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Alunos Carenciados Não Levantam Computadores Por Serem Emprestados

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Gente “fina” é outra coisa…


A covid-19 mandou os alunos e professores para casa a 16 de março, as aulas ficaram suspensas e, posteriormente, a aprendizagem passou a ser feita maioritariamente à distância. Nem todas as famílias têm um computador e internet em casa, por isso foi decidido atribuir estes meios às famílias mais carenciadas. Mas, em muitos casos, quando souberam que os tinham de devolver, acabaram por não os levantar.

Foi o que aconteceu no Agrupamento de Escolas Professor Lindley Cintra, no Lumiar, em Lisboa, onde um primeiro levantamento concluiu que eram precisos 140 conjuntos (computador e router, um dispositivo com dados de Internet) para equipar as famílias carenciadas das suas escolas. Apenas foram levantados 39, ou seja, menos de um terço (27,8 %).

“A grande maioria dos encarregados de educação contactados, sabendo que os equipamentos eram cedidos a título de empréstimo e que teriam de ser devolvidos após o términus do 3º período (até 5 de julho), optou por não recorrer a este mecanismo”, explica ao DN João Martins, o diretor do agrupamento.

Estavam a contar com as necessidades a nível de equipamento informático dos alunos dos 3º e 4º anos dos escalões A e B (carenciados) e com Necessidades Educativas Especiais, de forma a “facilitar a aprendizagem neste período de aulas não presenciais”. Informaram todos os encarregados de educação em causa, por carta registada quem não conseguiram contactar, e com as condições do empréstimo.

O equipamento foi entregue pela Câmara Municipal de Lisboa ao agrupamento Lindley Cintra a 29 de março. Faz parte dos 3580 computadores que a autarquia entregou às escolas do concelho, que inclui “a totalidade de alunos de escalão A e B de 3 e 4 ano do 1 ciclo de escolaridade”, informam do gabinete de Manuel Grilo, o vereador dos Direitos Sociais/Educação.

Esclarecem que o equipamento é “propriedade do agrupamento pelo que serão devolvidos às escolas findo o período letivo para as reequipar, para os projetos que entenderem. No caso em que os computadores não são entregues, foi decisão da direção do agrupamento que utilizará estes equipamentos nos projetos escolares do próximo ano”.

Aquele foi o procedimento na generalidade das escolas, refere o presidente da Associação Nacional dos Diretores Escolares, Manuel António Pereira. Contactaram em primeiro lugar as autarquias, mas também entidades públicas e associações, para angariarem o material informático e a forma de acesso à Internet. Depois, cada agrupamento organizou a entrega desses materiais.

“As escolas começaram por disponibilizar os equipamentos que tinham, posteriormente, contactaram os municípios, as associações e lançaram plataformas para angariar equipamento. Boa parte dos municípios conseguiram arranjar a maioria dos computadores, emprestando-os as escolas, mas também a sociedade civil contribuiu. Os que foram entregues pelos municípios têm de ser devolvidos”, especifica Manuel António Pereira.

No caso de Lisboa, os computadores não atribuídos ficam para as escolas, até tendo em vista uma redistribuição no próximo ano letivo. É, também, essa a indicação seguida a nível nacional.

Manuel António Pereira é diretor do Agrupamento de Escolas General Serpa Pinto, em Cinfães, onde foi concluído que 300 alunos não tinham materiais em casa para seguirem as aulas à distância, o que representa um terço dos estudantes do agrupamento. E apenas conseguiram 125 computadores, com a autarquia a disponibilizar 85. Não chegaram para as necessidades e três ou quatro foram devolvidos, “por dificuldades em manusear o computador”, acabaram por ser entregues a outros alunos.

O dirigente conhece situações em que as famílias não levantaram os equipamentos, por ser uma situação pontual. “Quando os pais perceberam que tinham de assinar uma declaração em que se comprometiam a devolver os computadores em bom estado no final do ano letivo, tiveram receio que os filhos os estragasse e acabaram por não os levantar”, justifica.

O DN questionou o Ministério da Educação sobre as necessidades dos alunos em equipamento informático indicadas pelas escolas e quantos foram efetivamente usados. Em resposta, o ministério referiu que não existe esse levantamento, uma vez que esses meios foram disponibilizados maioritariamente pelas autarquias. Isto, apesar de Manuel António Pereira informar que têm registado todos esses dados numa plataforma da Direção-Geral de Estabelecimentos Escolares.

Contactos efetuados pelo DN permitiram perceber que, por exemplo, a Câmara Municipal de Ponte da Barca entregou 50 computadores do projeto Altice (router com acesso à Internet, banda larga móvel,) e 86 tablets Android, sendo que 47 com router.

A autarquia de Ourique comprou 82 tablets e 31 routers, no valor de 24 mil euros e a Câmara Municipal do Fundão disponibilizou 272 computadores e 95 routers e, também aqui, foram todos distribuídos.

Fonte: DN

3 COMMENTS

  1. É legítimo que tenham receio de estragar os computadores e decidam não arcar a responsabilidade. Se por um lado há claramente a possibilidade de existir negligência por parte de uns pais, porque queriam antes um PC para si e para sempre, há também o de alguns não quererem ter uma despesa extra porque a criança destruiu o material. Estamos a falar de crianças de 3 e 4, pelo que entendi. E são famílias carenciadas, atente bem. Cheias de crenças, limitações e por vezes sentimentos de desvalorizacao pela educação.

  2. Como é que numa casa sem condições podes ter a certeza que o PC não é danificado?
    E depois €€€€ para o pagar?

    Vale maais não ter surpresas e não levantar.

  3. Deviam ter vergonha na forma como deram esta “notícia”. Titulo sensacionalista que leva a fazer um julgamento moral prévio, mais ou menos consciente, sobre um facto que depois vai-se a ver as reais motivações das pessoas para não levantarem os equipamentos são perfeitamente válidas. Muito triste mesmo este tipo de manipulação de opinião das massas…

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