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Alguns conselhos para evitar “erros de disciplina que até os melhores pais cometem”

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familiaReacções típicas de pais a cenas deste teor ou parecido: “Pára já com isso!, “Acalma-te imediatamente”, “Foste mal criado”. Há também o “vai para o quarto pensar”, “ficas uma semana sem consola”, “vais para a cama mais cedo” ou até “um par de palmadas”. Às vezes a cena é rematada com “o eterno ‘porque eu mando’”. Em resumo, descrevem os autores, ameaças e castigos.

Cenas deste tipo terminam muitas vezes também com adultos a berrar. Um drama, portanto. Um cocktail destas reacções automáticas é o que muitos pais entendem como “disciplina”, quando a origem da palavra nada tem a ver com castigar mas sim com “ensinar, aprender, dar instrução”, dizem os autores do livro Disciplina sem Dramas (editado pela Lua de Papel), que esta semana chegou às livrarias.

Reconhece-se nalguma das reacções típicas destes pais? O que os autores nos dizem é que se os seus filhos fazem birras ou têm este tipo de “mau comportamento” não porque são inerentemente “maus”, ou “mal-educados”, ou porque quem os educa são pais incompetentes, mas porque lhes é muito difícil agir de forma diferente, por razões biológicas. O que Daniel J. Siegel, professor de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade da Califórnia, e Tina Payne Bryson, psicoterapeuta de crianças e adolescentes, pretendem explicar no seu livro é que neurociência têm muito a ver com a educação dos filhos.

Vejamos: Uma criança arremessa um brinquedo e atinge outra criança, o pai responde “em que é que estavas a pensar quando fizeste isso?”. Temos uma ideia de como pensaria um adulto equilibrado: saberia, à partida, que não se atiram objectos quando se está frustrado com alguém porque o acto não resolve o problema e até pode agravá-lo, pode até acabar por estragar o seu próprio brinquedo e ainda pode magoar gravemente a outra pessoa, fazendo com que ela tenha de ser hospitalizada em estado grave com um hematoma ou uma fractura, não falando em perigos de sequelas a longo prazo.

O exemplo não está no livro, mas a ideia é que o que passa pela cabeça de uma criança quando atira um brinquedo porque está frustrada não tem nada a ver com o raciocínio de um adulto. Melhor dizendo, tem pouco de raciocínio, porque a parte do cérebro humano onde estão “as competências de pensamento que permitem ao ser humano tomar decisões acertadas” não está desenvolvida, lê-se.

“Tudo isto significa que, embora gostássemos que os nossos filhos se portassem sempre bem, como se fossem adultos, com equilíbrio emocional e moral, a verdade é que isso lhes é impossível enquanto são muito jovens. Pelo menos não lhes é sempre possível”, escrevem os autores.

Estimular “o andar superior”
O que Daniel J. Siegel e Tina Payne Bryson explicam numa linguagem simples é que educação tem tudo a ver com neurociência, ou seja, com a forma como o cérebro humano funciona.

Os autores norte americanos comparam o cérebro de uma criança a uma casa em construção. Existe “a parte inferior do cérebro, constituída pelo tronco cerebral e pela região límbica” – frequentemente designadas como “cérebro reptiliano” ou “primitivo” – assim designado porque é responsável pelas “operações neurais fundamentais: as emoções fortes, instintos como a protecção dos filhos; e as funções básicas como respirar, regular os ciclos de sono e vigília e a digestão”. Este “andar inferior” é a parte responsável pela atitude de uma criança que atira um brinquedo ou morde em alguém, quando não consegue levar a sua avante. É “a fonte da nossa reactividade” e esta é uma parte do cérebro que está bem desenvolvida por altura do nascimento.

Já “a parte superior do cérebro, responsável por processos mais sofisticados e complexos, encontra-se subdesenvolvida por altura do nascimento e começa a desenvolver-se durante a infância”. E é nesta parte que estão “as competências de pensamento, emocionais e relacionais, que permitem ao ser humano tomar decisões acertadas e de planeamento, regular emoções e o corpo, a introspecção, a flexibilidade e a adaptabilidade, a empatia e a moral.”

“Uma criança de quatro anos bate no pai enquanto está à espera. É desejável? Não. É própria nesta fase de desenvolvimento? Absolutamente.”. Seria melhor que “ela se acalmasse e declarasse com compostura: Mãe, estou a sentir-me frustrada por estares a pedir-me para continuar à espera; e neste momento, estou a sentir o impulso fortíssimo e agressivo de te bater – mas optei por não o fazer e, em vez disso, por manifestar-me com palavras”, ironizam.

