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A retenção tem cariz excecional. 86% dos alunos retidos não recuperam.

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Falo de anos não terminais do ensino básico, mas já lá vamos. Este artigo não visa incentivar a transição dos alunos, trata-se de um artigo que tenta apresentar factos e visa a reflexão num momento importante do ano letivo.

reprovadoEsta semana teve início os conselhos de turma de avaliação referentes ao 3º período (9º, 11º e 12ºano), para a semana os restantes. Trata-se dos conselhos de turma mais importantes do ano, pois é daí que surge o “carimbo” aprovado/reprovado. É sempre um momento de algum frisson entre professores, fruto de abordagens e visões diferentes que numa breve analogia posso considerá-las como a ideologia romântica e a ideologia do chicote. Alguns DTs, para passarem ao lado destas batalhas que por vezes são bem acesas, antecipam-se, e nos bastidores abordam individualmente os professores para evitar conflitos e abrir terreno a reuniões mais céleres e pacificas.

Já referi que nos meus verdes anos de professor, carregadinho de sangue na guelra, era muito mais simplista: tinha notas para passar, passava, não tinha notas para passar, chumbava e siga para bingo. Hoje gosto de pensar que evoluí e pondero muito mais esta questão da retenção do aluno.

Os que abominam ver um aluno com várias negativas transitar em anos de início de ciclo ou intermédios, apresentam sistematicamente o argumento do facilitismo, e não é fácil convencê-los que não é essa a questão – eu por exemplo não ia na cantiga.  Esta coisa das transições e retenções é um pouco como os melões. É frequente assistirmos a alunos que transitam com a bênção do conselho de turma, voltarem a cair nos pecados capitais. No entanto os estudos não dizem isso e conforme podem ver no quadro do Projeto aQeduto apenas 14% dos alunos retidos consegue fazer uma recuperação significativa.

percentagem de alunos que recuperaram

Em Portugal, dos alunos que já chumbaram, apenas 14% conseguem ter um desempenho de nível 3 ou mais. Isto é, mais de 85% destes alunos permanecem muito atrás dos seus pares a nível da resolução de problemas do dia a dia. Este cenário assume depois uma dimensão mais preocupante se nos focarmos na percentagem de alunos que se ficam por níveis de proficiência zero e abaixo de um (que de acordo com a OCDE representam desempenhos de alunos que apenas resolvem problemas óbvios e que não envolvem processos de raciocínio ou de recolha indireta de informação), que em Portugal é de 21% e 36% respetivamente.

Diz-se que em Portugal chumba-se muito, fala-se em 150 mil por ano e que muitos milhões são desperdiçados com esta política do chumbo. (ver quadros seguintes)

evolução alunos que chumbaram

custo da retenção

Nota: Reparem que no quadro acima verificamos que é a “Aprender a aprender” que surgem mais resultados e é curiosamente mais barato. As tutorias agora na moda, também apresentam resultados interessantes, apesar de neste caso ser realizada pelos pares. E a famosa redução de alunos por turma tem um peso médio, enquanto que os professores assistentes têm um impacto muito reduzido. Sobre a eficácia do chumbo, o gráfico é claro…

Voltando aos conselhos de turma, cabe aos docentes ponderar bem esta questão da retenção e, acima de tudo, não se deixarem influenciar por estados de alma ao estilo vingativo pelas dores de cabeça que os diabretes lhes trouxeram ao longo do ano. O docente precisa de ver o quadro todo e não se restringir a um conjunto de meses de um longo percurso educativo.

A retenção numa política de ciclo é de caráter excecional, diz na lei (Decreto-Lei. n.º 17/2016 de 4 de abril), e existem escolas que aboliram a retenção do seu vocabulário. Ver a entrevista dada ao ComRegras do Diretor Adelino Calado, do Agrupamento de Escolas de Carcavelos. Para o próximo ano letivo será necessária a elaboração de um plano individual/turma que identifique as aprendizagens não desenvolvidas pelo aluno. 

retenção é excecional

(carregar na imagem para aceder ao documento)

Para terminar e em tom mais descontraído, no ano passado escrevi um artigo sobre os Umbigos dos Conselhos de Turma de Avaliação. Na altura fiz uma breve caricatura do tipo de professor e sua forma de estar nestas tão importantes reuniões. Passou um ano e mantenho o que escrevi. Fica o artigo para quem quiser (re)ler.

