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Anita no jardim

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O Verão tardio afogueia ainda o pôr-do-sol. O pátio do jardim já se calou de risos e brincadeiras.
little girl by the fenceOs baloiços quedam-se no merecido descanso, prontos para folgar no manso da noite. Lá dentro, as salas e corredores repousam na penumbra, um cheirinho bom a asseio solta-se do chão ainda molhado.

Junto à portaria, duas mãozinhas de dedos gordinhos enrodilham-se na rede, formando pequenas flores assimétricas de minúsculas unhas pintadas de cor-de-rosa. Um vestidito amarelo, estampado com diminutas gaiolas multicores, esvoaça na brisa e exibe, despreocupado, os vincos e máculas de um dia no jardim-de-infância. Na fronte transpirada, misturam-se as farripas húmidas da franja com os sulcos vincados dos arames, no esforço de vislumbrar para além da rede.

“Ó Cilinha, vês alguma coisa, vês?”, pergunta mais uma vez. Que não, responde-lhe a Cila. Que há que ter paciência, torna-lhe, com um sorriso encorajador. “Mas é muito tarde, pois é? Vai ser noite, não vai? E nós vamos ficar aqui as duas sozinhas e eu tenho medo!” As sobrancelhas ralinhas formam um arco de genuína preocupação. “Calma, querida. A mamã já vem. Está quase, quase a chegar.” “Está quase a chegar”, murmura a Cila mais para si própria do que para a petiza, numa tentativa infrutífera de persuasão conjunta.

O sol está prestes a pôr-se no fundo da rua tranquila. Os espaços de estacionamento estão quase todos desocupados. Os passeios vazios ladeiam a rua larga, já preparada para o sossego desabitado da noite. Os olhos da Cila cravam-se na curva ao fundo da estrada, enquanto mentalmente desfia o ror de coisas que ainda tem de fazer, as desoras que são, a sua sina de corrupiar. A menina choraminga. A mulher faz-lhe uma festa no cabelo. “Olha, Ana, vem lá a mamã!”

A Ana enxuga as lágrimas com as costas da mão, limpa de caminho o nariz, saltita para tentar ver. Já o automóvel sobe a rua, garboso e luzidio, e estaciona desafogado na frente do recinto. A mamã da Ana desce do veículo apressada e sorridente. Na atrapalhação da correria, cai-lhe ao chão a sacola, dispara o frasco de protector solar, os óculos de sol aterram –afortunadamente- em cima da toalha de franjinhas, a revista esventra-se no pavimento.

A Ana estanca, fraccionada pela alegria de ver a mãe e a necessidade de apreender o insólito da situação, o semblante fechado da Cilinha. “Desculpe, D. Cila”, diz a mamã, ao mesmo tempo que atabalhoadamente apanha do chão a parafernália, “atrasei-me um bocadinho…” A D. Cila, aperreada pela vontade (não concretizável) de lhe dizer duas ou três coisas, arremessou: “um bocadinho é como que diz, não é? É que o Jardim já fechou há quase duas horas, sabe? E só cá fiquei eu com a menina!” Ainda adiantou “E já não é a primeira vez que…”, mas a voz morreu-lhe na distracção de observar as revoadinhas de areia a soltarem-se das sacudidelas da toalha.

Resignada, voltou as costas para fechar o portão. Ainda ouviu a vozinha magoada da menina “Ó mamã, foste à praia? E não me levaste?” e sentiu a sua indignação a afundar-se numa vaga imensa de compaixão e tristeza.

MC

Estendal

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