Home Notícias Alunos E Professores Afirmam Que #EstudoEmCasa Ficou Aquém Do Nível Das Turmas

Alunos E Professores Afirmam Que #EstudoEmCasa Ficou Aquém Do Nível Das Turmas

7153
3

Mas não é suposto apostar na revisão/consolidação de conteúdos? Gostariam de ver a telescola lecionar matéria nova? Estavam à espera de aulas práticas (excluindo ed.física) ou interdisciplinaridade pela televisão? Ou aulas de nível avançado sem um professor ao lado para tirar dúvidas?

Acho que as pessoas estão a esquecer-se que o ensino à distância surgiu não como substituição, mas como um complemento em período de emergência nacional…

A única crítica e até é mais uma observação, é ter reparado que a aposta no ensino pela televisão passa pela codocência, ao contrário do ensino presencial. Outra constatação é a faixa etária dos professores da televisão não corresponder minimamente à realidade da sala dos professores.

Fica a notícia.


Eram 10:20 da manhã quando o pequeno Duarte, de oito anos, se sentou em frente à televisão para a sua primeira aula de 30 minutos na RTP Memória. Arrancou com Português, depois Matemática – por hoje, era tudo o que estava programado para meninos e meninas da sua idade. A expectativa era muita, tanto da parte dos alunos como da parte dos pais. Mas o primeiro dia não escapou à crítica, de miúdos e graúdos: “mal começou, ele comentou logo que a aula era demasiado fácil e perdeu o interesse”, conta o pai do aluno do 3.º ano, Carlos Faísca, de 37 anos. Uma opinião partilhada entre outros alunos, pais e professores.

O dia era esperado em tom de esperança. Na sua casa, os dias têm-se revelado caóticos, entre turnos repartidos pelo trabalho e pela ajuda pedagógica aos filhos. “É impossível ter quatro horas seguidas para trabalhar”, confessa. Tanto Carlos como a esposa estão a funcionar em teletrabalho, dividindo “o período em que cada um fica com as crianças, para que o outro se possa dedicar à vida profissional”. Uma tarefa tanto mais complexa quanto mais dependente forem os filhos dos seus pais. Por isso, com mais um filho de um ano e meio, o desafio intensifica-se. “Não é por acaso que existem educadores de infância e escolas. A sociedade está organizada para que, a partir de uma determinada altura, os pais se possam libertar deste encargo para dedicarem tempo à vida profissional e isso não está a acontecer”, lembra.

Deixar parte do acompanhamento à responsabilidade de uma TV poderia vir a facilitar o andamento dos dias, esperava a família. Mas Duarte rapidamente perdeu o interesse no que lhe estava a ser transmitido, depois de convencido que aquela lição já há muito estava aprendida. Segundo Carlos Faísca, “a aula de hoje foi muito básica para o nível em que está a sua turma”.

Por consequência, “os conteúdos trabalhados pelos professores não incluem nada do que os [seus] filhos veem” na televisão, acrescenta Céline Costa, mãe de três, natural de Leiria. A manhã foi um desafio ao silêncio, calando-se uns aos outros para que se pudesse ouvir a TV.

Se o conteúdo até entusiasmou a filha mais nova, a frequentar o 2.º ano de escolaridade, a mais velha, no 8.º ano, sentiu o mesmo que o pequeno Duarte. “Achou as primeiras aulas muito fáceis e ‘um bocado seca’. Reconhece que as professoras até têm jeito e explicam bem, mas os conteúdos são maçadores e são revisões”, conta. O que, a seu ver, coloca em risco a capacidade de complemento de ensino à distância a esta iniciativa. “Há uma indicação por parte dos professores para [os alunos] verem, mas depois não há seguimento”, porque os conteúdos diferem.

Já o dirigente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP), Filinto Lima, garante que os professores estão preocupados em “incluir estas aulas na planificação semanal com os seus alunos”. No final da semana passada, aliás, o Ministério da Educação enviou os conteúdos a ser transmitidos na televisão para que os docentes se pudessem preparar.

O desafio do ensino à distância trouxe uma “flexibilidade no currículo” das escolas, que trabalham a diferentes velocidades, diz Filinto Lima

“Há um certo receio em dar matéria nova”

Era o primeiro dia de aulas na RTP Memória e foi com a professora Isa que o país acordou. Confessou-se nervosa, mas otimista, e fã de histórias – não fosse professora de Português. A Casa da Mosca Fosca, de Eva Mejuto, soou na sala de aula, apresentando vários animais e convidando a um jogo de fonética aos mais pequenos, alunos do 1.º e 2.º anos de escolaridade. “Até aqui, tudo bem”, comenta a professora Madalena Pereira, coordenadora da Escola Básica de Folgosinho, na Guarda. Uma das 52 escolas do 1.º ciclo que continuam a prazo, por não cumprirem o requisito legal mínimo de alunos para formar turmas.

Mas o dia seguiu, passando por Matemática, História, Ciências Naturais, Inglês e Espanhol de diferentes anos, e as fragilidades saltaram à tona. A aula de Matemática do 3.º e 4.º anos, por exemplo, considerou ser “muito básica”, aquém do nível a que se encontram os alunos nestas idades. Mas reconhece que “há um certo receio”, por parte dos professores, “em dar matéria nova”, principalmente nestas idades.

