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Apontamentos Sobre O Facilitismo – João Costa

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O secretário de estado, João Costa, sentiu a necessidade de, na tentativa de voltar a impor a sua visão idílica, que demonstra desconhecimento da realidade escolar, voltar a explicar o que pretende com o DL 54/2018.

A mim não me convence, como escrevi aqui, Medidas Universais de suporte à aprendizagem ou medidas universais de sucesso automático.

Não me convence, não  porque não entenda a necessidade de mudanças na escola mas porque considero que antes desse tipo de mudanças há outras mais importantes, nomeadamente combater a indisciplina, que parece ser um mal apenas daqueles que lá estão, pois não se ouve ninguém a falar disso!

E pelos comentários que recebi do meu artigo, acho que o SE João Costa, ou anda mal informado ou não quer ler e ouvir o que os professores têm para dizer sobre estes e outros assuntos!

Tirem as vossas conclusões.

Alberto Veronesi


Não é justo que a escola, que é a única esperança de mobilidade social para muitos, em vez de eliminar as assimetrias sociais à entrada, as reproduza ou, por vezes, as acentue.
É comum, quando se fala em promover o sucesso escolar ou em trabalhar para a construção de uma escola mais inclusiva, levantarem-se algumas vozes que imediatamente acusam qualquer iniciativa dessa natureza de ser, na realidade, promoção de um ensino facilitista.

Vale a pena tentar perceber a origem desse medo, para se averiguar se é real e para se entender se a inclusão corresponde a uma redução da qualidade e se querer mais sucesso é sinónimo de uma redução de expectativas face aos resultados dos sistemas educativos.

O medo dos arautos do facilitismo é simples de entender. Baseia-se na ideia de que a alternativa a reprovar é passar. Isto transforma o ato educativo num ato administrativo. Transforma a passagem de ano num mero exercício estatístico, em que se confunde o resultado com o que deve gerar esse resultado. Parte do princípio de que promover o sucesso é espoletar passagens administrativas independentemente do que os alunos aprendem. A ser assim, estaríamos perante uma fraude em que todos nos enganávamos uns aos outros. Os alunos eram defraudados porque não estariam a aprender. Os professores defraudados por se estar perante uma legitimação de uma perversão do seu trabalho. Costumo dizer que, se Portugal um dia acordar com 0% de insucesso, mas os alunos não tiverem aprendido nada, falhamos duplamente. Porque a sua avaliação foi adulterada e porque não aprenderam.

Então qual é a alternativa a reprovar? Aprender. E se os alunos aprenderem, no final do ano não reprovam. Isto implica um trabalho da parte de todos que é tudo menos fácil e, portanto, é tudo menos facilitista. Sabemos que o insucesso escolar em Portugal – tal como em muitos outros países – está fortemente associado à condição socioeconómica dos alunos. Os ricos passam, os pobres enfrentam muito mais dificuldades. Isto significa que o problema do insucesso é, em primeiro lugar, um problema de justiça social. Não é justo que a escola, que é a única esperança de mobilidade social para muitos, em vez de eliminar as assimetrias sociais à entrada, as reproduza ou, por vezes, as acentue. É conhecida a minha aversão a rankings simplistas que mais do que mostrarem o trabalho de uma escola mostram o contexto socioeconómico dos alunos ou até a capacidade de procurar centros de explicações nos arredores. Esta é a escola facilitista: a que seleciona alunos à entrada e que vive muito do que se passa fora dos seus muros.

Para alguns, a pobreza é uma fatalidade na educação. Não há nada a fazer. Felizmente, sabemos que isto não é verdade. Num estudo de 2016 da Direção-Geral de Estatísticas de Educação e Ciência, Desigualdades Socioeconómicas e Resultados Escolares, confirmam-se as assimetrias sociais, mas verifica-se que, comparados alunos que têm o mesmo perfil socioeconómico (apurado de acordo com o escalão de Ação Social Escolar e a habilitação da mãe), é possível concluir que a pobreza não é um destino, constatando-se assimetrias regionais que revelam que a pobreza é um preditor mais forte de insucesso nuns distritos do que noutros. Afinal, a escola pode fazer a diferença, sendo necessárias análises qualitativas sobre o trabalho que fazem as escolas que contrariam o determinismo da condição social.

Este trabalho tem vindo a ser feito. Sabemos hoje mais sobre o trabalho feito em escolas que conseguem levar alunos de minorias étnicas até ao fim da escolaridade obrigatória, sobre o que fazem as escolas TEIP que conseguiram uma evolução positiva dos resultados, sobre as estratégias de envolvimento parental em comunidades particularmente vulneráveis. São escolas que não desistem e sabem que mais do mesmo vai necessariamente não funcionar. A palavra “culpa” é muitas vezes usada nestes debates. Está-se a dizer que são as escolas que têm culpa quando os alunos não aprendem? Não. Simplesmente afirma-se que, perante contextos de enorme dificuldade, importa partilhar experiências e práticas que contrariam o fatalismo. Estas práticas geralmente mostram que a escola sozinha não resolve, mas que sem escola nada se resolve.