Conselhos de Turma de Avaliação e seus Umbigos

Existem quatro tipos de condutas evidenciadas pelos professores nos CTA. Importa referir que estas condutas não são sinónimos da sua forma de estar em contexto de sala de aula, por isso permitam-me a caricatura:

o professor “meiguinho – evidencia uma enorme compreensão para o insucesso do aluno, para os seus desvarios comportamentais e precária situação familiar.

o professor “Suíça” – normalmente fica calado, não gosta de entrar em debates e por vezes tem atitudes tão ativas como a cadeira vazia que está ao seu lado.

o professor “durão” – com pouca paciência para justificações, restringe-se às avaliações e ponto final.

o professor “balança” – mais ponderado, mediador, analisa as diferentes hipóteses e depois debita a sua justiça.

5 COMMENTS

  1. Os sistemas de transição automática são muito mais baratos.
    Todavia, são muito mais seletivos e segregadores, uma vez que os alunos que transitam sem as aquisições previstas, vão sendo reagrupados. Assim, no final da escolaridade obrigatória, uma percentagem muito significativa não fez qualquer aquisição significativa e está condenada à indigência.

    • Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. O grande problema é que os que chumbam não são recuperados.

  2. “(…) 86% dos alunos retido não recuperam.” porque foram “arrastados” (leia-se transitados) até ao limite das suas fragilidades…e assim ficaríamos com um título bem mais próximo da realidade.
    Na verdade, não tenho conhecimento de estudos que tenham observado o percurso académico dos alunos retidos, e que tenha estabelecido se um aluno que ficou retido, já manifestava fragilidades suficientes para o ser em anos anteriores. No entanto, e porque já por demasiadas vezes ouvi este argumento (não sei se apelide de falacioso se de intelectualmente desonesto – a par do muito batido “o que ganha o aluno em ficar retido?”), fica-me a impressão que uma retenção no ano adequado (se é que o conceito existe) possibilitaria um percurso bem mais equilibrado do aluno (para mim, que sou professor de Matemática, esta situação é por demais evidente).
    Podemos ir mais longe e atribuir as culpas a um sistema que permite que alunos transitem com disciplinas sem aproveitamento e que, por outro lado, obrigam um aluno que fica retido a repetir disciplinas onde já tinha aproveitamento. Pessoalmente, veria com bons olhos uma mudança de paradigma, concentrado-se num sistema de precedências: o aluno seguiria o seu percurso normal em cada disciplina que tivesse aproveitamento, e ficaria apenas a repetir aquelas onde isso não acontecesse. Posteriormente, cada instituição de ensino superior ditaria quais as premissas de entrada em cada curso. Parece-me no entanto que este sistema poderia ser mais pesado financeiramente…mas lá que as retenções acabavam, acabavam.

    • Está a olhar para um estudo que mostra que a retenção não é compensadora. Pode ou não concordar com ele, mas o estudo está lá. Sobre a proposta apresentada, essa é semelhante ao ensino secundário, mas não me parece viável no ensino básico, os alunos já têm uma carga letiva elevadíssima, acrescentar 3,4,5,6… disciplinas ao ano seguinte é logo uma impossibilidade a nível horário. A questão da matemática, deduzo que é por o aluno precisar de mais tempo para adquirir os conteúdos. Esse tempo pode ser dado no ano seguinte, através de um apoio mais individualizado.

  3. “86% dos alunos retidos não recuperam”… Alguém sabe qual é a percentagem dos alunos que transitam administrativamente e também não recuperam?????? (desconfio que seja ainda maior). Pior do que uma retenção, só mesmo uma transição meramente administrativa. Para que um aluno recupere efetivamente das aprendizagens não adquiridas é necessário que cumpra um (verdadeiro) plano de recuperação.

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