovam que introduzir instruções fônicas (ensinar correspondências grafofonêmicas) e metafonológicas (desenvolver a consciência fonológica) auxilia a aquisição de leitura e escrita. Porém, no Brasil, até hoje predomina o método global, tanto no contexto clínico quanto no educacional.
    …..As razões para a insistência em um modelo que tem logrado péssimos resultados nas avaliações nacionais e internacionais, tendo sido descartado como ineficaz por outros países7, possui uma explicação complexa, que perpassa conjecturas políticas e ideológicas até problemas próprios da formação de professores nas universidades do país…

  4. E somos dois…mais haverá! Dispenso o discurso pomposo de teóricos de gabinete que defendem isto ou aquilo sem estar no terreno.
    ” Pela experiência que ao longo de 37 anos acumulei, afirmo que nenhum método é infalível. Já tive muitos alunos com elevadas dificuldades de aprendizagem e, nem todos, conseguiram aprender com o mesmo método. Cada aluno com dificuldades de aprendizagem é especifico nas dificuldades que apresenta. As dificuldades de aprendizagem não são padronizadas, mesmo aquelas que são referenciadas como tendo dificuldades iguais pelos técnicos que as realizam. Há que contar com muitos ouros fatores transversais, como por exemplo, o meio familiar, sócio económico ou cultural em que o aluno está inserido. Por isso, o método que é bom para uns, poderá não o ser para outros. A aprendizagem da leitura e escrita por parte de crianças com dificuldades de aprendizagem, cognitivas ou outras, é um autêntico manancial de surpresas. Cada uma se diferencia da outra, nem que seja em pequenos detalhes. Mas, por vezes, esses pequenos detalhes são o suficiente para que o mesmo método aplicado a ambas não resulte com o mesmo êxito. Concluo que, todos os métodos são bons, todavia, alguns com melhor rendimento que outros e, até já tive alunos, por incrível que parece, que só conseguiram aprender a ler e escrever com a aplicação misturada de alguns dos métodos conhecidos e o meu próprio método.”

  5. Concordo que se devem experimentar todos os métodos em alunos onde o que foi aplicado falhou. O que quero afirmar é que há, por maioria, e de modo geral , uns melhores que outros.
    Gostaria também de frisar que nada tenho contra determinada metodologia: a única perspetiva que me interessa é a da eficácia. Sei , também que algumas crianças têm vantagens na utilização de um método misto ou do método que , de facto, funcione…
    A conclusão a que têm chegado todos os estudos científicos, pelo menos os que tive a oportunidade de ler, é que os chamados métodos sintéticos são mais eficazes que os analíticos : existem razões ao nível do funcionamento cerebral para que assim seja.
    No primeiro grande estudo sobre o tema realizado na Universidade de Harvard, por Jeanne Chall, : Chall’s Learning to Read the Great Debate (1967), as conclusões são aquelas que aponto. Quando iniciou o estudo a própria autora estava ”convencida” que os chamados métodos analíticos eram superiores…
    O que quero dizer, pois, é que não devemos ignorar a Ciência em detrimento da crença.

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