Home Rubricas A questão da inflação das classificações internas.

A questão da inflação das classificações internas.

1787
1

A «inflação de notas» é um tema agora na ordem do dia, porque o ministério ameaçou a classe docente com ações da inspeção se houvesse subida das notas anormais (?), agora que os exames só contam para o acesso ao superior. Depois surgiram notícias que estavam em vias de se concluir inquéritos sobre o mesmo assunto que vinham de anos anteriores. Tudo isto tentando pressionar os professores. Por fim, os inspetores reagiram à ameaça do ministério alertando para a dificuldade de provar estas situações.

Em primeiro lugar, quero lembrar que a orientação do ministério, acompanhadas por muitos diretores, é reduzir ou não haver reprovações. Para que isto aconteça haverá subida de notas para se atingir os níveis de passagem de ano. Portanto, uma orientação que leve à subida de notas não é inflacionar notas, é governar, ou seja, depende de quem o sugere, se for por iniciativa dos professores é inflacionar notas, se for por orientação ministerial ou do/a diretor/a já não é inflacionar notas.

Outra situação que levou à subida de notas (não inflação!) foram as medidas universais, que permitem aos alunos recuperarem ou evitarem classificações negativas, por exemplo promover exercícios mais fáceis para os alunos com dificuldades de aprendizagens e permitir testes de recuperação parciais de grupos negativos nos testes. Mais uma vez estamos perante orientações de política educativa pelo que não há inflação de notas! Mas atenção, a orientação ministerial é só ao nível da passagem / retenção do aluno.

Depois, temos um outro nível, o do acesso ao ensino superior, onde falar de inflação de notas é também falar de colégios privados que para manter uma clientela têm notas de classificação interna elevadas para compensar eventuais azares nos exames, nomeadamente as notas têm uma amplitude somente entre 17 e 19 ou a existência de um número anormal de 18s, 19s e 20s. Nestes casos o ministério atuou em algumas situações, logo ao nível de acesso ao superior o ministério já considera a subida de classificações dos alunos um problema.

No ensino público a minha experiência também permitiu constatar que quando os professores têm filhos no secundário, mesmo não dando aulas às turmas dos seus filhos – o que é ilegal -, tornam-se mais sensíveis nas classificações atribuídas de forma a acautelar um eventual azar nos exames. Depois os professores que não tiveram esta sensibilidade, ao se aperceberem desta situação, acabam por alinhar neste clima, para não prejudicar os seus alunos. Portanto, o clima tende a ser subir as classificações internas.

Concluindo, temos assistido nos últimos anos a uma tendência de subida das classificações internas, umas vezes por influência direta das orientações ministeriais, outras por interesses dos privados em satisfazer as suas clientelas, outras por maior sensibilidade dos professores à situação que os filhos vivem, o que acabou por ir provocando subida das classificações internas. Claro que neste clima há exageros como pautas só com classificações elevadas. Há, portanto, motivos para a inspeção intervir em certos casos, mas nada justifica a ameaça feita pelo ministro, pois todos têm contribuído para a situação. O que tem de fazer é agir nos casos que o justifiquem, hoje é fácil, com o recurso à informática, tratar dados e obter a informação das situações mais aberrantes.

Rui Ferreira

1 COMMENT

  1. Ninguém refere o contrário, professores que para acautelar discrepâncias relativamente a exames nacionais baixam as notas, promovendo testes com grau de dificuldade muito acima da média, até acima dos exames, mas que, a lecionação dos conteúdos não acompanhou esse grau de exigência exigido na avaliação.

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here