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“Achava eu, que usar os TPC como castigo era apenas uma memória”

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tpc_Venho assistindo passivamente à polémica entre defensores e opositores dos TPC. A opinião que tenho já se consolidou há muito, não com qualquer estudo investigativo ou inquisitório, mas com a prática diária, com a reflexão e a mudança, enquanto profissional do ensino e como mãe.

Mas há dias, assistindo a um programa televisivo, o copo transbordou. Ouvi falar de práticas que me deixaram num desconforto. Peguei no telefone, larguei-o inúmeras vezes. Não haver contraditório, ouvir apenas pais e avós, impossibilitou que emitisse uma opinião pública.

Achava eu, que usar os TPC como castigo era apenas uma memória. De facto, trabalhei, durante os anos 80, com um colega que usava como estratégia para evitar ou corrigir os erros ortográficos e de acentuação, a repetição das palavras. Então, consoante o seu juízo da gravidade do erro, mandava repetir a palavra ‘H’ 50 vezes, a palavra ‘Y’, 200 vezes, a palavra ‘Z’, 1000 vezes… As crianças juntavam milhares de palavras para escrever de um dia para o outro. E, naquela época, e porque o professor fora padre e havia um particular respeito(medo?) num meio rural culturalmente empobrecido, a “coisa” fazia-se. Com muita batota, que depois me descreviam os miúdos, entre pedidos de silêncio e cumplicidade.

Com espanto e uma certa angústia, ouvi relatar que “…a professora diz que se ela não fizer os trabalhos de casa, tem negativa/chumba o ano…” Como e por que motivo, estes pais não conhecem os “CRITÉRIOS DE AVALIAÇÃO” usados para atribuir as notas aos filhos? Não os matricularam? Não assinaram uma “Declaração de Aceitação do Regulamento Interno,” no ato de matrícula?

O próprio aluno, no seu Estatuto, viu consagrado esse direito à informação:
“… Ser informado sobre o regulamento interno da escola e, por meios a definir por esta e em termos adequados à sua idade e ao ano frequentado, sobre todos os assuntos que justificadamente sejam do seu interesse… … … … e os processos e critérios de avaliação… … “  Não me venham cá julgar os senhores professores e atribuir o epíteto habitual de “má colega” por divulgar aquilo que são , como costumo dizer, as regras do jogo!!

Não se podem exigir deveres, sem assegurar direitos. Habitualmente, os Critérios de Avaliação dividem-se em dois domínios: Capacidades e Conhecimentos (80%) e Atitudes e Valores (20%). A realização dos TPC, valerá no máximo, uns 2% da nota de final de Período.

Sem querer criticar ninguém- exatamente por não ouvir a “outra parte”, não participei no programa- tomo a liberdade de enunciar aqui as regras que tenho seguido na atribuição de TPC (2.º e 1.º Ciclos, nos quais lecionei):

1.ª   Os trabalhos de casa não são obrigatórios, sendo realizados ou não, conforme o entendimento dos encarregados de educação; como professora, limito-me a colocar uma “avaliação” positiva para quem realizou a tarefa, para minha informação e a escrever uma nota para conhecimento dos Encarregados de Educação- “Não fez TPC”- no próprio local da atividade;

2.ª   Em cada dia, o trabalho incide numa disciplina, e só; na véspera de testes, o trabalho de casa é estudar; as explicações não são aconselhadas por mim, nem rejeitadas, caso a família as entenda necessárias;

3.ª   Nenhum aluno deverá pedir a intervenção dos pais/avós… para realizar as tarefas; excetuam-se a esta regra, as atividades que exijam informação familiar, como por exemplo, exercícios de Estudo do Meio ou “Estatística” em matemática;

4.ª   Os pais não frequentam a Escola; o aluno deve ser autónomo e capaz de realizar os exercícios (lembro aqui o Rui, um menino doce, mas que de vez em quando me dizia, “Professora, não fiz este problema porque o meu pai não sabia”, lá tendo eu que relembrar o problema idêntico, resolvido na sala de aula, e que ele dissera ter compreendido);

5.ª    Um professor que não esteja disponível para corrigir os trabalhos e verificar dúvidas dos alunos, não deverá “passá-los”; as crianças estão exaustas, fartas de estar mais horas nas escolas do que os pais estão no emprego- não esqueçamos que são lá deixadas antes que os pais se dirijam ao trabalho e recolhidas depois;

Por este enunciado se conclui que penso serem essenciais os TPC. Alunos sem tarefas acabam por não estudar, o que torna impossível a conveniente interiorização de conteúdos e a prática de exercícios que só se aprendem através da memorização. Fazer greve aos trabalhos de casa parece-me tão radical e errado como a repetição de milhares de palavras para evitar o erro.

No meu papel de mãe, recusei várias vezes algumas tarefas repetitivas, maçadoras, morosas, em tão pouco tempo, que acaba por ser de “rabugice” porque todos no ambiente familiar estão cansados. A diversão e sobretudo, o sono, são um imperativo na preparação de um novo dia, em que o ritmo se repetirá, desajustado e extenso.

Essencial, mesmo fulcral, é mudar a estrutura organizativa da Escola: a constituição de turmas por ano de escolaridade, a elaboração dos horários, o espartilhamento das disciplinas pelo tempo letivo, no 1.º Ciclo (afinal, qual o objetivo da monodocência?), os conteúdos das Atividades de Enriquecimento Curricular…

São opiniões, como outras, aplicadas com sucesso em determinados contextos, que pretendem apenas suscitar reflexões

Fátima Ventura Brás

3 COMMENTS

  1. Este comentário só podia ser teu… e eu não te conheço pessoalmente… mas é como se te conhecesse! Não podia concordar mais!

  2. Na primeira reunião de EE’s, esclareço sempre o assunto dos TPC’s. A polémica instala-se. Mas rapidamente se resolve.
    Eu até concordo com os que defendem que se mandem TPC’s. Mas, quando aparecem pais a defenderem TPC’s, eu também lhes imponho a minha condição e que é a seguinte: Eu até posso enviar TPC’s para os filhos. Mas, primeiro que tudo, os pais que o desejam, terão de disponibilizar-me o contacto (telefone, email) do seu patrão. É que lhe vou solicitar que lhes enviem Trabalho Para Casa.
    Porém, condescendo e esclareço a minha posição. Se a criança, na escola, brinca e não faz o trabalho, que sejam os pais a obrigá-la a trabalhar. Eles têm recursos para o fazer de que não disponho!
    É claro que os pais sorriem. Mas compreendem que obrigar a fazer trabalhos aos alunos é “arranjar lenha para me queimar… percebem? Para quê fazer os alunos gastar meia hora a fazerem TPC’s quando a mim, me tocará mais de 4 horas a corrigi-los? E ainda por cima para ser criticado??? Nem pensar… Pagam-nos para isso?

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