Home Escola A relação professor aluno, o que não consta da pauta…

A relação professor aluno, o que não consta da pauta…

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Gosto de ensinar. Não sei se é uma qualidade ou um defeito. Talvez seja um vício. Nada me demove desta intenção apesar de estar sempre a levar caneladas, pontapés, puxões de cabelos e até mesmo unhadas. Deu-me para isto. Que hei-de fazer? Não consigo modificar esta maneira de ser.

Sei que se pode tornar tóxica ou até mesmo perigosa mas, casmurra como sou, continuarei até que não seja possível. E mesmo assim tenho sérias dúvidas que me consigam travar nos meus intentos. Ensinar implica alunos, público que queira ouvir e esteja disposto a aprender. Nem sempre é fácil.
Quando ensinamos estamos a ser expostos, a mostrar a nossa boa vontade e decisão. Não temos vergonha e desnudamos-nos sem pudor para conseguir a ligação que deve existir entre professor e aluno. Mas, curiosamente, esta relação acaba por ser muito mais gratificante do que se posso pensar.
Estabelecemos laços com os alunos, mesmo que eles não queiram ou não deixem. É inevitável. Em pouco tempo sabemos mais da vida da Rita, da Inês, do Ricardo e do Diogo do que gostaríamos. E nem sempre é por motivos simpáticos. Os que chamam mais à atenção são aqueles que a querem ocultar. Por isso mesmo é que percebemos os seus gritos surdos.
Todos eles são frutos de relacionamentos falhados, de sonhos que nunca se chegaram a concretizar, de futuros que não aconteceram, de tempos que tiveram um motivo concreto para existir. São as vítimas, os que viajam de casa em casa, os nómadas modernos que não conseguem criar raízes porque não há tempo para tal.
Não conseguem ter um local que chamem seu porque nem há tempo para o aquecer. Pelo caminho, de semanas ou de quinzenas, perdem-se peças de roupa e afectos, pedaços de carinho e tempo que se escoa sem sentido. Pensam que são bafejados porque têm muitos amigos mas não passa de uma ideia vã, uma inútil virtualidade de que nada lhes serve.
Em casa penso neles, nos seus pequenos dramas e nas suas aventuras forçadas. Nenhum filho deveria ser sujeito a estas adversidades, a estes contratempos que os fazem crescer de modo tão diferente. Alguns são ” objectos ” de arremesso entre os progenitores e não vistos como seres sensíveis que necessitam de atenção e de cuidados.
Quero chegar a todos mas não consigo e não posso. Alguns dão-me a alegria de partilharem uma confidência mas outros olham-me com desconfiança. É este receio que me assusta e preocupa. Desconfiam de todos e talvez seja uma forma de se defenderem e de se protegerem. Não devia ser assim. Um professor é também um ombro amigo, alguém que se dispõe a ouvir o outro, que o ajuda a formar-se.
Este é o maior grupo que encontramos. Famílias refeitas, novas famílias e família alternativas. Cada vez são menos os filhos de pais que estão juntos desde o seu nascimento. Entendo que a marcha da humanidade não possa ser travada por aquilo que eu entendo serem afectos mas são muito importantes e necessários. A meu ver deviam ser obrigatórios.
Que vidas amorosas terão estes adolescentes? Virtuais? Trocas de mensagens e poucos ou nenhuns contactos físicos. Afastam-se, tal como os pais fizeram e lhes fizeram. Não é uma crítica que quero aqui expressar mas sim uma preocupação que me inquieta a toda a hora.
Caminhamos para uma sociedade de robots, deixámos de ser humanos e nada mais interessa? Não quero pensar assim. Estou aqui a lembrar-me deles, a tentar encontrar estratégias para os motivar, para lhes dizer que me preocupo e que quero que sejam pessoas bem resolvidas.
Vou voltar a levar mais pontapés e mais beliscões mas não consigo parar o meu coração de modo algum. Estas alminhas estão em profundo sofrimento e é preciso encontrar soluções imediatas e eficazes. São os alunos mas são, igualmente, seres em formação que precisam de ser orientados, de ter uma ” bengala ” onde se possam apoiar.
Gostaria muito que olhassem para mim como alguém em quem podem confiar mas não é assim que acontece. Alguns sabem que eu sei, que os leio e que as suas palavras e atitudes deixam transparecer o que lhes vai na alma mas outros, encerram-se numa carapaça tão dura e tão forte que se torna quase impossível abrir.
É neste período, que eles não têm aulas, que me sobressalto mais. Por onde andarão? Na casa da tia, da avó, da mãe ou do pai? Perdem as referências, vivem vidas pequeninas e descontínuas que acabam por encaixar e fazer sentido para eles. Vivem na era dos jogos e torna-se mais fácil olhar para a vida desse modo.
Por muitos anos que passem serão sempre os meus meninos, aqueles que receberam o meu ” colo pedagógico “, aqueles a quem auxiliei no seu caminho e que nunca esquecerei. Alguns já são pais e conheço os seus filhos. São agora meus alunos e a vida continua, cheia de vigor e de força. Recomeço a tarefa com paixão e ardor. Outros perderam-se e, outros ainda, perdi-os. Lamento tanto.
Um professor nunca pára de trabalhar, é bem certo. Eles são importantes para mim e nunca deixarão de o ser. Podem não querer saber de mim mas eu quero saber deles. Sei que não lhes sou indiferente, apesar de quererem fazer passar essa ideia. De tanto ” martelar ” alguma coisa lá há-de ficar. E fica. Tenho a certeza.
Estou sempre a ser julgada. Uns gostam e outros não. É inevitável. A vida ensina-nos que temos que saber lidar com todos os tipos de pessoas. Não é fácil mas é exequível. A experiência facilita estas partes menos boas. Não é que não tenhamos que continuar a engolir sapos mas antes de o fazer podemos ter o prazer de conversar com eles.
Mais despida não podia estar. A verdade é que ensinar ainda é um sacerdócio e uma arte. Existe sempre um público e um auditório. Há uma diferença. O auditório é geral e o público é quem ouve. Espero que me oiçam, que consigam retirar os ensinamentos necessários e que prossigam as suas vidas sem medos e com certezas.
Duma coisa podem estar cientes: os afectos, que não fazem parte do programa, nunca serão esquecidos nos meus ensinamentos. Eles estão em primeiro lugar e é para eles, para os meus queridos alunos, que os quero e desejo direccionar. Sejam felizes com as ferramentas que vos são fornecidas e não tenham receio de mostrar os vossos sentimentos. A felicidade constrói-se todos os dias.
Margarida Vale

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