Quando é que o processo termina? “Lamentamos informar que a parte superior do cérebro só fica totalmente desenvolvida por volta dos 25 anos”.

Okay, então as crianças ainda não são muito boas a fazer escolhas acertadas. Solução? Aceitar passivamente que o seu filho se atire para o chão? Que chame nomes e arremesse brinquedos?

Não, respondem o psiquiatra e a psicoterapeuta. A ideia é mudar de estratégia porque a tradicional, aquela que é familiar e automática para a maioria dos pais, é contraproducente.

“Se perante uma birra monstruosa no supermercado se inclina sobre a criança, de dedo em riste e lhe diz, entre dentes cerrados, ‘acalma-te imediatamente’, está ‘a espicaçar o lagarto’, desencadeando uma reacção na parte inferior do cérebro.” Isto porque a criança assimila na linguagem corporal e nas palavras da mãe uma ameaça que acciona, em termos biológicos, “o circuito neural que lhe permite sobreviver a uma ameaça”. A saber: entra em modo de luta ou de fuga.

O psiquiatra e a psicoterapeuta explicam que não podemos estar, ao mesmo tempo, num estado reactivo e receptivo, e que se a mãe quer apelar à parte do cérebro superior talvez esta não seja a atitude mais correcta. Mais ainda, “os castigos e os sermões são ineficazes quando a criança está perturbada e incapaz de ouvir os ensinamentos que lhes estiver a transmitir.”

A boa notícia é que se é verdade que o cérebro da criança está em construção e o do adolescente em “auto-reformulação”, os pais podem ajudá-los a estimular cada vez mais “a competência interna de acalmar a tormenta e reflectir sobre o que está a passar-se no interior”.

Estratégia possível perante a birra: Descer ao nível dos olhos das crianças, “tentar fazer ligação com ela”, perguntando-lhe algo como “porque é estás assim?”

Mas, atenção, dizem os autores, “fazer ligação não é o mesmo que permissividade. É tentar que ela consiga ficar de novo receptiva a ouvi-lo. E, no processo, fazer com que a criança se sinta compreendida nas suas emoções.” E, durante o processo, pode acabar por perceber o porquê do seu comportamento: “Eu sei que é difícil esperar. Queres muito que vá brincar contigo e estás zangado porque eu estou no computador. Não é verdade?”. “Sim”. É um dos diálogos do livro.

Isso é tudo muito bonito mas…
O facto de o cérebro estar em mudança não é motivo para ignorar os maus comportamentos, é aliás mais uma razão para que os pais imponham limites definidos, defendem. “Porque não têm barreiras internas precisamos de as impor externamente. As crianças precisam de ajuda a compreender o que é permissível e o que não é.”

Depois de conseguir acalmar a tempestade, é tempo de passar a mensagem moral, de explicar o que é correcto e não correcto, o que os autores chamam de “redireccionar”. Explicar-lhe que em vez de bater há alternativas como dizer porque está zangado.

O que os autores preconizam é que estes momentos de crise são oportunidade para estimular “uma bússola moral”, para que, “mesmo quando não esteja presente um adulto, as crianças aprendam a ser ponderadas, saibam gerir as suas reacções à frustração e aprendam a capacidade de se colocarem no lugar do outro.” Daniel J. Siegel e Tina Payne Bryson defendem que é possível ensinar a desenvolver a empatia, introspecção e da compaixão,  base da inteligência emocional e social.

Mas para isso, quando se disciplina, os pais têm de trabalhar para compreender os pontos de vista dos filhos, o seu estádio de desenvolvimento e aquilo que eles são capazes de fazer. Muitos dos castigos são injustos porque se baseiam em expectativas irrealistas sobre a forma como os filhos são capazes de reagir, notam.

Isso é tudo muito bonito mas… “Eu trabalho! Tenho outros filhos! E o jantar para preparar! E aulas de piano, ballet, treinos de futebol e centenas de outras coisas para fazer”. São respostas que estes profissionais de saúde mental ouviram muitas vezes. Dizem-lhes que o seu método é “um luxo” para pessoas com tempo.

“Percebemos tudo isso, pois ambos trabalhamos, os nossos cônjuges trabalham e somos ambos pais empenhados”. Nem sempre se consegue, admitem, e até “um perito em parentalidade perde a cabeça”, confessam.

