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Alunos Agitados: Professores Esgotados

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A agitação é uma característica muitas vezes visada pelos professores para definir a turbulência geral em sala de aula ou do aluno isoladamente. Chamadas de atenção recorrentes com a elevação exponencial do tom de voz levam qualquer um à exaustão. Quer sejam professores, quer sejam pais. Quando os bebés nascem alguns são mais agitados do que outros, o que leva ao desgaste físico e mental dos progenitores pela sequência de noites em privação de sono. Mas o recém-nascido ainda não entende (porque o seu organismo está em processo de amadurecimento e adaptação, suprindo apenas as necessidades básicas) que os pais estão cansados, mesmo com todo o amor do mundo que têm em si. No entanto, os pequenos-grandes que frequentam o ensino escolar já entendem perfeitamente que há momentos onde é possível extravasar energia e outros há onde terão que tranquilizar as suas turbulentas células cerebrais.

No mundo ideal e fantástico do faz-de-conta tudo é possível, tudo se encaixa na perfeição, mesmo que não faça muito sentido, é como nos sonhos. Pelo que mesmo o mau comportamento seria aceite com um sorriso nos lábios, tal príncipe encantado que está cego de amor pela sua princesa. No mundo onde vivemos os momentos ideais e a escola ideal são feitos em passinhos de bebé, para que a progressão para o que é aceitável se atinja. O que é aceitável? Respeito. Respeito pelo que cada um é. O ensino do respeito inicia-se no berço, mas mesmo com este início neste local de segurança e amor, muitas vezes a vida prega partidas e alunos que aprenderam a ser respeitosos passam ao desrespeito como forma de retaliação pela vida lhes correr menos bem. Tema este muitas vezes associado a divórcios, mortes, toxicodependência, suicídio, violência doméstica. Este último tema faz-me bastante confusão, pois a sua expressão, relativamente a doméstico se prolonga para o local de trabalho, relações humanas, sendo que a vítima é vítima de vários agressores, pelas bases que tem.

Mas voltemos ao que interessa. Nas múltiplas atividades realizadas em sala de aula há alunos que não conseguem estar quietos. Obviamente as crianças ditas mais agitadas são as que são mais chamadas à atenção. O mesmo se passa em casa: no meio de vários irmãos, há sempre um que se destaca nas chamadas de atenção. Se bem que os outros o possam fazer pela “calada”. O mesmo pode acontecer na escola.

Esta definição de alunos agitados, que conversam ou brincam muito e destabilizam a sala de aula, assim como os alunos que evitam estar sentados (facto muito acentuando no primeiro período do primeiro ano de escolaridade, normal) são classificados de hiperativos, sendo considerada a necessidade de realizarem medicação. Na maioria das vezes não se verifica. Basta alguma base na educação social, escolar e familiar. Por isso, podemos considerar que, ser agitado é ser inquieto, que tem muito movimento ou muita energia como nos costumamos referir às crianças.

As bases para o conhecimento são a herança biológica, a experiência individual e a herança social, pelo que compete a quem educa que a criança tenha as ferramentas necessárias para se desenvolver a partir do ambiente envolvente, quer a nível cultural e social (neste caso: sala de aula e recreio). Destes dois polos, nasce também uma aprendizagem que fica retida para a vida muitas vezes mais do que muitas matérias das disciplinas. No entanto, para que a retenção do conhecimento ocorra quer social, escolar, quer culturalmente, deve haver uma colaboração entre educador e educando, sendo este um processo dinâmico – o aluno aprende com o professor, e o professor aprende com o aluno a aprender a lidar com o mesmo.

A motivação do ensino é já uma das formas que pode contribuir para a dita agitação em sala de aula ou do aluno individualmente – o que se transmite e a forma como se transmite a informação. A atividade que decorre também é importante, tem que fazer sentido para o aluno, porque se tal não acontecer como pode manter o grau de atenção? E não ser agitado?

Superiorizar a relação afetiva e emocional em detrimento da instrumentalização educativa centra a atenção no próprio captando-a em simultâneo.

Cada vez que a criança regressa do recreio a sua agitação eleva-se a graus que nem o tom de voz estridente ou o silêncio absoluto do professor podem deter. A sequência será mais ou menos esta: agitação, falta de concentração, resultados académicos baixos. Há que envolver os encarregados de educação neste processo para que o trabalho de equipa funcione.

No fundo tudo isto se resume a uma questão de respeito pelo que cada um é e aceitar o que poderá estar por detrás de cada dinâmica comportamental. Nunca conhecendo o outro na totalidade, pode-se respeitar a atitude aceitando alguns porquês e com isto talvez consigamos alunos menos agitados e professores menos esgotados.

Vera Silva

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