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Alerta, Querem Destruir A Escola Pública!

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…o que se passa nas Escolas portuguesas é uma verdadeira vergonha! Como é do vosso conhecimento, em julho de 2018 saíram dois Decretos de Lei, o 54 e o 55,  referentes à Inclusão e à Flexibilidade Curricular, respetivamente.

E se à primeira vista a essência das nomenclaturas nos podem e devem atrair, o que por trás está deve-nos preocupar e muito!

Tentarei explicar-vos o que se passa com cada um destes Decretos.

Relativamente ao da Inclusão, o DL 54/2018, que veio substituir o já “velhinho” 3/2008, chamo a vossa atenção para a pirâmide seguinte:

Percebemos desde já que o facto das medidas  serem apresentadas em pirâmide não é por acaso, tem um intenção clara de mostrar que a dificuldade vai diminuindo consoante as dificuldades.

E, atenção, não escrevi esta frase ingenuamente, “a dificuldade vai diminuindo consoante as dificuldades” e se isto descontextualizado até pode parecer bonito, contextualizado é pernicioso que assim seja, além de ser uma tremenda injustiça para os que trabalham.

Passo a explicar, hoje qualquer aluno, ao abrigo deste DL, pode ver-lhe aplicadas as chamadas Medidas Universais e com elas “usufruir” de tudo o que nelas estão inscritas, ou seja, à mínima dificuldade, o professor, deve colocar um ou todos a “usufruírem”.

Até parece justo, não é? Sim, mas ao fazerem isso estão a dar um claro sinal de que as dificuldades superam-se, não com mais trabalho, mas sim com a adaptação do mundo a cada um de nós!

Não acredito que a escola tenha de passar esta mensagem porque ela, por si só, é errada para quem quer que seja, mas sobretudo para as crianças, porque pela vida fora não creio que alguém lhes aplique as as Medidas Universais, seja na universidade, no seu emprego e até mesmo na suas relações…

Mas esperem, não acabou, quando as Universais não chegam, há ainda as Seletivas e por fim temos as Adicionais, que não são mais do que graus diminutivos, no que respeita à dificuldade, das primeiras.

Acho que concordamos todos com o abandono de algumas nomenclaturas que pudessem excluir, tais como  Necessidades Educativas Especiais, Medidas de Apoio para alunos com NEE, mas  daí a passarmos para o total facilitismo parece-me um passo perigoso!

Se não, reparemos, um aluno neste momento transita ou é aprovado sempre, pois caso não o seja, o professor serrá colocado em causa pois devia ter implementado todas as medidas necessárias para que o sucesso fosse alcançado, ou seja, o único que será posto em causa é o professor que não soube “adaptar o mundo” aquela criança, nem sequer se questiona se o aluno é aplicado ou não! E isto é grave por duas razões:

  1. A mensagem que se dá às crianças/jovens é de que faça ele o que fizer, alcançará a escolaridade obrigatória.
  2. A mensagem que se passa aos demais é de que o esforço não compensa, pois o resultado no fim é igual.

Percebo a ideia, idílica, de taxa de retenção zero, abandono zero e mais uns tantos gráficos reveladores da maravilhosa política educativa ao partido que nos governa, mas a realidade é bem diferente das formações carregadas de PPT´s ilustrados!

A realidade é que se está a seguir um caminho de onde será bem difícil sair, os alunos podem tudo, não trabalhar, não fazer, não se esforçarem, apresentarem níveis de indisciplina altíssimos, mas no final uma coisa é certa, passarão, passarão porque dão imenso jeito que apareçam em forma de números no futuro Power Point, dando indicações do enorme sucesso da medida!

E isto é grave, porque os alunos de hoje, que serão os adultos amanhã, não perceberão como reagir a uma adversidade na própria vida! Esperarão que alguém lhes sejam aplicadas ao longo da vida  as Medidas Universais, Seletivas ou Adicionais!

É isso que quer para o seu filho?

Flexibilização

Relativamente ao DL 55/2018, que diz respeito à Flexibilização Curricular quero apontar aqui os prós e os contras e explicar porque é que não funciona!

Não funciona porque a partir do momento que os entraves estruturais são tantos, deixa de ser exequível tornar o ensino mais cooperativo ao nível da docência e o mais individualizado possível ao nível dos alunos.

E de que entraves falo?

