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Alunos Distraídos: Sentidos E Atenção

Os cinco sentidos conectam-nos com o exterior, mas são físicos e a mente vai além deste elemento palpável. Pelo que a presença física que atesta que o aluno foi à aula nem sempre corresponde à sua presença realmente.

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Relacionamo-nos com o mundo exterior através da nossa pele. Sentimos e através dos outros sentidos vemos, ouvimos, cheiramos e degustamos. Presentes desde o nascimento, vão evoluindo com a nossa própria evolução humana. Que papel têm na educação?

A presença em sala de aula para a folha de ponto faz-se simplesmente pela presença física. Confirmamos que o aluno está presente se o vemos e assinala-se nesse dia a sua presença. Mas entre mundos onde está o aluno presente? Corpo na sala de aula e cabeça noutro mundo? Como podemos confirmar que ele está mesmo lá?

Os cinco sentidos conectam-nos com o exterior, mas são físicos e a mente vai além deste elemento palpável. Pelo que a presença física que atesta que o aluno foi à aula nem sempre corresponde à sua presença realmente.

Viver o momento presente é algo que a moda tornou visível para todos. Jamais viver no passado ou no futuro, mas sim no momento presente apenas. Múltiplas técnicas Zen e não só são aplicadas para termos os pés assentes na terra. Mas se assim o quisermos. Nada se faz sem o nosso consentimento. No entanto, muitas vezes por défices a nível dos sentidos o aluno pode desligar da sala de aula e entrar num mundo que é só seu.

Quando o aluno ingressa no primeiro ano de escolaridade, o professor ainda não o conhece pelo que só o tempo vai ditar os trajetos e métodos a adotar com cada aluno. É bem verdade que é difícil aplicar um teste e um método para cada aluno, por falta de tempo, paciência, etc. Não é isso que interessa agora para o presente artigo. Podemos iniciar o ano letivo e ter um aluno mais distraído, cabeça no ar, hiperativo… e outros tantos rótulos que poderíamos aplicar. O que é facto é que antes de entendermos o que se passa com esse aluno, na maioria das vezes descreve-se um processo de défice de atenção. Mas se para estarmos atentos, os sentidos devem estar a funcionar, não seria sensato pensar que antes de mais aquele aluno pode não estar atento porque um dos sentidos pode não funcionar bem? Vejamos o exemplo da audição. Se não ouvimos bem muito provavelmente desligamos do que está à nossa volta. É como se o mundo estivesse imerso em água e o que ouvimos parece apenas um resquício da professora do Charlie Brown muito ao fundo da sala de aula, num blá, blá, blá imperceptível. Por mais que o aluno se esforce não consegue acompanhar, porque quando entendeu o que o professor disse já estão a milhas de matéria à frente. Sobretudo se fica sentado numa ponta da sala de aula e não consegue sequer visualizar os lábios do professor para perceber que o mesmo está a falar.

Outro aspeto importante é o da visão. A criança deveria realizar um rastreio oftalmológico antes da entrada para o primeiro ano de escolaridade. Com isto podemos prevenir algumas desatenções. Se não vejo bem, o mundo para mim terá outro significado. Ou seja, uma criança à qual nunca foi diagnosticado um défice da acuidade visual pode entrar para a escola e ficar distante do quadro e do professor. Como será de esperar deliga, e entra no seu mundo. Com esta atitude o professor poderá considerar que existe um défice de atenção. Existe, mas não real porque o que a criança tem é uma alteração visual. Também se a criança já usa óculos jamais deve ficar sentada de lado para o quadro, na conformação da sala de aula em U. Porque aí irá olhar pelo canto externo do olho, fora do plano ocupado pelos óculos. Nem correção visual se consegue, nem atenção porque contínua a não ver bem.

Parecem aspetos irrelevantes no processo educativo, mas se comunicamos com o mundo através dos sentidos (pelo menos) antes de se atirar para o ar um diagnóstico de défice de atenção deve-se, junto dos pais e técnicos de saúde explorar estas hipóteses. Muitas vezes temos surpresas e com a sua correção, um aluno que era completamente desatento torna-se no melhor da sala de aula no que diz respeito a notas, participação, comportamento, etc.

Por outro lado, e jamais posso deixar de referir isto: alguém que não está atento pode ser porque não lhe dão atenção (esta falta de atenção pode ocorrer tanto a nível escolar como familiar). Não aprendeu o que é ter atenção, e dessa forma não sabe comportar-se atentamente e pode desenvolver comportamentos desadequados para chamar a atenção. Afinal de contas como seres sociais necessitamos de atenção e a solidão é algo que nos transtorna o comportamento. Famílias e docentes devem estar atentos para que estes processos sejam rapidamente resolvidos para que seja permitido um trajeto educacional adequado às necessidades da criança.

Todos gostamos de atenção, mas não é dessa atenção egocêntrica que aqui se fala, mas sim do estar atento porque com os sentidos (pelo menos) estamos com os pés assentes na terra.

Cabe a todos, pais e professores, considerar que antes de um rótulo, seja ele qual for, deverão ser explorados outros mecanismos que podem estar a mascarar situações que do ponto de vista de saúde podem ser facilmente resolvidas e evitam um atraso no processo educativo da criança.

Vera Silva

Pediatra

Investigadora na linha de investigação a Escola e o Cérebro

Universidade Católica Portuguesa

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