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Alunos que ajudavam colegas carenciados são quem agora precisa de apoio

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Alunos de famílias de classe média, que antes participavam em campanhas de solidariedade, são agora quem precisa dessa ajuda e algumas escolas receiam não conseguir acudir a todos. Os efeitos da crise económica provocada pela pandemia de covid-19 começam a notar-se nas escolas, segundo relatos de diretores escolares feitos à Lusa.

Nas salas de aula ou nos recreios, os professores e funcionários sinalizam cada vez mais casos de dificuldades financeiras. Entre os alunos repetem-se as histórias de familiares atirados para o desemprego.

“Já não são as tradicionais famílias que estão em dificuldades. A classe média também está a passar mal”, revelou o presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos de Escolas Públicas (ANDAEP).  Segundo Filinto Lima, “a necessidade de acudir às famílias está a aumentar e por isso a faceta social das escolas está também a emergir”.

A pandemia não conseguiu abalar tradições como os projetos de solidariedade na época de natal. Mas, em alguns estabelecimentos de ensino, alterou os destinatários. Se antes tinham como objetivo principal ajudar as famílias de bairros carenciados ou “os vizinhos da escola”, agora voltaram-se para os seus estudantes, contou Filinto Lima.

Em Loures, a paróquia costumava receber os cabazes de natal do agrupamento n. 2. Este ano foram todos entregues a estudantes: “Sentimos que tínhamos que nos virar mais para dentro, porque os nossos alunos são quem mais precisa”, disse à Lusa a diretora do agrupamento, Irene Louro.

Também no Norte, 89 famílias de estudantes do agrupamento de Escolas Dr. Costa Matos receberam na semana passada um cabaz. “Algumas das famílias que antes ofereciam alimentos estão agora do outro lado, a receber ajuda”, alertou Filinto Lima, que é também diretor do agrupamento Dr. Costa Matos, em Vila Nova de Gaia. Segundo este diretor, há escolas que já não conseguem acudir a todos. O problema não está na quantidade de bens recolhidos, mas no aumento de pessoas a precisar de ajuda.

Os últimos números do Instituto de Emprego e Formação Profissional mostram um país com mais de 400 mil desempregados e mais de 12 mil casais em que ambos deixaram de ter qualquer fonte de rendimentos.  A estes, juntam-se milhares de “desempregados invisíveis”, que não estão inscritos nos centros de emprego nem recebem subsídio de desemprego. Muitos destes casos são sinalizados pelas escolas.

Nas grandes cidades, os vizinhos mal se conhecem e a entreajuda torna-se mais difícil. Muitas vezes, só o convívio e ambiente escolar conseguem aniquilar o anonimato das grandes urbes. “Há muita pobreza encoberta e as pessoas têm receio e vergonha de mostrar o quanto necessitam. Nós conhecemos bem as famílias e, infelizmente, são muitas as que precisam. Mas para nós é fácil falar com elas”, contou Manuel Pereira, presidente da Associação Nacional de Diretores Escolares (ANDE).

Manuel Pereira é também diretor do Agrupamento de Escolas General Serpa Pinto, em Cinfães, que ofereceu mais de 50 cabazes de natal aos seus alunos. Mas Manuel Pereira lembrou que, nas escolas, as ações de solidariedade não têm “época” nem prazo de validade. Acontecem durante todo o ano.

Fonte: Observador

 

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