  • Indisciplina;
  • tamanho das turmas;
  • falta de condições ao nível das infraestruturas que impossibilitam um ensino que seja diferente do tradicional;
  • aulas maioritariamente expositivas;
  • por falta de tempo que os professores têm para trabalharem em articulação.

Referindo-me a uma realidade europeia, que não a habitual Finlândia, na Itália, os professores dão aulas apenas da parte da manhã, tendo, no horário tempo para trabalharem na escola em articulação com os colegas.

Não funciona porque o Sistema Educativo está ainda muito dependente dos exames, são os exames que validam ou não as competências, e isso faz com que a flexibilidade seja muito limitada, pois qualquer aluno terá de passar por exames nacionais que não preveem a flexibilidade e se o fizerem, fa-lo-ão considerando os mínimos olímpicos, ou seja baixando a fasquia!

A ideia é boa e poderia funcionar porque de facto devemos fazer alguma coisa para “mudar” a escola, desconstruir preconceitos, acreditar que é possível chegar a mais alunos, adaptando, com maior assertividade curricular.

No entanto, as escolas, infraestruturas, professores, alunos, comunidade, neste momento, não estão preparadas nem fisicamente nem psicologicamente para levar avante uma ideia que na sua essência é positiva, não disse, propositadamente, boa ou má devido à subjetividade destes dois conceitos!

Os professores estão desgastados, desmotivados e perante isto a tarefa torna-se impossível.

A flexibilização não pode ser decretada, deve ser trabalhada, de dentro das escolas para fora destas, tendo em conta cada uma das comunidades e seus discentes, as suas necessidades, respeitando o meio e ajustando ao perfil dos alunos.

Os alunos devem fazer parte da equação dando de si esforço, dedicação e até espírito de sacrifício, pois isso será fundamental para o sucesso de qualquer medida que se queira implementar nas escolas!

Mas, atenção que, antes de qualquer mudança que possam querer implementar, têm de devolver o clima de passividade às escolas, atacando seriamente o problema de cancro de que a escola pública padece, a indisciplina!

Sem disciplina, sem respeito e sem relação pedagógica saudável, o processo de ensino-aprendizagem não acontece!

Não vale a pena pensar em mais nada sem tratar deste mal!

Alberto Veronesi

 

11 COMMENTS

  1. Nada disto é por acaso… Esta ideia de imbecilização em curso varre todos os países da OCDE… Há uma longa mão que quer que as coisas caminhem para um mundo de otários, fazendo de conta que os estão a libertar das amarras opressivas da escola anacrónica… Não há seres livres sem conhecimento, nem esforço para o obter… Douto modo é formar imbecis, amarrados a necessidades tecnológicas, para servirem quem manda no Mundo!

    • Penso que, como está a ser normativamente implementada (apesar das garantias de autonomias), a “Flexibilização” é, ela própria, um entrave.

      Perdidos em labirintos de terminologias e eufemismos linguísticos, os professores são “mandados” operacionalizar a coisa e , às tantas, e no meu caso muito pessoal, pergunto-me: mas afinal o que querem que ensine?

      • Pelo que entendo, há então, um problema na forma de comunicar esta Flexibilidade, não? Por parte “dos políticos”. Ou seja, no papel, até há questões interessantes, mas eles comunicam mal…por exemplo, impondo por decreto. É por aqui?

        • Não são os políticos. Os políticos aproveitam-se. É moderno e mais sustentável economicamente.
          As questões interessantes estão a montante. A questão da Flexibilidade Curricular é como construir um edifício com más bases que o sustentem e o façam funcionar.
          Por consequência, também não se trata de má comunicação.
          A existir uma grande falha na comunicação ela refere-se à falta de uma monitorização séria dos resultados das escolas que entraram como piloto nesta experiência.
          O que resulta?
          O que não resulta?
          O que é preciso melhorar?
          E as respostas que tenho lido são muito politicamente correctas- é tudo muito fazível, com bons resultados. Depois lê-se e ouve-se aquela adversativa em surdina…. é que quase ninguém tem muito apreço pelo Velho do Restelo (apesar da sua personalidade ter vindo a ser reabilitada).
          Sempre gostei do Velho do Restelo. Exemplifica um contraditório muito mal tratado.

