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a sala de aula – entre o assético branco e a personalização das cores

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escolaAs salas de aula são, na sua generalidade, lugares algo inóspitos, secos, áridos. Isto por que são e estão desprovidas de decoração. Exceção feita às salas de grupos/turma de 1º ciclo ou a uma outra atribuída ou que terá sido atribuída a grupo disciplinar (os laboratórios, uma sala de música, as salas de ET ou EV, por exemplo) todas as restantes estão despidas, nuas.

Mesmo aquando da renovação do parque escolar onde, em algumas opções de arquitetura, predominaram as cores, o confronto de movimentos, lógicas de orientação e sinalização pela cor pela decoração, mesmo aí as salas de aula permaneceram despidas, limpas, brancas na sua pretensa pureza assética.

Esta opção decorre do confronto de duas lógicas que há muito, mesmo muito tempo se confrontam na educação e na escola e que tem como palco e foco a sala de aula.

Uma lógica que defende que as salas de aula devem ser e estar despojadas de qualquer elemento que possa interferir e condicionar a atenção do aluno. As salas são áridas para que o aluno não se desvie daquilo que é importante, a palavra do professor.

Uma outra lógica, que ganhou essencialmente espaço no 1º ciclo, defende que as salas devem estar decoradas recordando ao aluno o seu trabalho, criando elementos de comparação entre os trabalhos dos alunos e mesmo como auxiliares de memorização.

É certo que não sou a favor de uma decoração excessiva, costumo dizer que tudo o que é demais é mau, cheira mal. Mas recordo o despertar da curiosidade quando se chega ao laboratório de ciências e damos com um corpo humano em 3D, a manipulação do nosso corpo, o conhecimento que dali decorre, a curiosidade e o questionamento que é feito. Mesmo quando chegamos pela primeira vez a uma sala com mapas quinhentistas a curiosidade que sobressai no questionamento do aluno.

E não é só de curiosidades que a sala deve estar decorada. A criação de bibliotecas de turma ou de disciplina tem sido uma estratégia de leitura nos últimos anos. É ver, docentes e alunos, a carregar a biblioteca de andas para bolandas. A disposição do mobiliário da sala, nas tradicionais linhas paralelas, em U ou em mesas de grupo diferencia, apoia e reforça estratégias de trabalho em sala de aula, cria elementos de identificação e de trabalho com a disciplina, define regras e critérios de relacionamento de trabalho e entre os elementos envolvidos (aluno-aluno, aluno-professor-aluno, aluno-professor). Isto é, a sala de aula na sua disposição tanto pode favorecer o palco e a voz ao docente, como estimular o trabalho de grupo, o debate individual, a partilha de elementos. Para já não falar nas questões da (in)disciplina ou dos comportamentos escolares que tantos docentes apregoam mudando apenas um ou outro aluno (com riscos de se cortarem ou cercearem apoios pessoais e/ou sociais) mas raramente a disposição e organização da sala.

Por outro lado e no meu entendimento, uma personalização da sala de aula permite criar elementos de trabalho que vão ao encontro de princípios de responsabilização e envolvimento/implicação por parte do aluno na dinâmica de sala de aula. O aluno sabe como está a sala, sabe identificar de forma distintiva a sua sala, assume, por isso mesmo, uma atitude de responsabilidade diferente para com ela, elevando e estimulando a sua responsabilidade social.

Contudo, sei que permanecerão em contenda as visões de aridez e limpeza de paredes, afetas ao 3º ciclo e secundário (que coincide com a centralidade do docente), e as visões de personalização e diferenciação das salas, muito comuns ao 1º e 2º ciclos. Só não percebo é por que não podem elas conviver numa mesma escola?

Manuel Dinis P. Cabeça

novembro, 2015

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