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Acabar Com Os Chumbos Até Ao 9º Ano? Primeiro Estranha-se, Depois Entranha-se – Raquel Lourenço

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Seguiu-se uma tempestade de ideias: «Agora, sem terem nada a perder, é que vai ser o cabo dos trabalhos com os alunos que têm comportamentos desafiadores! E os professores, já (semi)desesperados, é que vão ter que levar com tudo, coitados!… Pois, se vivêssemos numa sociedade (ideal) em que não fosse necessário recorrer a mecanismos de controlo externo e fizéssemos todos tudo (o que é suposto) por motivação intrínseca, pelo simples prazer de aprender mais e descobrir o mundo…! Nem seria necessário polícia ou tribunais numa sociedade assim, olhem os milhões que se poupavam!! Talvez seja um sinal que para aí caminhamos! Hum…»

Ainda pensei, procurando a esperança: “Talvez, pensar-se num Plano de Não Retenção, signifique que estamos a entrar numa nova era (gosto de novas eras!), que nos aproxima dos sistemas sociais e políticos dos países nórdicos, mais evoluídos (acredito na Teoria da Evolução!) e, atrás desta medida, inevitavelmente, terão que vir todas as outras que constituem um verdadeiro Estado de Bem-Estar Social!!” (euforia)…

Sim, porque no Estado que vivemos, não vejo forma de todos os alunos transitarem, independentemente da aquisição (ou não) de competências, e não chegarmos ao 9º ano com carradas de novos-analfabetos, para juntar aos analfabetos-funcionais que já criamos com o (ainda!) atual sistema de ensino, absolutamente desatualizado.

E como arrastar e manter fechados numa sala de aula alunos desmotivados, derrotados, que já desistiram, porque simplesmente não construíram estruturas precedentes onde ancorar novas aprendizagens, que não encontram utilidade ou correspondência nos currículos delineados por eruditos? Quem deve estar a sonhar com os lucros são as farmacêuticas!…

A taxa de retenção no 10º ano subiria em flecha!! Já que também é ensino (de corpo presente) obrigatório, sem transição garantida… E lá viriam os 250 milhões de custos acrescidos aos milhões de milhões gastos em despesas de Saúde, Justiça, Estabelecimentos Prisionais, Ação Social e afins, para remediar vidas desinseridas, se não destruídas…. Propor uma transição de ano meramente administrativa seria uma anedota de muito mau gosto.

Girando a lente, propor o fim das retenções poderá ser brilhante! Se implicar todas as mudanças estruturais (e não estruturais, já agora) necessárias para que estes 50.000 alunos que reprovam todos os anos tenham sucesso, na escola e na Vida!… Se isso significar que não aceitamos mais um sistema de ensino que reproduz e potencia as desigualdades e desvantagens sociais dos pequenos que chegam à escola, com uma mochila pesada demais, que nenhuma criança deveria ter de carregar.

Assim, pergunto, quem são estes 50.000 alunos que anualmente não transitam e provocam uma despesa, terrível, é verdade, de 250.000 euros ao Estado?

Defendem alguns que o insucesso escolar é um fenómeno transversal a todos os grupos socioeconómicos da sociedade… não é isso que as Fichas de Identificação de um projeto de combate ao insucesso escolar mostram. Quantos destes alunos têm Ação Escolar A ou B? Arrisco-me a responder: a grande maioria.