          • Entendo. E que reflexão profunda a sua. Nota-se que pensa sobre o tema. E bem. E falando assim do geral…de soluções para que na escola todos (quase todos? Sem serem “sempre os mesmos”?) possam ter as mesmas hipóteses de sucesso…para enfrentar a indisciplina…se não é uma Flexibilização, o que será? Essa monitorização pode ter falhas…mas tudo como está, será o caminho. Eu nunca gostei do Velho do Restelo. Mas entendo porque falou nele. Quer dizer que nas escolas onde a Flexibilização não corre bem, poucos se querem chegar à frente e assumir, não é? Mas temos ou não temos que educar de formas diferentes, perante as mudanças do mundo? E que bases seriam necessárias para essa Flexibilização? Bases na capacidade de cada pessoa na escola entender que deve evoluir? As escolas terem verdadeira autonomia?

  2. Bom tarde Alberto,
    “E que bases seriam necessárias para essa Flexibilização?”

    Na minha opinião, e como já referi no comentário anterior, há questões interessantes que estão a montante que têm de ser consideradas para que uma reforma/reestruturação possa ter os efeitos pretendidos para todos e a educação é demasiadamente séria para se andar aos remendos.

    A disciplina, as aprendizagens, a diferenciação e a inclusão não são favorecidas com as escolas a funcionarem em Mega Agrupamentos.
    O nº de alunos por turma também não favorece.
    A organização do calendário escolar é uma outra questão.
    Os papéis e as evidências requisitadas tornam-se uma entropia à qual é dada maior importância do que ao ensino e aprendizagem propriamente ditos. Faz-se e desfaz-se de 4 em 4 anos e nos intervalos destes períodos . Não é uma evolução. É uma involução constante.
    Os documentos orientadores das escolas não tiveram tempo de ser alterados e continuam em vigor, entrando em contra-mão com o que se pretende.
    A manutenção de aulas de 90 m em tantas escolas, especialmente no 2º ciclo, é anacrónica e vai contra todas as indicações sobre o desenvolvimento de jovens.
    As condições para uso das TIC são insuficientes e o material vai-se deteriorando.
    A autonomia das escolas parece-me, em grande parte, uma miragem.
    A gestão escolar fecha-se sobre si própria, torna-se normativa, é apoiada por alguns pequenos lobbies – os Yes men – e a falta de comunicação é gritante nesta engrenagem gigantesca a que já me referi.
    Finalmente, a Flexibilização Curricular não vem só. Traz a tiracolo toda uma série de ideias pedagógicas mais velhas do que o Velho do Restelo e já implementadas nos idos anos 80 – o aprender a aprender, o trabalho de projecto, o funcionamento grupal, a aula centrada no aluno, a negociação constante, as grelhas e mais os relatórios e mais as evidências….e mais as aulas expositivas.
    Enfim, já me perdi neste emaranhado.
    E eu que gosto de fazer tudo isto e de evoluir, chego à conclusão que sou uma professora do séc XIX , inícios do séc XX, tal como os experts, comentadores de tudo- e mais alguma coisa- e pessoal de gabinetes afirmam que sou.
    Mas se há gente com responsabilidades que ficou parada no tempo, nas suas aulas expositivas e nos seus “liceus” não são os professores de hoje na sua grande maioria. Os primeiros parecem ter redescoberto a roda; os segundos já estão a caminho do teletransporte.

    A propósito, quantos tiveram o privilégio das “aulas expositivas” com o professor Rómulo de Carvalho a FQ, no liceu Pedro Nunes? Ou com o professor Lindley Cintra sobre Língua e linguística na Fac de Letras?