Tina Payne Bryson, mãe de três filhos e directora de relações parentais no Mindsight Institute, conta aquela vez em que o filho de três anos lhe bateu e ela respondeu como deve ser, de forma afectuosa e compreensiva, “as mãos são para ajudar e amar, não para magoar”. “Ele bateu-me outra vez”. De uma forma talvez um pouco terna disse “Au! Isso magoa a mamã”. À terceira agressão: “Nós não batemos. Se estás zangado precisas de utilizar as tuas palavras”. E ele bateu-lhe outra vez. Aí a especialista em desenvolvimento infantil na Saint Mark’s School mandou-o de castigo para o quarto e ele deu-lhe um pontapé na canela. “E foi então que me mostrou a língua”.

“Em resposta, a parte superior do meu cérebro, racional, empática, responsável, capaz de resolver problemas, foi sequestrada pela parte inferior do meu cérebro, primitiva e reactiva e eu gritei: “Se puseres a língua de fora mais uma vez eu vou arrancá-la da tua boca”.

“Este não foi um bom momento parental”. “O meu filho atirou-se para o chão a chorar. Eu tinha-o assustado e ele só dizia “És uma mamã má!”. Pausa.

“Ajoelhei-me, segurei-o perto de mim e disse que estava arrependida. Deixei-o falar sobre o quanto ele não tinha gostado do que se tinha acabado de passar. Voltámos a contar a história do que se passou para ele tirar sentido da situação e reconfortei-o”. “Acontece à maior parte de nós”. Para disciplinar “sem dramas” é preciso treinar.

Alguns conselhos para evitar “erros de disciplina que até os melhores pais cometem”

Não disciplinar “em piloto automático”
Quando se disciplina “em piloto automático” concentramo-nos tanto nos castigos que estes se tornam o objectivo final. O objectivo da disciplina não é uma consequência ou um castigo, “é ensinarmos os nossos filhos a viver bem no mundo.”

Ir aos porquê
Qualquer médico sabe que “um sintoma é apenas um sinal de que uma outra coisa precisa de ser tratada”, dizem os autores. O comportamento irá repetir-se “se não estabelecermos uma ligação com os sentimentos dos nossos filhos e com as experiências subjectivas que levaram a esse comportamento”. “Concentramo-nos demasiado no comportamento e não o suficiente no porquê por detrás do comportamento”, escrevem.

Disciplina com afecto
Estes dois aspectos da parentalidade podem e devem coexistir. “É possível combinar limites claros e consistentes com uma empatia terna.” Não subestime o poder de um tom de vez gentil, aconselham.

Falar demasiado
Muitas vezes, quando as crianças estão reactivas e têm dificuldades em ouvir, precisamos apenas de estar calados. Quando falamos e falamos estamos a dar-lhes “imensos estímulos sensoriais que podem desregulá-los ainda mais”. Em vez disso, utilizar mais a comunicação não verbal: “abrace-os, sorria”.

Não disciplinar para a audiência
“A maior parte de nós preocupa-se com o que as outras pessoas pensam, especialmente no que toca à forma como educamos os nossos filhos. Chame o seu filho à parte e fale sossegadamente com ele”.

Não presumir o pior
“Não me importa. Não quero ouvir. Não há razão, nem desculpa”. “Antes de condenar uma criança pelo que parece óbvio, descubra o que ela tem para dizer. Então, pode decidir a melhor forma de responder.”

Não disciplinar em resposta a hábitos
“Por vezes atacamos o nosso filho porque estamos cansados, ou porque foi isso que os nossos pais fizeram connosco. É necessário reflectir sobre o nosso comportamento e responder apenas ao que está a ter lugar naquele instante.”

Peritos e instintos
Os autores põem na categoria de “peritos” tanto autores como eles, como amigos e familiares com opiniões sobre como devemos educar os nossos filhos. “É importante que evitemos disciplinar os nossos filhos com base no que as outras pessoas pensam”. “Encha a sua caixa de ferramentas disciplinar com informação de muitos peritos (e não peritos), depois ouça os seus próprios instintos quando for para seleccionar a melhor abordagem à sua família e ao seu filho.”

Catarina Gomes (2015). “E se o seu filho lhe bater ou disparar um dardo para o olho da irmã?”. www.publico.pt/, 2 de outubro.

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