Quantos são oriundos de culturas distantes da cultura veiculada pela escola, abstrata e intelectualizada? Em que fatia dos números estão as crianças vindas de culturas populares e de minorias étnicas? Quantos não têm livros ou computador em casa? Quantos não têm o pai ou modelos realmente presentes? Quantos têm acesso a atividades culturais diversificadas e socialmente valorizadas? Quantos destes alunos têm uma habitação condigna com um quarto próprio ou um espaço adequado para estudarem em casa? Extrapolando um bocadinho: é nesta fatia que estão os que dormem na sala onde coabita o tio toxicodependente que vê TV pela noite dentro?!…

Quantos vivem em famílias que não têm estabilidade suficiente para poderem prever o dia de amanhã? Quanto mais conceber projetos de vida!… Quantos destes alunos têm pais que não progrediram mais do que o 6º ano no seu próprio percurso escolar, eles próprios desacreditados da mobilidade social ascendente através da aquisição de diplomas escolares? O fracasso e inferioridade social estão por vezes de tal forma interiorizados que passam de geração em geração…. Quantos destes alunos construíram as suas vinculações mais precoces com referências identitárias que não partilham dos mesmos valores e códigos linguísticos que a cultura escolar tradicional preconiza? Quantos fugiram disto tudo e (sobre)vivem sozinhos no mundo virtual?… E por aí vai…

Abram-se, pois, as mentes quando ouvirem conceitos estranhos, de outras disciplinas, é muito vasto o campo das ciências sociais e humanas, pois com visões parcelares ou restritas a uma área de estudo isolada ou, a um departamento do estado, não chegaremos às causas dos problemas sociais.

Não podemos olhar para a Educação isoladamente, como se os fenómenos acontecessem separadamente da panóplia de condições bio-psico-económico-sócio-culturais e relacionais(!) ou como se tudo estivesse unicamente dum lado, nas mãos, ora dos alunos (individualismo), ora dos professores (super-heróis), ora das famílias que se desresponsabilizam, ora das políticas sociais, ora das instituições públicas ou privadas, ora ora… mas sim, acontecem no cruzamento de todas estas dimensões, e mais algumas.

Vamos parar de procurar culpados na raia miúda? Melhor: vamos, simplesmente, parar de procurar culpados?… Vamos parar de interpretar como um ataque pessoal o comportamento perturbado de um aluno que se sente vazio, de um professor à beira de um ataque de nervos, ou de um pai que se defende da inferioridade e da impotência que o esmaga?… Estas famílias/alunos multidesafiados confrontam-se no seu quotidiano com inúmeras forças e fatores de risco indissociáveis dos múltiplos sistemas em que se encontram (des)inseridos. Por arrasto, também as escolas e professores são multidesafiados…

E para mediar esta complexidade de sistemas interdependentes e, nem sempre convergentes, quantos técnicos de serviço social temos a trabalhar por agrupamento de escola? Quantas vagas da função pública abrem por ano para assistentes sociais e psicólogos nas escolas públicas?!… Praticamente não temos Serviço Social nas escolas. Querem poupar na fatura das retenções e das vidas “fracassadas”, porque não encontraram pontes felizes que fizessem uma passagem segura da socialização primária para a secundária? Invistam nas condições e nos agentes que medeiam estas relações e interações, quanto mais cedo, melhor.

…E qual é a parte que está ao alcance de cada um de nós, hoje, aqui e agora, no nosso dia-a-dia, neste ponto de (des)encontro de multiversos? Que fatores protetores vamos potenciar e fazer prosperar? Teremos a nossa visão largamente alargada para uma abrangência estrutural e de compreensão das condições objetivas e quotidianas que condicionam a construção social da realidade?…

…E, se temos algumas noções da complexidade destes fenómenos, teremos a coragem para mudar?

Com eficiente articulação multidisciplinar e multi-institucional, verdadeiramente reflexiva e cooperativa, envolvendo todos os atores sociais, através de abordagens culturalmente dialógicas, pelos Direitos Humanos e da Criança, pelo dinheiro que vamos poupar nas consequências da desinserção, se quiserem! Mas sim!! Queremos acabar com os chumbos até ao 9º ano!!! E mais além… YES, WE CAN.

Que bela notícia que lançaram esta de acabar com os chumbos até ao 9º ano… Primeiro estranha-se, depois entranha-se. Talvez esta seja “uma utopia com lugar para acontecer”.

Raquel Lourenço, in Mood, 28-11-2019

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