    • Rómulo de Carvalho…génio. Não? Esses reconfiguram a noção de “aulas expositivas”. Quantos há hoje com essa profundidade? E cultura? E génio? Nem falo no tipo de alunos que o Pedro Nunes teria na altura. Eram diferentes. Talvez, no geral, mais “escolhidos”. Não? Muito obrigado pelo seu feedback. Aprendo muito com ele, vou reler com atenção tudo o que diz. Obrigado. Os Mega-Agrupamentos, do que sinto, não são interessantes, relembre. Concordo em absoluto. Aulas de 90 minutos…uso o que aprendi consigo…sejam, cada vez mais professores “Rómulos de Carvalho”…ao seu estilo, claro. Não é para fazer em 90 o mesmo que em 45. É fazer diferente. Um debate, uma conversa, trabalho de equipa, apresentações,…isto não é realista? Como o carro. Lembra-se? O Mini. Mini, não é um carro pequeno. É um carro que tem tudo, no menor espaço possível. Não é só diminuir as peças. Uma aula de 90 minutos, não é alargar uma aula mais pequena. Tenho a certeza (quase…) de que é uma professora do século XXI…sabe porquê? Porque demonstra uma grande capacidade de reflexão. Crítica, sem fundamentalismos. Gosto de ler as suas palavras. Sente que essa é a postura (reflexão séria) da grande maioria dos que estão contra? Não sente que há caminho para melhorarmos, por exemplo sendo mais capazes de estudar os documentos (os originais), pensar pela própria cabeça e tentarmos ser menos burocráticos ? Fico preocupado com as crianças. Com os jovens. Se não há entendimento, se de 4 em 4 tudo muda…fico preocupado. Espero que o professor consiga cuidar de si, não perder o gosto em ser quem é, espero que os docentes no geral continuem a ser o farol do mundo. Era mais fácil quando éramos crianças. Quando mal tratavam um amigo, eu dizia: diz-me quem é que eu vou lá! Obrigado Ana. E eu chamo-me Alfredo. Não sou Alberto. Obrigado. 😉

      • Alfredo,
        “Não é para fazer em 90 o mesmo que em 45. É fazer diferente.”

        Mesmo assim, é muito difícil jovens alunos do 2º ciclo (e até do 7º ano, no 3º ciclo) estarem numa sala durante 90m por muito diversificada que a aula seja. E essa permanente diversificação não é exequível nem para alunos nem para professores. E depois, há os “constrangimentos ” dos regulamentos internos das escolas que insistem em que os alunos têm de estar nas salas de aula. Se algum é visto no corredor para ir buscar algo e se o sr director aparece…..ai Jazuzzz que o professor não pode dar esta permissão. Os corredores têm de estar vazios. Os alunos nas salas. Tudo como manda a lei. E com alunos do secundário passa-se o mesmo. O que é muito contraditório em relação a tudo o que tenho tentado descrever.
        Sou favorável às aulas de 50m, como há tempos idos. À excepção, talvez, dos alunos do secundário.
        Nota: Vai desculpar-me, mas não me sinto “farol” para ninguém nem quero. Ensino e aprendo e tento promover a curiosidade, o espírito crítico e mais algumas “ferramentas” que considero importantes para os alunos.

        Cumprimentos e boa noite.

        • Obrigado . E, escolhi a palavra “farol”, mesmo não tendo sendo uma escolha feliz, mas o que queria dizer era isso: cada vez mais professores a ensinar e aprender, a promover a curiosidade…obrigado! Boa noite.

  3. Com o devido respeito, e porque acho-o muito pertinente, trancrevo, do Blogue ” De Rerum Natura”. assinado por Isaltina Martins (http://dererummundi.blogspot.com/)

    ”O filósofo francês Gilles Lipovetsky, no seu mais recente ensaio publicado em Portugal, Agradar e Tocar — Ensaio sobre a Sociedade da Sedução, 2019, Lisboa, Edições 70, apresenta-nos mais uma extraordinária análise da sociedade contemporânea.

