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Ainda a Cristina Ferreira, os trabalhos de casa e a indisciplina.

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A apresentadora Cristina Ferreira foi duramente criticada nos últimos dias, por ter feito, no âmbito de uma entrevista, comentários considerados levianos e inconsequentes em relação aos trabalhos de casa do seu filho. Declarou então publicamente que não obrigava a criança a fazer os trabalhos de casa e que apresentava à professora razões por si inventadas para justificar o incumprimento.

Alguns saíram logo em sua defesa, que também eles não viam pertinência nessas tarefas, parecendo-lhes ver nas palavras de Cristina Ferreira um problema que lá não estava: se bem repararmos, em momento algum ela refere ser contra ou a favor dos trabalhos de casa. O que diz a apresentadora, tão-somente, é que às vezes o filho não tem vontade de os fazer – e ela não o obriga.

E se achamos que se expressou de forma desabrida e frívola, tendo em conta a sua condição de figura pública com acrescida responsabilidade mediática, esse é o menor dos males. Mais não fez Cristina Ferreira do que beliscar a sua imagem de cidadã e mãe e criar eventuais constrangimentos na relação pessoal e institucional com a professora do seu filho.

O que me parece preocupante nesta situação – muito mais do que a forma despropositada que a apresentadora utilizou para manifestar a sua indisponibilidade para acompanhar as tarefas escolares do filho – é dar-se o caso de tantas pessoas, por via de um quotidiano extenuante, a abarrotar de compromissos exigentes (e lamentavelmente sem a equivalente compensação financeira), se reverem nas palavras de Cristina Ferreira.

Quantos pais não chegam a casa exauridos e assoberbados com a vida profissional e se vêem ainda perante um sem-fim de tarefas inadiáveis que muito pouco tempo concedem à atenção familiar?

Quantos pais não disseram já – ou tiveram muita, muita vontade de dizer – num final de dia infernal “então não faças, quero lá saber!”, sentindo na pele a frustração e o ónus da má parentalidade?

Quantos pais não caem na tentação de “atalhar” na resolução de problemas educativos e tensões familiares quotidianas com “pequenas e inofensivas” mentiras?

Afinal, não vem grande mal ao mundo, infere-se das palavras de Cristina Ferreira, se afiançarmos ao professor que a criança não pôde realizar as suas tarefas, quando – efectivamente – apenas não lhe apeteceu.

“O que é importante”, oiço tantos pais dizerem diariamente, “é exigir respeito, é ensinar os miúdos a respeitar o professor, que eu, faltas de respeito, não admito!”

Sim senhor, o respeito é fundamental, estamos todos de acordo. Mas também não é assim tãããooo importante que não possa permitir uma mentirinha aqui e ali. E se podemos fazer uma trafulhicezinha quanto aos trabalhos de casa e isso não interfere no respeito que é suposto termos, umas brincadeirazitas com o colega do lado também não devem fazer mal. E recusar fazer uma tarefa na sala de aula também não é nenhum crime. Optar por dizer umas graçolas em vez de prestar atenção, ou remorder umas respostas tortas quando a professora nos insta a fazer o que não nos apetece também não há-de ser “morte de homem”. E se indevidamente estragamos algo que não nos pertence, não deve igualmente haver problema em fingir que não fomos nós. Afinal, é só mais uma mentirinha inofensiva, como as que a mãe inventa para justificar a ausência dos trabalhos de casa.

Depois, quando estudos nos provam que a pequena indisciplina aumenta paulatinamente nas escolas, pasmamo-nos, de olhos escancarados de surpresa, e desconfiamos que a raiz do problema só pode estar nos métodos obsoletos de ensino e na natureza anacrónica do sistema escolar.

MC

Professora e autora do blogue Estendal

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5 COMENTÁRIOS

  1. Nem mais! O problema reside exatamente aí! “Pequena falta de respeito aqui pequena ali” e lá caminhamos paulatinamente para a “pequena” indisciplina quotidiana… Já agora, e tendo por base este cenário, quanto tempo levará a interiorizar e a aplicar as “novas competências para o século XXI” que se pretendem humanistas?

  2. Como já havia dito no comentário ao anteriormente postado sobre esta entrevista, os pais, todos nós pais, devíamos bater-nos com unhas e dentes pelo direito de usufruir mais tempo com os nossos parentes, filhos, pais, maridos, esposas, namorados… e não andar aí numa luta de classes desgarrada que não leva a lado nenhum! O tempo é dinheiro… para quem recebe… para quem trabalha… para quem paga…? Devia ser para todos e dividido por todos… Só o trabalho e o dinheiro não podem, nem devem resumir o mundo e/ou o homem! Perceber isso é sinal de inteligência e maturidade, coisas, ambas, pouco frequentes na senhora em questão!

  3. Pessoalmente, sou contra os TPCs. Sou professora e muito raramente mando TPCs. Apenas em casos em que não acabamos as tarefas na aula e peço, então, para as terminarem em casa, mas sempre muito poucos exercícios. Nunca avalio os alunos pelos TPCs que fazem, como muitos dos meu colegas! Também sou mãe. A minha filha tem outras atividades (no caso, treina Taekwondo e faz teatro), além de explicações de FQ (está no 11.º e tem dificuldades nesta disciplina, ainda por cima é um ano de exame), tem dois gatos e tem família e tem… que descansar! Levanta-se tds os dias às 7:15! Quando não faz os TPCs, diz a verdade, ela própria (agora que está no secundário), ou seja, que foi por falta de tempo, por cansaço também… Até ao 9.º ano, foram algumas as vezes em que escrevi um recado na caderneta a justificar a não realização dos TPCs: ‘Não teve tempo de fazer todos, pois considero 2 páginas em excesso, quando tem outros de outras disciplinas’, ‘Não fez, pois esteve em família a conversar e a relaxar, que também é necessário, pois passa o dia na escola e nós não estamos com ela durante horas’, ‘Não fez, pois teve treinos de Taekwondo e, quando terminou os treinos, o jantar, o banho, já eram perto de 23 h, logo achei mais produtivo descansar’… Estes são exemplos do que já escrevi! São verdades, não invento! Considero que é importante o aluno consolidar as matérias, mas deve fazê-lo por iniciativa própria, sempre que possa, não por obrigação, devendo-lhe ser desde sempre incutida a importância em desbravar caminhos… muitas vezes, sozinho, pois na vida estamos sempre sozinhos, na realidade! Quanto à apresentadora em questão, abstenho-me de comentar sobre esta pessoinha que de inteligência deixa muito a desejar, mas não posso detalhar grande coisa, até por que não a oiço que ela é impossível de se ouvir, na sua voz estridente e no seu jeito histérico de ser…

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