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A ser verdade, é inacreditável.

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colégio Frei Gil
Colégio Frei Gil

Li hoje num jornal diário que uma certa Associação de Pais, dos que beneficiavam dos contratos de associação propôs a um Colégio que os funcionários prescindissem de parte do seu salário para ajudar a suportar as mensalidades dos seus filhos. A ser verdade, é inacreditável. Deixem ver se percebi. Os pais recorrem a um Colégio para ali receber um serviço, a educação dos seus filhos. Esse serviço tem de ser pago. Antes, por razões várias que já cansam referir, o Estado suportava o pagamento desse serviço. Agora o Estado já não suporta. Então, os clientes sugerem aos trabalhadores que fornecem o serviço pelo qual devem ser remunerados que sejam estes a comparticipar nas despesas do serviço que prestam.

Isto só terá lógica se houver aqui algum privilégio desconhecido. Mas não, consta que não. Consta que o único privilégio que têm é o direito ao trabalho. Consta que a proposta baseie-se na ameaça velada, ou na gestão do medo, ou na chantagem emocional, de dizer a estes funcionários “pensem bem, porque se não colaborarem espera-vos o desemprego”.

Isto é a inversão de tudo. Desculpem-me a indignação, mas ter sequer a coragem de colocar por escrito uma ideia tão perversa – foi enviado um e-mail, ou vários – é sinal de uma total falta de respeito e consideração por estes profissionais.

Vamos supor que a proposta é aceite, o que não me chocaria porque é preciso muita coragem para olhar para as contas e para o e-mail e decidir pela dignidade. Como seria a vossa relação com estes profissionais, caríssimos pais? O professor do seu filho detém agora a qualidade de corresponsável pelo pagamento da sua educação e assim sendo pode opinar, pôr e dispor, participar na educação parental, porque se paga manda, certo? Naturalmente que não, seria abusivo. Então é só um profissional de educação, certo? E qual é o estatuto deste profissional, que agora está submetido à suas exigências e ao seu abuso de posição dominante que até se permitiu ir-lhe à conta bancária? Quando houver uma divergência na escola – porque vai haver! – e o seu filho for fazer queixas do professor, o que lhe dirá o caríssimo? “Respeita-o porque o professor é quem manda”? Mas manda? Não é o caríssimo que desempenha uma posição parecida com uma entidade patronal da pior espécie, que põe e dispõe da retribuição que lhe é devida? Como é que este profissional vai exercer autoridade sobre o seu filho, se está sob a sua alçada? Parece-lhe boa ideia que o seu filho faça o que quer na escola daqui para a frente? Um professor é uma autoridade! Tem de ser respeitado como tal, não pode estar fragilizado de forma nenhuma, a bem do seu filho! Uma escola é uma sociedade, onde há figuras de autoridade que estabelecem as regras que têm de ser respeitadas, que indicam o caminho a seguir, que os afastam dos caminhos errados e os incentivam a seguir pelo caminho do bem. Humilhe os profissionais que fazem mais pelo seu filho do que “dar aulas” e alguns podem decidir cruzar os braços e assobiar para o ar em tudo o que não é sua obrigação.

E a direção do colégio, o que fará? Vai ceder? Ou vai mostrar de que fibra é feita, proteger os seus profissionais, arregaçar as mangas e garantir que o serviço que prestam tem excelência suficiente para justificar que os clientes estão dispostos a pagar pelo serviço e que não dependem de esmolas, nem de subsídios nem se sujeita a chantagens ? Vou estar a assistir, com muito medo do desfecho desta história, porque este gesto inqualificável  já revelou muito do caráter dos seus responsáveis, e isso já não se retira.  A ser verdade, claro!

 

Sofia Homem Cristo

Diretora do Colégio da Beloura

colégio da beloura

Atualização:

Publicado no Facebook ComRegras

 

Comentário

E agora…

Contraditório de um professor que leciona no respetivo colégio

1 COMMENT

  1. Boa tarde.
    Sendo professor e apologista da verdade acima de tudo sinto-me na obrigação de comentar o seu artigo.
    Acredito que nós professores, mais do que os restantes, deveremos sempre ouvir as partes antes de emitir juízos.
    Mas na sociedade actual em que uma notícia apenas o é se houver sangue…não interessa verificar a veracidade dos fatos.
    Antes de começar devo informar que sou professor no dito colégio. Colégio este que ao contrário da maioria que, ao contrário da maioria dos que existe por aí, não tem piscinas nem cavalos, foi ajudado a construir pela comunidade envolvente, com donativos em material e dinheiro, com terrenos onde o colégio foi erigido e ampliado. Não tem outros meios de subsistência a não ser o dinheiro que vem do estado, fruto dos contratos de associação. Com um corte de 11 turmas, sim leu bem…11 turmas de um universo de 33…o que eventualmente pode acontecer a este colégio é fechar portas. Perante este possível cenário houve várias reuniões entre os funcionários e a administração do colégio de modo a verificar o que se poderia fazer. foram os funcionários que, entre várias propostas, se ofereceram para doar 10% do seu ordenado, durante um ano, caso o actual cenário de cortes se mantivesse. Para manter o colégio aberto! A associação de Pais propôs que, assim como os funcionários se prontificavam a ajudar também os pais deveriam fazê-lo. A proposta…que os alunos contribuíssem também com um determinado valor. Estes valores interessam a quem faz parte do processo, mas posso informar que fica abaixo do preço do passe de transporte mensal para as únicas escolas públicas que a rede de transportes possibilita a frequência. Também a comunidade envolvente se prontificou a ajudar “adotando” alunos que não possam pagar e pagando a mensalidade destes. Se é imoral? imoral é estes alunos não ficarem na escola para onde podem ir a pé e terem de ir para uma escola que fica a 11km só porque alguém que não conhece a realidade assim decidiu! Se alguém foi obrigado a pagar alguma coisa? Não, que eu saiba ainda vivemos num país democrático em que cada um tem a liberdade de escolher. Quem não quiser participar…não participa. Além de professor nesta escola sou pai de um aluno que a frequenta. Como professor prefiro de consciência tranquila doar 10% do meu ordenado para continuar a fazer aquilo que adoro, na escola que escolhi e me acolheu e a contribuir para o crescimento de outros. Como encarregado de educação prefiro doar uma valor quase simbólico para que o meu filho continue num colégio onde sei que é bem tratado, aprende e está seguro! (o valor maior a pagar fica mais barato do que o transporte para a escola para onde ele iria. Ou menor do que o valor mensal se fumasse um maço de tabaco por dia). Vale a pena acrescentar que todos os valores a doar o serão durante 1 ano, voluntariamente e apenas se o actual cenário de cortes se mantiver. Isto é notícia? É! Mas como o que está inerente a estes gestos é o “sacrifício” por uma causa…é preferível ouvir quem conta apenas o que vende jornais!
    Caso sinta vontade fica aberto um convite para que a senhora Diretora venha visitar um colégio que de colégio apenas tem o nome…porque na reaçidade é uma Instituição!

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