    Neste ensaio, Lipovetsky analisa o poder da sedução, nos mais diferentes domínios, a sua presença ao longo da história da humanidade, mostrando que “agradar e tocar” é um princípio que se aplica a tudo e a todos:
    “aplica-se aos homens, às mulheres, aos consumidores, bem como aos políticos e até aos pais; é “a lei e os profetas” dos tempos hipermodernos”, alertando para os perigos que daí advêm, pois “a sociedade da sedução, tal como hoje funciona, não é um modelo sustentável nem um futuro desejável”, lembrando que é preciso “uma sociedade da sedução de alguma forma aumentada ou enriquecida, que, dando todas as oportunidades à cultura, ao saber, à criatividade, proponha às gerações futuras atrações diferentes das do cosmos comercial.” (in Introdução)
    No capítulo dedicado à sedução na educação, o filósofo analisa as várias “modas” em matéria de educação e ensino, desde a atitude dos pais perante os filhos às pedagogias nos estabelecimentos escolares. Fazendo uma análise do ensino ao longo do século XX, debruça-se sobre as correntes da Escola Nova e o seu ideal de espontaneidade da criança, que deve aprender por si, ao seu ritmo, segundo as suas apetências, sempre de forma lúdica e atractiva. Dando toda a liberdade à criança na construção do seu saber, nada impondo, a nada obrigando, numa inteira liberdade de escolha, estas pedagogias contribuíram para o fracasso na aquisição de conhecimentos e foram alvo das mais violentas críticas, principalmente por parte daqueles que defendiam o regresso à escola “tradicional”:
    “O fracasso das pedagogias modernas… é flagrante, pois não permitem nem a aquisição de competências escolares elementares nem a redução das desigualdades sociais e da influência do meio de origem sobre os alunos.” p. 347
    Acrescentado o autor:
    “Fomos demasiado longe na eliminação dos métodos tradicionais de transmissão que são necessários para a aprendizagem da leitura e da escrita, para adquirir os mecanismos necessários ao bom exercício do pensamento. No entanto, isto não significa os apelos ao regresso da escola de outrora.” p. 347-348
    Não é preciso regressar à escola de antigamente, mas saber conciliar os dois modelos, não rejeitar o que de bom existia, mas adaptar. A educação pela sedução, na ideia de que tudo tem de ser fácil e atractivo, de que a aprendizagem tem de ser feita a um ritmo agradável, eliminando todos os exercícios enfadonhos que afastam a criança do gosto de ir à escola, só conduz a maiores desigualdades sociais e a um desfasamento entre a escola e a sociedade:
    “A aquisição dos saberes abstratos e cultivados exige necessariamente esforços perseverantes, disciplina intelectual, repetição, exercícios geralmente fastidiosos. Mas nem tudo deve ser lúdico e atrativo: o trabalho difícil, metódico e organizado dos alunos é necessário para transmitir o património dos saberes e desenvolver as capacidades de inteleção de todos.” p. 349
    Depois das críticas a estas pedagogias da Escola Nova, outras “modernidades” surgiram, nos tempos mais actuais:
    “ uma nova magia apoderou-se da época: a do complexo digital-educativo.”
    Assistimos agora ao deslumbramento pelas tecnologias, apresentadas como uma solução maravilhosa para todos os problemas do ensino, como uma nova “máquina” de sedução que dará a todos as mesmas oportunidades, que irá cativar os alunos para o gosto de aprender, que tornará a escola um local “apetecível” onde crianças e jovens gostam de estar, onde se sentem felizes. E assim:
    “Ao peso da aquisição tradicional dos saberes, sucede uma aprendizagem “informal”, fragmentada e descontínua, que permite menos submissão ao discurso do mestre, mais interatividade e autonomia dos alunos que se tornam assim “agentes das suas próprias aprendizagens”. É a utopia da “sociedade descolarizada” já imaginada por Ivan Illich, revitalizada, reerguida, possibilitada pelos milagres da informação em rede.” p. 351
    Mais uma vez o autor alerta para os perigos deste exagero:
    “… não podemos abandonar a escola clássica, a única capaz de fornecer os conhecimentos básicos para saber ler, escrever, contar, exprimir-se corretamente, argumentar, expor com correção e rigor as ideias. Não enterremos demasiado depressa as práticas metódicas de aprendizagem, que, baseadas na repetição, na memorização, na transmissão das referências fundamentais, são tão indispensáveis como o eram no passado. A liberdade do espírito e a formação das mentes “bem feitas” exigem a perpetuação de alguns métodos clássicos “estritos”, mais necessários que nunca numa época de excrescência dos dados e de dispersão ”googlizada”. É ilusório pensar que as navegações na Internet estão à altura desta exigência e que são capazes de assegurar a aprendizagem do rigor intelectual, bem como o domínio das normas da expressão oral e escrita.” p. 354
    Em tudo podemos ver como o excesso é prejudicial. Cortar de vez com o passado, na ideia de que tudo estava mal e que queremos, no presente, apresentar ideias novas, mais consentâneas com a actualidade, só pode gerar novas discrepâncias, fazer das novas gerações “cobaias” de experiências que nunca são avaliadas para delas se separar o melhor do pior.

    Na educação, como em tudo, é preciso prudência na introdução de novos paradigmas, é preciso explicitar o que queremos e não “alinhar” em modas que, como a própria palavra indica, são passageiras. Essencialmente, é necessário aplicar aquela máxima dos sábios gregos μηδὲν ἄγαν, quer dizer “nada em excesso”, princípio que, aqui, é extremamente importante.”

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