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Agenda, greve… educação! | Filinto Lima, Presidente da ANDAEP

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De há uns anos a esta parte, por altura do final de ano letivo, a educação habituou-se a sofrer ataques insidiosos, seja por declarações menos felizes, algumas ameaças veladas ou ainda por afirmações/imputações levianas escritas em artigos de opinião… mais parecendo tratar-se de uma agenda (oculta?) – uma espécie de guião predefinido -, que tem por alvo a escola pública e alguns dos seus principais intervenientes. Num ano relativamente calmo na área da educação, é com surpresa que se assiste a cenas escusadas.

É por quase todos reconhecido o desgaste desmesurado imputado à profissão de docente do ensino não Superior, sustentado no número anormal de baixas médicas por depressão destes profissionais (principais vítimas do famigerado burnout), nos comentários de diversas pessoas (“Eu nunca seria professor nos dias de hoje!”; “Os alunos não acatam as indicações dos professores!”), nas referências menos abonatórias de alguns pais e encarregados de educação que desvalorizam a escola e/ou não sabem educar os seus filhos… Mas também pelo trabalho cada vez mais burocrático realizado pelos professores, pelo número ainda elevado de alunos por turma, pela indistinção de componente letiva (CL) e componente não letiva (CNL), pela necessidade de reorganização do horário de trabalho, pela ausência de incentivos…, só para enumerar algumas das inúmeras preocupações sentidas, cada vez mais uma constante no dia a dia do ser professor.

Entendo bem o quanto custa aceitar uma greve em dia de exames; tento perceber os motivos que levam os sindicatos a convocá-la para essa data; procuro explicação para o recurso aos serviços mínimos… Contudo, não aceito misturar este facto com a questão de fundo – dignificação da profissão docente -, nem com a apresentação da solução esfarrapada de alterar o dia dos exames; se assim é, porque não convocaram a greve para outro data? Ou quererão dar solução a uma situação anunciada pelos próprios? Aliás, seria quase impossível a aludida remarcação em relação à prova de aferição de Matemática e Estudo do Meio do 2.º ano. Estranho!

Querendo quase tudo, é minha opinião que as entidades defensoras e representativas de professores correm o risco de conquistar quase nada.

Por um lado, o descongelamento das progressões na carreira para janeiro de 2018 (uma das reivindicações para esta greve) é justa exigência de toda a Função Pública, e não só da classe docente, tendo mais a ver com o Ministério das Finanças. Quem quer escrever direito por linhas tortas?

Por outro lado, e se fosse reconhecido o desgaste anormal causado pela profissão, a reforma aos 60 anos, com 36 de serviço (outra das principais reivindicações) seria, também, uma medida acertada e justa, para quem ensina, educa e exerce um manancial de atividades/funções que vão muito além daquelas legalmente atribuídas. Não sendo reconhecido um Estatuto Especial de Aposentações, a luta sindical deve rumar a outros objetivos: porque não lutam pela definição/distinção, inequívoca, entre CL e CNL? Porque não lutam pela diminuição da CL a partir dos 40 anos, retirada pelo XVII Governo Constitucional? Porque não defendem a redução mínima ou ausência da atribuição da totalidade de CL a partir dos 60 anos e até à reforma, aproveitando-a para o desempenho de outras tarefas? Porque não insistem na necessidade de rejuvenescimento do corpo docente?

Não obstante, prenuncio a desmarcação da greve agendada… não necessitando o Ministério da Educação de pôr em prática a benesse conquistada pelo XIX Governo Constitucional (recurso aos serviços mínimos), que esvaziaria e perturbaria a luta sindical, escapando os sindicatos ao previsível desgosto.

E, já agora, se neste artigo não escrevi uma palavra que seja referente aos alunos, é porque, em plena consciência, desejo transmitir aos pais e encarregados de educação que as aprendizagens dos seus educandos estão salvaguardadas pelo profissionalismo e espírito de resiliência, como é apanágio dos excelentes professores existentes nas escolas. É certo!

Filinto Lima Professor/Diretor


Publicado no JN em 20/6/2017, negritos de minha autoria.

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  1. Subscrevo inteiramente: “De há uns anos a esta parte, por altura do final de ano letivo, a educação habituou-se a sofrer ataques insidiosos, seja por declarações menos felizes, algumas ameaças veladas ou ainda por afirmações/imputações levianas escritas em artigos de opinião… “.
    Comentadores, cronistas, pais… revelam, frequentemente, um ressentimento grosseiro contra a classe docente. Não sabem nada sobre as nossas más condições de trabalho mas, em sua opinião, nós somos “essa gente que não faz nada”, como proferiu uma vez um senhor jornalista do “jet set”. Há ódio, maldade e perversão em certas palavras. Porquê? Este clima de ataque serve os intuitos de quem?
    Quanto ao “desgaste desmesurado”, o “burnout” e o sofrimento de quem se sente esmagado, há um silêncio ensurdecedor em torno desta questão porque o que interessa é continuar a atirar o problema para baixo do tapete e fazer de conta que não se passa nada … Quem sabe se, um destes dias, a realidade, tal como os fogos, lhes cai em cima?

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