Home Escola Ação e reação

Ação e reação

81
0

dominoAs leis da física orientaram o mundo social durante largo período de tempo. Tanto que apesar das mudanças, as ciências sociais continuam a privilegiar o quantitativo, o número, as taxas, os rácios, os indicadores de medida para se afirmarem. Os processos de análise continuam a ter como pressupostos lógicas da física, ação e reação, o cá e o lá, o perto e o longe. Isto é, os processos sociais são vistos e analisados tendo por base uma espécie de maniqueísmo que faz com que sejam vistos como bons ou como maus, com resultados ou sem eles. Quando as dimensões sociais envolvem muitos outros elementos, tão ou mais importantes ou determinantes, que as leis da física.

Ora os tempos que correm (na educação mas não só) mostram que a realidade é mais do que um de dois lados, bom ou mau. Os tempos dão conta de dimensões complexas, plurais, com fatores imbricados uns nos outros. Os tempos (na escola mas não só) são algo entre o confuso, errático, instáveis, imprevisíveis, inconstantes. Sendo, ao mesmo tempo, desafiantes, mobilizadores, questionadores, conservadores. Ou seja, colocam em causa o que aprendemos durante décadas, fazem com que nos questionemos sobre o que fazemos, como fazemos, porque fazemos. Não significa que estejamos mal ou sequer errados, apenas nos obrigam a questionar modos, a perceber sentidos, a compreender implicações (e resultados).

Na escola esta ideia sente-se por via dos desafios e das respostas pedagógicas. Percebemos, com relativa facilidade, que precisamos de outras (novas) respostas para as perguntas de sempre (como enfrentar o desinteresse, a indiferença, o alheamento). Percebemos, com relativa facilidade, da necessidade de partilhar responsabilidades e envolver pais/encarregados de educação, municípios, técnicos, tutela para além dos professores que vão além do professor e do aluno. Damos conta da necessidade de implementar processos multipolares, onde há partilha e responsabilidades e não se procuram nem erros nem culpados. Percebemos as enormes dificuldades, quando não mesmo contradições, entre exigência, rigor, trabalho, empenho, de um lado, e, do outro, resultados escolares, sucesso, escola para todos. Temos de encontrar a rede que permita assegurar algum equilíbrio entre o trabalho individual, o(s) desempenho(s) de sala de aula e a necessidade de se pensarem coletivamente as respostas, de se cruzarem perspectivas e olhares, de nos submetermos ao grupo e ao coletivo.

Temos (nós professores), fruto dos tempos e dos modos, de encarar a nossa dimensão técnica e especializada e definir a nossa ação e não de apenas reagirmos. Deixar de dizer que isso é teoria e refugiamo-nos nessa retórica algo desculpabilizante e marcadamente de inércia. Temos de assumir a nossa ação numa dimensão teórica que permita pôr em prática propostas de trabalho contextualizadas. Assumirmos a ação implica assumir o cruzamento entre autonomia pessoal e profissional e a responsabilidade da decisão debatida, participada, colaborativa.

Os tempos não estão para reações (habitualmente emotivas, tardias, extemporâneas). Os tempos impõem que os professores definam a sua ação, apontem caminhos, definam processos. Precisamos de ação e não de reação. A educação tem de ser farol nos tempos que correm.

Manuel Dinis P. Cabeça

coisas das aulas

21 de novembro, 2016

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here