“As indicações que temos são de ir revendo os conteúdos. Nestas idades é muito complicado ir além disto, porque estaríamos a dar matéria através de um papel”, diz. Dotar-se de um computador, no caso das crianças de 1.º ciclo, não basta. É preciso educar as crianças para literacia digital. Os trabalhos têm sido encaminhados fisicamente. “Têm computador, mas não têm impressora, em grande parte dos casos. Por isso, a direção contacta a GNR, que faz chegar as fichas aos alunos”, conta.

O próprio ministro da Educação disse, na apresentação oficial do #EstudoEmCasa, ser “impossível que o professor acerte no local exato” em que as turmas se encontram a nível pedagógico. E o dirigente da ANDAEP, Filinto Lima, lembra que o desafio do ensino à distância trouxe uma “flexibilidade no currículo” das escolas, que trabalham a diferentes velocidades.

“Não podia ser perfeito”, acrescenta Rui Martins, presidente da Confederação Nacional Independente de Pais e Encarregados de Educação (CNIPE). “O Ministério da Educação entendeu que é preciso reforçar, para já, os conteúdos dados, do que estar a avançar para matéria nova” e, por isso mesmo, deixou “a garantia de que, no próximo ano, será reforçada a aprendizagem destes novos conteúdos”.

“É como se voltássemos à sala de aula outra vez”

Contudo, há quem veja neste atraso dos conteúdos face ao nível real das turmas uma oportunidade. É o caso de Madalena Sampainho, aluno do 9.º ano do Agrupamento de Escolas de Alcanena – do qual migraram algumas das professoras que dão rosto a esta nova telescola.

Por volta das 16:00, depois de uma manhã de aulas por videoconferência, preparava-se para a primeira aula na TV: arrancou com Português, passou por Inglês e terminou em História. O sentimento é de entusiasmo. “Estou a gostar muito. Começa a ser mais parecido com o que tínhamos na escola, porque temos um professor, numa sala de aula, a falar connosco. É muito mais natural do que ter um professor sentado do outro lado do computador a fazer uma videoconferência”, admite a jovem de 14 anos. “É como se voltássemos à sala de aula outra vez”, reforça.

Em Português, na RTP Memória, a professora Ana Carla Ferreira apresentou-se com a introdução ao estudo d’Os Lusíadas, obra obrigatória neste ano de escolaridade. Embora não fosse novo para a turma de Madalena, que “já ia mais à frente na matéria”, a jovem vê vantagens na repetição dos conteúdos. “Gostei muito, porque nos fez rever. Principalmente depois de termos estado estas duas semanas sem aulas, fez a diferença”, ​​​​​​​diz.

O anúncio do #EstudoEmCasa foi recebido com entusiasmo pela comunidade educativa, que já apontava esta como uma opção viável para fazer chegar o ensino a mais alunos. Os conteúdos serão transmitidos diariamente (em dias úteis), no canal RTP Memória – acessível por cabo, satélite e também através da televisão digital terrestre – para alunos do 1.º ao 9.º ano. A grelha de programação semanal é a seguinte.

Além da transmissão em direto de conteúdos pedagógicos, o Ministério da Educação desafiou os professores a disponibilizarem aulas em vídeo através de cinco novos canais criados na plataforma Youtube, permitindo que fiquem acessíveis à comunidade educativa alargada. Nestes canais será ainda possível rever os conteúdos transmitidos ao longo do dia na RTP Memória.

Para o pré-escolar, a iniciativa é outra. Também na RTP 2 haverá uma programação especial de manhã para crianças dos 3 aos 6 anos.

Fonte: DN

3 COMMENTS

  1. É apenas uma opinião e vale o que vale. Vi os conteúdos de 7 e 8 anos ( o meu filho está no 7 ). São muito básicos efetivamente, especialmente a matemática, que além de básicos, são leccionados a velocidade não compatível com esta geração (lentidão e repetição).O meu filho perdeu o interesse porque já sabe aquilo tudo. Imagino então para os alunos de 8 ano. Penso que foi perdida uma oportunidade fantástica de desafiar os nossos alunos que estão em casa, sem as distrações habituais e com tempo para desafios.

  2. Compreendo o “calculismo” na inclusão dos conteúdos. Na verdade também me pareceram muito básicos, considerando que estamos no 3º período. De qualquer modo, não podemos deixar de ter em vista que estão a ser lecionados dois anos de escolaridade em simultâneo. Também não podemos deixar de ter em conta que o contacto dos alunos com os seus professores é considerado o fator mais importante, o que a meu ver não é a medida mais acertada, considerando as dificuldades e impossibilidades já largamente esperadas e comentadas da falta de material informático e respetivas redes.

    Quanto à aula de Português, 1º e 2º anos, não apreciei, o “OK” constante da Colega. Mas compreendo a situação, poderá ser corrigida.

  3. É preciso atingir que as aulas são para todos. Têm de ter um grau de exigência exequível para todos.
    Criticar o que nos oferecem, seria o mesmo que, em teatro de guerra, queixarem-se de que um garrote foi feito com a camisa do próprio médico e não com um modelo Armani. Se os conteúdos de um ano são muito básicos, então adiantem-se e vejam os do ano seguinte. O objetivo não pode ser cumprir programas, tem de ser estimular.
    Espero que agora percebam que as aulas presenciais, ajustadas à turma que se tem à frente, são insubstituíveis e creditem o respetivo mérito aos professores.

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here