Início Editorial Anda filho, vamos ao tribunal, perdão… Escola!

Anda filho, vamos ao tribunal, perdão… Escola!

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Há muito que a escola deixou de ser um espaço unicamente centrado na aquisição de conteúdos. Reduzir o papel docente à transmissão do saber é uma visão saudosista que não pode estar mais longe da realidade, por muito que seja venerada por alguns colegas, o professor é hoje um multitask por excelência. Temos o professor administrativo, o professor psicólogo, o professor encarregado de educação, o professor babysitter, o professor advogado e até o professor jurista. O “legislês” que é vomitado para cima das escolas é uma coisa por demais e a formação de base do professor, bem como a formação subsequente é escandalosamente insuficiente.

tribunalAinda há pouco tempo, durante uma audição no âmbito de um processo disciplinar, uma mãe confidenciou-me que antes de sair de casa disse ao seu filho que o ia levar a tribunal. Apesar do evidente exagero, a senhora não deixa de ter alguma razão.

Desde a receção da carta, que convoca formalmente o aluno e respetivo encarregado de educação, que refere o número do processo disciplinar, o dia de audição, as horas, etc. Passando pelo auto de audição, com registo de declarações e respetivas assinaturas, à audição de testemunhas e posterior “leitura” de sentença, normalmente por comunicação escrita. Transformou, aquilo que antigamente era resolvido por uma ida ao diretor e consequente castigo, num monstro burocrático semelhante a um qualquer julgamento.

Apesar da formalidade de procedimentos, eu tento sempre tornar o processo de instrução no primeiro momento de recuperação do aluno, abdicar da minha formação docente por um mero “advoquês” é algo que recuso determinantemente a fazer. Acredito que o aluno pode sempre ser recuperado e mesmo nos momentos mais difíceis, é preciso mostrar que existe uma alternativa, que existe outro caminho e que haverá sempre alguém que o vai incentivar e que irá reconhecer essa mudança de atitude. Cada atitude tem uma consequência, boa ou má… este é o mantra…

Apesar de reconhecer que existem vantagens em ter um processo formal, principalmente quando se trata de alunos que têm comportamentos semelhantes a parasitas sociais, estes não deixam de ser alunos e uma escola não deixa de ser uma escola… “Judicializar” um espaço educativo vai trazer também aquele que é o maior cancro da justiça em Portugal – a morosidade…

Se tivermos em consideração que desde a ocorrência, à elaboração e entrega da participação disciplinar (vamos atribuir um prazo médio de 2 dias úteis) e todos os procedimentos inerentes à elaboração de um processo disciplinar, podem passar 16 dias úteis, sim, 16 dias úteis… são 3 semanas.

A cabeça de uma criança do 1º, 2º ou 3º ciclo não funciona como a cabeça de um adulto, até mesmo no secundário assistimos a uma cada vez maior infantilização, que em muitos casos já atingiu o ensino superior. Para eles, o futuro é algo tão longínquo como o próximo fim de semana, a próxima festa, ou em alguns casos a próxima bebedeira. Esta geração é a geração instantânea, tem acesso a tudo em todo o lado e a qualquer hora. Quando éramos miúdos, se queríamos informação tínhamos de a procurar fisicamente, ir a bibliotecas, requisitar “n” livros, procurar, procurar e procurar. Hoje basta perguntar a “Deus” (como eu lhe chamo) e o Google responde. Eles nem sequer precisam de esperar para ver a sua série ou filme preferido, basta sacar da net e pimba! E quando perderam algo que queriam ver, basta chegarem atrás e voilá. É melhor que farinha Maizena.

Castigar um aluno por algo que aconteceu 2 ou 3 semanas depois, terá um efeito reduzido ou mesmo nulo, podendo até criar sentimentos de injustiça se o comportamento observado foi adequado nas semanas seguintes. E quanto mais nova for a criança menor será a sua eficácia.

Brevemente teremos um novo governo e um novo ministro da educação, e se a instabilidade política dificilmente permitirá grandes reformas, ao menos que se simplifique aquilo que diariamente causa transtornos a professores, diretores, alunos e encarregados de educação. Basta apenas olhar para a escola como uma escola e não como o tribunal dos pequeninos…

A gerência agradecia…

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