A escola que só garante o sucesso dos que têm condições privilegiadas à partida não cumpre a sua missão. A inclusão de todos os alunos, prevista no decreto-lei 54/2018, é apoiada por medidas que visam promover melhores aprendizagens e não atos administrativos. Como instrumentos de trabalho para a inclusão e para o cumprimento do Perfil dos Alunos, o Governo desenvolveu medidas como a flexibilidade curricular, a revisão das Orientações Curriculares para e Educação Pré-escolar, a identificação de Aprendizagens Essenciais para combater o problema da existência de programas demasiado extensos, a intervenção em projetos locais de intervenção precoce no âmbito do Plano Nacional de Promoção do Sucesso Escolar, a Estratégia Nacional de Educação para a Cidadania, um investimento na formação científica e pedagógica dos docentes, a criação do Plano Nacional das Artes, o relançamento do Plano Nacional de Leitura 2027, a promoção de mais ciência experimental nas escolas com a rede de clubes Ciência Viva, a valorização do Ensino Profissional, a diversificação de instrumentos de avaliação mais adequados e formativos, com produção de relatórios qualitativos, avaliação performativa, aferição com dimensão interdisciplinar, avaliação de produção e compreensão oral nas línguas e apoio tutorial específico para o desenvolvimento de competências sociais e emocionais.

Este trabalho integrado é tudo menos fácil.

Afinal, a escola verdadeiramente facilitista não é a que promove sucesso. É aquela que se limita a esperar pelo fim do percurso, a examinar e a verificar quem passou e enviar para outro percurso aquele que não conseguiu. Isso é fácil. Difícil é garantir que também aprendem os que chegam à escola sem motivação, sem relação com o conhecimento, por vezes com fome e a experimentar situações familiares terríveis. Felizmente, temos uma história recheada de escolas, comunidades e muitos professores que fazem a diferença na vida destes alunos e não os transformam num problema administrativo. E isto sabemos que não é fácil.

Secretário de Estado da Educação

‘Caderno de Apontamentos’ é uma coluna que discute temas relacionados com a Educação, através de um autor convidado.

Fonte: Observador

7 COMMENTS

  1. A pobreza sr. Secretário de Estado combate-se com políticas que promovam a riqueza e o elevar da qualidade de vida das famílias. Não se resolve fazendo as escolas e os professores carregarem uma culpa que é mais dos políticos, dos banqueiros que roubaram, das políticas necessárias que ficaram nas gavetas… Mas assim é mais fácil, jogar às palavras e fazendo questões armadilhadas: ´´como é que os meninos pobres não têm oportunidade de aprender?´´ E porque é que os professores não os ensinam ?” Esta retórica demagógica, que parece inofensiva, atira para as escolas toda a responsabilidade de um eventual ”afundanço”das aprendizagens com a implementação dos famosos 54 e 55… Demagogia do piorio quando sabemos que as condições sócio-económicas das famílias não mudaram e as condições nas escolas se vão degradando dia após dia. O que o senhor secretário de estado fez foi criar uma legislação miserável, que nivela por baixo, que não deixa outro caminho aos professores outro caminho que não seja o de transitar alunos sem eles saberem nada, de nada… O que está a acontecer nas escolas portuguesas é simplesmente vergonhoso… era bom que os governantes saíssem do gabinete e olhassem por detrás da cortina, e não aceitassem como verdade que ouvem de alguns directores alinhados … Pergunte aos professores o que está a acontecer à educação em Portugal! O que se passa nos conselhos de turma por esse país fora… O afunilamento da lei que permite uma só coisa o sucesso , mesmo que seja uma farsa!
    Vai sair muito cara esta deriva à Educação Pública , mas nessa altura o autores já estarão longe e os professores serão os culpados… Quanto aos filhos dos senhores da governança continuam em colégios privados, não é Senhor Secretário de Estado????

  2. Um demagogo da treta! Uma semana com uma turma, não precisava de ser das piores, numa periferia e passava-lhe a conversa fiada… O senhor ”palreia” e os professores levam no lombo!
    O que precisam muitos meninos é disciplina e conhecimentos não é essas patetices de quem vive em gabinetes e nos sofás da OCDE!

  3. https://www.european-agency.org/sites/default/files/Empowering%20Teachers%20to%20Promote%20Inclusive%20Education.%20A%20case%20study.pdf

    Talvez o sr secretário de estado se tenha inspirado neste relatório da Agência Europeia para as Necessidades Especiais e a Educação Inclusiva. Pena é que nada diga sobre o ”empoderamento” e a valorização dos professores , condições sem as quais, conforme exaustivamente explicado neste relatório, não é possível tornar a escola pública melhor e inclusiva.

  4. Isto não interessa para nada.
    Os filhos dos governantes ou estão em Londres ou num colégio privado onde se estão a caaaagar para o 55 e o 54.
    Por isso ralemmm-se os profs parvinhos que ainda conseguem arranjar “defesas” para estes dois artigos.

    Se os Sindicatos colocassem na comunicação social em forma de ESCANDALO esses dois artigos os pais até tremiam.

  5. Os Srs Costas (I e II) vão ficar na história da Educação como os impulsionadores de um país de analfabetos. Esperem e vejam.

    A aplicação das ditas “medidas” é, no mínimo, hilariante. As ordens são para passar, passar, de qualquer maneira porque … tantos os meninos como os seus papás podem ficar indispostos. Viva a ignorância! Aplicam-se medidas porque é preguiçoso, porque é irresponsável, porque faz o que lhe dá na real gana… O país vai pagar isto bem caro. Esperem e vejam.

    Fico de coração partido com a forma como os bons alunos, aqueles interessados e trabalhadores estão a ser injustiçados. Nesses ninguém pensa. Nem uma palavra. Esses são uns heróis! Sobrevivem no meio do faz de conta, da preguiça, da incompetência, do atraso de vida. O país vai pagar caro. Esperem e vejam.

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