Início Editorial A problemática do telemóvel: reflexão e procedimentos.

A problemática do telemóvel: reflexão e procedimentos.

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SmartphonesA aula decorre com o aluno a olhar fixamente para as pernas e com as mãos debaixo da mesa. O professor é obrigado a interromper o raciocínio e …

– João, larga o telemóvel!

– Só estava a ver as horas professor…

– Não precisas de saber as horas, quando tocar sabes que a aula terminou. Desliga o telemóvel se fazes favor.

Este é apenas um exemplo das inúmeras ocorrências que acontecem todos os dias nas salas de aula. Algumas levam a situações mais gravosas como já vimos no passado.

O novo estatuto do aluno mostra a preocupação que até a tutela tem sobre esta matéria, incorporando quatro alíneas nos deveres do aluno. Aqui surge o primeiro problema, a alínea q), Art. 10º, do estatuto do aluno, proíbe a posse dos aparelhos tecnológicos dentro da escola. Claramente o legislador não teve em consideração a realidade social, criando um dever que é impossível de cumprir e que, em escolas mais radicais, pode causar uma autêntica revolução. Ainda para mais, quando a alínea seguinte permite o uso de aparelhos tecnológicos com o consentimento expresso do professor. Ambiguidades legislativas…

Atualmente, os “gadgets”, principalmente os telemóveis, estão profundamente enraizados na nossa sociedade. Portugal é dos países que apresentam uma das taxas mais elevadas no número de telemóveis por habitante. Em 2013, existiam mais de 13 milhões de telemóveis e, como podem ver na imagem abaixo, as SMS reinam.

estudo telemóvel

Todos nós experienciámos a adolescência e sabemos bem a importância da socialização, da imagem, e a necessidade constante de estar em contacto. Até tínhamos uma linguagem própria, como se fosse um código, percetível só para alguns. O telemóvel permite isso tudo e muito mais, é um autêntico canivete suíço da era moderna. Impedir a sua posse é como cortar o cordão umbilical que liga os jovens ao resto do mundo, é uma amputação tecnológica.

Nomofobia. “É uma fobia ou sensação de angústia que surge quando alguém se sente impossibilitado de se comunicar ou se vê incontactável estando em algum lugar sem seu aparelho de celular ou qualquer outro telemóvel.”Nomofobia – wikipedia http://pt.wikipedia.org/wiki/Nomofobia.

É real! Ela existe e está presente nas nossas escolas. Pais e educadores devem estar atentos e saber o que fazer nestes casos. O blog SOS Nomofobia, indica os sintomas de um nomofóbico, bem como os efeitos da privação do telemóvel. Além disso, disponibiliza um teste, para que possamos saber se somos ou não nomofóbicos. Aceitam o desafio?

Nos tempos do quadro negro e do giz, o computador e a Internet eram vistos com enorme desconfiança, sendo hoje algo comum nas salas de aula. Depois da resistência, surgiu a aceitação do seu potencial, tendo entrado definitivamente nas salas de aula no governo de José Sócrates. Talvez os telemóveis façam o mesmo percurso. A comunidade educativa precisa de debater este tema e ponderar se os prós são superiores aos contras. Em 2014 a UNESCO aconselhou a utilização dos telemóveis nas escolas, mas países como França, Brasil, Inglaterra e Portugal, entre outros, são contra a sua utilização. Estamos portanto num impasse, onde duas ideologias se confrontam, algo tão típico nas questões disciplinares.

A sala de aula continua a ser o domínio do professor, e é muito difícil para estes deixarem entrar algo que não conseguem controlar. Aqui surge mais um conflito: os encarregados de educação querem estar em contacto constante com os seus educandos e por diversas vezes não respeitam nem aceitam, que os seus filhos estejam incontactáveis durante as aulas. Alguns, até se esquecem que as escolas têm telefones e que no seu tempo era assim que eram contactados.

Esta matéria também reflete um choque geracional. Se para muitos de nós já foi difícil adaptarmo-nos ao choque tecnológico, o telemóvel, com as suas milhentas “apps” e terminologia própria, leva-nos a um novo patamar, que nem todos estão preparados e/ou dispostos a aceitar.

Existem vantagens na utilização do telemóvel, é inegável! O telemóvel pode ser uma ferramenta importante na sala de aula e colaborar no processo de ensino-aprendizagem de diferentes formas, como por exemplo:

telemóvel na aula

Retirado do slideshare Telemóvel na sala de aula: distração ou canivete suiço, por Adelina Moura.

Está na altura da comunidade educativa tomar uma decisão. Prolongar esta situação, é agudizar uma problemática que pode e deve ser resolvida. