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Acham os professores caros, experimentem a ignorância!!!

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Este espaço diário devia falar das notícias com relevância sobre educação, mas hoje a referência a notícias do dia vai ser curta.

Porque as notícias em destaque são velhas e não são de hoje.

O meu sentimento do dia também justificava algumas bojardas, como alguns andam a dizer, alegadamente inspirados no passado.

Porque, bem espremida a minha indignação, acho que só vale a pena cansar-vos com a referência a 2 notícias das últimas 24 horas, que merecem ser lidas com detalhe e muito refletidas. E serem tomadas como base para se fazer alguma coisa.

Como não sou profissional das notícias, têm de entender a minha fúria, que resultou da leitura conjugada das duas em causa.

Havia outras mais, a merecer dignidade de destaque equivalente. Por exemplo, a notícia sobre o número alarmante de gravidezes adolescentes que ocorrem no país.

Calculo que algumas das pessoas mais solidárias e ativas no apoio e acompanhamento a essas (e outros jovens) a necessitar de ajuda sejam os seus professores. E não o farão para ser reconhecidos ou ganhar suplementos.

Simplesmente, com a consciência dos deveres morais da profissão, sabem que isso faz parte da missão. Mas, porque acho que os professores não lhes falharão, também acho que não é preciso, hoje, dar aqui destaque a esse tema. Nas escolas ninguém precisa que lhes lembrem o problema: vivem-no. Diria mesmo que, com a proximidade: sofrem-no.

Chamem-se demagogo, populista, chamem-me o que quiserem…

Podem até chamar-me, perante os temas que destaco, oportunista e interesseiro por dinheiro. Essas bocas seriam insultos injustos de quem não vê que esta fúria não é só minha e é só o homem e a sua circunstância.

Devo ser muito burro porque não consigo entender que, quase em simultâneo, tenha de ler uma notícia a dizer que quem trabalha para o Estado não vai recuperar qualquer perspetiva de carreira (vide Público de hoje), depois de mais de 10 anos de congelamento e leia, no mesmo dia, que um ex-deputado escreveu um livro em que refere que alguns deputados, além do seu salário, abonado pela função para que os elegemos, recebem mais uns 100 mil euros/ ano para desempenhar (com pouco trabalho efetivo) funções que resultam da inerência de já serem deputados.

100 mil euros é quase 5 vezes o que o patrão deles me paga anualmente após 22 anos de serviço (que presto mesmo).

5 vezes menos dinheiro para mim, por uma atividade que exige qualificação superior especializada. Mas isso não interessa nada, porque o meu patrão me usa para preencher quilómetros de papel inútil e encher “dossiers” de dados redundantes. (Doutora Leitão Marques, quando se volta para as escolas?).

Para ser insultado e desvalorizado ou ignorado por pais ou alunos (e até, em dias maus, agredido ou sovado).

Para trabalhar dezenas de horas, além do horário, e tratar dos milhentos projetos e projetinhos, concursos e “iniciativas” que tantos desocupados, da sociedade civil e do Estado, descarregam a destempo nas escolas.

Para me adaptar e entender os perfis, metas, reformas, mudanças, revisões, avaliações, supervisões, trabalhos colaborativos, planos de promoção, implementação, mobilização ou monitorização e outras ideias abstrusas de diversa designação que são vertidas em cascata asfixiante da fonte rota da burocracia central.

Para fazer as vezes de assistente social, psicólogo, agente de viagens, secretário administrativo, vigilante, mediador, instrutor de processos disciplinares, faz-tudo (outro nome para diretor de turma) e, depois de tudo isso, fazer aquilo para que me “alistei”: ensinar e educar com foco na docência.

E, não contente com a forma como organiza caoticamente o trabalho, gerindo-me com gente razoavelmente pouco qualificada e pouco apta a gerir melhor, o patrão fez, pelo meio do meu caminho, cortes ao que tinha contratado comigo como salário (quer no que realmente recebo, quer no que já deveria estar a receber, que, se o contrato de carreira, que fiz em 1995, estivesse a ser cumprido, resultaria em mais uns 10 a 15%, uns 150 euros mensais).

E ainda há umas cabecinhas de boys, sem vida laboral prévia e com estudos só residuais, na dita administração educativa e na política (ou trolls cibernéticos ignorantes) que acham que devia estar feliz porque “estou na carreira e tenho estabilidade” e “ganho bem”….

Realmente, os contratados temporários do ME fazem a exata mesma lista de coisas e ganham menos e não sabem se, no dia seguinte, as poderão estar a fazer.

A injustiça é diferente em grau (pior para eles) mas, haver gente em pior caso, não anula a injustiça geral.

Ou será que, por absurdo, não haver prisão perpétua em Portugal, justificaria moralmente que houvesse tortura?

O homem e a sua circunstância neste texto ficariam expostos se mostrasse os recibos de vencimento deste mês e os 1212 euros mensais líquidos (incluindo neles a parte de subsídio de natal que é paga mensalmente).

“Isto” é a fortuna que ganha um professor (qualificado e, neste caso, com 20 anos de docência).

Os que acham que ganhamos muito gostava que fossem dar uma aula de uma hora (e não digo sequer fazer o resto tudo).

Se estivessem disponíveis a receber o custo hora líquido de 8 euros e meio (que é o meu), depois de experimentarem, talvez tivéssemos negócio para troca.

PS: Como veriam, se mostrasse os pdf do recibo do vencimento, ao líquido descontaria ainda mensalmente uma quota sindical de 17,10 euros, que me faz baixar da barreira psicológica dos 1200 euros mensais líquidos.

Dos que recebem esses 17 euros, estou à espera que saiam da clandestinidade e de os ver em ação!!! Mesmo!!! E não jogos florais!!! E não devo ser o único.

1 COMMENT

  1. O Alexandre está zangado (e com muita razão).

    Preparemo-nos (mais uma vez) para a clássica argumentação entre salário/trabalho no público e no privado.

    Nota: Lembro-me de o aconselhar a descansar na “interrupção ” do Natal.

    O Alexandre está no seu 22º ano de trabalho como professor.

    Agora, pense como será estar algures perto dos 40 anos de serviço, como tantos professores estão!

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