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Absurdos

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«Eu andava por entre as carteiras enquanto os alunos liam o texto. Um texto algo extenso, complexo no seu sentido, um texto que exigia muita atenção. O manual aberto, cabeças inclinadas, silêncio quase absoluto.

Acabaram a leitura. As cabeças ergueram-se, peguei no meu manual e, de marcadores na mão, fui para o quadro – exploração da leitura e sistematização de ideias.
Comecei a fazer perguntas. Ideia chave? 1º parágrafo? 2º? Perguntas possíveis para as afirmações lidas? O que sublinharam?

O problema surge sempre aí.

Numa primeira fase, o que eu pretendo é que a leitura permita sublinhar no livro e no texto que os alunos leram o que consideram importante, digno de nota, ideia a reter, definição, conceito, … enfim, tudo o que possa salientar o que se pretende fazer aprender. Só que, desde há cerca de dois anos para cá, essa tarefa pedagógica tem sido algo que os alunos não querem fazer. Dizem-me que os livros “não são” deles, são emprestados pela escola e que têm que os entregar no final do ano impecáveis, sem qualquer sublinhado ou anotação. Por isso, muitos não sublinham nada, mesmo nada. Muitos dos livros estão limpos. Limpinhos. Não há nada escrito neles. Dizem que, antes de os entregarem, não querem ter que apagar tudo o que tenham anotado ou sublinhado.

Insisto: como querem estudar com os livros assim, sem “nada”? Em última análise, para uma prova, um exame que exige conteúdos de vários anos (logo, o estudo por vários livros…)? Pois… “logo se verá”, respondem-me sorridentes e, creio eu, algo inconscientes.
Quando me deparo com esta atitude, argumento logo. Explico que a leitura é uma competência maior que se enriquece com as anotações que ajudam a compreender e permitem a concetualização, outra dimensão fundamental para a aprendizagem. Apresento mais razões, apresento exemplos, recorro a argumentos por autoridade, tento ser persuasiva. Em vão. De há dois anos a esta parte, pior. Nada de sublinhar. Os livros que fiquem limpinhos. E esta atitude não tem desaparecido ao longo do ano… mostram-se irredutíveis.

Não era a primeira vez que assuntos relacionados com os manuais eram conversa. Alguns alunos, mais comprometidos com a sua condição de estudantes e com objetivos mais consistentes, já se tinham interrogado sobre a necessidade de usarem os manuais, uma vez que as provas de exame incidem sobre conteúdos de vários anos. Como fazer o estudo de preparação se os manuais têm que ser entregues no final de cada ano? Posta a questão, sei que, nesse caso, a escola os redistribui quando tal situação se coloca, mas não será, de todo, o ideal.

Fico sempre inquieta. Como é possível “ler” e interpretar, sem sublinhar? O que lhes fica? Como se aprende com livros “despersonalizados”, com livros que “não são de ninguém”, que, “limpinhos”, negam a sua função? Esta negação da ênfase nas palavras é-me incompreensível. Um livro, um manual de uma disciplina é um recurso, um suporte valioso. Não o trabalhar é assumir a sua pouca utilidade, a sua irrelevância, o seu pequeno ou nulo valor. No limite, será mesmo instituí-lo como recurso “não necessário”. Isto é-me incompreensível.

A aula corre e eu, no quadro, vou escrevendo. Com duas cores, vou registando a análise das páginas dos livros que eles não “sujam” com quaisquer sublinhados. Construímos o registo em conjunto – eu no quadro, eles no caderno. Leva tempo. É preciso encontrar as ideias e, essa procura sem sublinhados ou anotações não é fácil…. Mas é o que é. E não posso obrigá-los, como já mo disseram claramente.

A aula está quase a acabar. Ainda mais um ou outro comentário sobre o “não querer sublinhar”. Sabem a minha posição com a qual brincam com leveza e com a condescendência de quem sabe que pouco ou nada eu mais poderei fazer.

E a aula acaba. Registo feito, caderno fechado, quadro apagado. Arrumo a minha pasta e, ao fechar o meu livro, olho para aquelas duas páginas cheias de anotações, sublinhados contrastantes e, até, um post it. Aquele que é o “meu” livro, aquele que tem muito do que quero que aprendam, aquele onde as palavras têm o sentido esquadrinhado e exposto à interpretação de quem o esmiuçou. Séria e inconformada, fecho-o e arrumo-o. Penso como é possível fazer mais pela palavra. Ler é reconhecer e absorver o poder único da palavra. É imaterializar o que ela nos diz. Salientá-la nunca poderá ser um ato menor.

Como fazer compreender que “a palavra é sagrada” como nos disse Sophia num dos seus mais intensos poemas.

Num gesto rápido, fecho o livro.

“Vamos”, disse eu a uma aluna que, mais atrasada, pega atabalhoadamente num saco de desporto, casaco e mochila, da qual, na confusão, caem livros e cadernos que se espalham no chão. Rimo-nos. Ajudo-a. Num dos livros vejo páginas sublinhadas. Consolo-me. Ainda não me dou por vencida.

Mas a verdade é que, para muitos, os livros ficam limpinhos. Sem nada registado. Asséticos. Prontinhos para que outros possam aprender por eles!»

Texto de Ana Luísa Melo

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