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Somos amadores no que à indisciplina diz respeito…

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Se no vosso quotidiano, quando deparados com um problema contínuo e transversal que boicotasse a vossa tarefa, ficariam de braços cruzados sem querer saber a sua natureza e extensão? Ou fariam algo para o resolver? Não faz sentido que pessoas com formação superior continuem a olhar para o problema da indisciplina através de binóculos, não querendo sujar as mãos com medo de levantar poeira que possa criar uma alergia tal que implique internamento, leia-se, crise política por controvérsia ideológica.

Mas se o atual Ministro tiver a coragem necessária, talvez possamos mudar algum do amadorismo que está entranhado na comunidade educativa.

Diz o senso comum que devemos começar pelo princípio e o princípio é naturalmente o diagnóstico. Só depois surge uma análise às causas, seguida da implementação de uma estratégia para o resolver. Fácil! Teoricamente…

Nas questões disciplinares o Ministério da Educação, e já agora, é preciso dizê-lo, muitas escolas também, não procedem dessa forma. A abordagem é muito mais reativa do que pró-ativa.

O estudo que fiz para o ComRegras, mostrou que existem elevados índices de indisciplina – e estamos a falar de escolas que até estão organizadas e conhecem a dimensão do problema -, foram mais de 9000 participações disciplinares (expulsão do aluno da aula) em apenas 4,4% dos Agrupamentos/Escolas é muito, mesmo mesmo…

Como todos constatámos esta é apenas a ponta do icebergue e o estudo apresentado teve o intuito de pela primeira vez, conhecer um pouco da realidade escolar ao nível da indisciplina. Mas muito mais é preciso fazer, desde: conhecer a dimensão nacional da indisciplina por tipologia, idade e género; verificar se a retenção faz aumentar os índices de indisciplina e vice-versa; comparar os fatores geográficos e níveis socioeconómicos com os índices de indisciplina; saber se a formação académica dos pais afeta a indisciplina dos alunos; conhecer as dinâmicas de sala de aula que potenciam situações de indisciplina; etc…

Muitos de vós ao lerem estas palavras até podem opinar sobre o assunto, mas se queremos ter a certeza do que estamos a falar precisamos de factos, e isso não temos…

Está na altura do Ministério da Educação e as suas Escolas, profissionalizarem a abordagem à indisciplina escolar. E não se trata de algo extremamente complexo, com “n” estudos e não sei quantos decretos, basta organização e vontade política. A tutela já possui um programa de recolha de dados das escolas intitulado MISI, que pode desempenhar essa função facilmente. Basta incluir algumas parcelas sobre o assunto e temos o diagnóstico feito.

Não estou com isto a dizer que existe desleixo ou que quem está nas escolas não é profissional, nada disso, trata-se de uma questão cultural e a indisciplina ainda é vista como um tema menor, tabu talvez… muitos continuam a associar a sua existência ao seu próprio falhanço, pessoal e profissional.

Está na altura de olharmos o problema de frente e em conjunto – comunidade educativa – desenvolvermos as estratégias adequadas, alterando não só o óbvio, como a dimensão das turmas e a elevada carga letiva, como também trabalhar os atores que estão na primeira linha, pais e professores.

Sobre os pais a situação é complexa, trata-se de algo que se passa dentro de portas e que é geracional, onde a liberdade conquistada foi mal digerida e foi confundida com libertinagem. O inquérito que hoje lanço tem como objetivo desvendar um pouco dessa realidade.

Sobre os professores, a música é outra… e sendo eu professor não acho aceitável ter recebido uma formação de 5 anos sem uma única cadeira que me preparasse para a realidade que ia encontrar enquanto professor/educador, ou que em 15 anos de docência não tenha usufruído de formação específica, preferencialmente prática. Aos professores não se podem atirar responsabilidades, não cabe a estes decidir a sua formação, mas cabe a eles exigi-la, assumindo uma necessidade com humildade e realismo.

Recentemente fiz duas sondagens sobre esta matéria e dos 1235 votantes, quase 80% indicou que não tem formação específica e cerca de 60% há pelo menos 5 anos que não frequenta uma formação sobre gestão/medicação de conflitos. O senso comum que os professores têm e a experiência adquirida permite-lhes lidar com as dificuldades que vão surgindo, mas a receita é sempre a mesma pois não lhes foi fornecida outra. Muitos até podem dizer que não precisam de formação, mas os factos são os factos e os factos provam o contrário.

Porquê este artigo agora? Porque o assunto está a morrer e já passaram quase 2 meses desde o estudo que publiquei e não vejo alterações no discurso e nas medidas a implementar. E para quem gosta tanto de apresentar medidas para 2018, também podiam dizer algo mais do que palavras de circunstância…

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