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A Realpolitik e o nepotismo favorecem o populismo

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1. Um grupo de cidadãos pediu que se tomem medidas para impedir eventos neo-nazis no território português, designadamente uma conferência nacionalista promovida por organizações de extrema-direita, programada para 10 de Agosto, em Lisboa. Segundo o Expresso, é Mário Machado (cujo envolvimento no homicídio do malogrado Alcindo Monteiro e noutros crimes de discriminação racial não pode ser esquecido) o mentor da iniciativa, para a qual terá convidado Paul Golding, igualmente condenado no Reino Unido pelo crime de ódio racial. Segundo a Constituição da República Portuguesa (artº 46º, nº 4) não devem ser consentidas “organizações racistas ou que perfilhem a ideologia fascista”.

2. Leis quadradamente estúpidas infernizam continuadamente a vida dos cidadãos, que delas não se podem desobrigar. Mas agora que a desdita lhe tocou, a Realpolitikpresta-se ao deplorável exercício de pôr o Governo a querer tornar turvamente interpretável o que é cristalinamente claro, apesar de estúpido. A lei dos impedimentos, que ora questiona, trata do mesmo modo coisas bem diferentes e parece concebida por gente insana. Vem de 1996 e foi apresentada e defendida na AR por António Costa, então secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares. É edificante rever os argumentos que usou e cotejá-los com aqueles a que hoje recorre. Já lá estava, naturalmente, a alínea que o levou a pedir um parecer à PGR, isto é, o regime de sanções que hoje questiona, para ir em impune ilegalidade até às eleições: demissão dos titulares dos cargos políticos (Pedro Nuno Santos, Francisca Van Dunem e Artur José Neves) e nulidade dos contratos feitos. Esta prerrogativa interpretativa do que é mandatório, que os detentores de cargos políticos se auto-atribuem, é própria de castas, amarrota o Estado e corrompe a democracia.

3. Por muito que António Costa o negue, o nepotismo do Governo e do PS é um facto. Muito longe de esgotar a longa teia, sem precedentes na Europa, recordemos os seus nós mais notórios: José António Vieira da Silva, ministro do Trabalho, da Solidariedade e da Segurança Social, é pai de Mariana Vieira da Silva, ministra da Presidência e da Modernização Administrativa; Eduardo Cabrita, ministro da Administração Interna, é marido de Ana Paula Vitorino, ministra do Mar; Catarina Gamboa, mulher do ministro das Infraestruturas e da Habitação, Pedro Nunes Santos, é chefe de gabinete de Duarte Cordeiro, secretário de Estado Adjunto e dos Assuntos Parlamentares; Francisca van Dunem, ministra da Justiça, é mulher de Eduardo Paz Ferreira, presidente da Comissão de Renegociação da Concessão do Terminal de Sines; António Mendes, secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, é irmão de Ana Catarina Mendes, secretária-geral adjunta do PS, por sua vez cunhada de Patrícia Melo e Castro, adjunta de António Costa; João Gomes Cravinho, ministro da Defesa, é filho do ex-ministro João Cravinho; Waldemar Oliveira Martins, ex-secretário de Estado das Infraestruturas, é filho do ex-triplo ministro Guilherme Oliveira Martins; Ana Isabel Marrana, ex-mulher do ministro do Meio Ambiente e Transição Energética, foi chefe de gabinete da ex-secretária de Estado do Ordenamento do Território e da Conservação da Natureza, Célia Maria Gomes de Oliveira Ramos; Rosa Zorrinho, ex-secretária de Estado da Saúde, é mulher do eurodeputado socialista, Carlos Zorrinho;

4. Se, aqui chegados, o leitor perguntar o que relaciona os três pontos anteriormente abordados, por favor, volte a ler o título. Infelizmente, às vezes, os circos pegam fogo.

In “Público” de 7.8.19

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5 COMENTÁRIOS

  1. Nada justifica que as pessoas se organizem para a defesa de crimes contra pessoas. Para quem ainda tem presente o sentido da moralidade (independentemente da lei, que deve ser também moral) organizar-se nesse sentido é em si mesmo um crime. A liberdade não é um saco roto onde cabe tudo, aqueles que lutam contra a liberdade não podem recorrer ao seu uso para neutralizá-la, isso é irracional. É preciso ter presente a História e lembrar que a indiferença perante estes fenómenos também foi criminosa e também é responsável pela morte e sofrimento de milhões de pessoas. Encontrar motivos não pode ser aceitar e ser tolerante com crimes. Não deveria ser necessário petições e assinaturas. A interdição deveria ser automática e passível de punição.

  2. O amiguismo político ou a teoria do “fica tudo em família” poderia ser facilmente resolvido, assim os decisores quisessem a sério. Não falo evidentemente daquele diagrama estupidamente complexo que o PR se deu ao trabalho de publicar para fazer passar a ideia falsa de que o problema é muito complicado, e que o Costinha de algum modo tb foi buscar para discursar na AR, como lhe convinha. Nenhuma das situações elencadas pelos dois principais líderes faz qualquer sentido. Bastaria uma norma simplicíssima que já é aplicada na burocratizada UE: nenhum funcionário de qualquer categoria, desde a mais baixa à mais alta, pode tomar qualquer decisão onde tenha interesse directo ou indirecto.

  3. O que mais me surpreende é ver o povo Português quedo e mudo, numa letargia infinita,sem ação! Assustador é também prever-se que o partido socialista vai ganhar as eleições! Sei que não há oposição que tenha um líder carismático, mas,então, ninguém ia às urnas, e a classe política aprendia a lição! Será que o nosso país está perdido? Estará eternamente nas mãos de gente corrupta,nepotista e sem qualquer tipo de valores, equiparando-se aos países do terceiro mundo?!

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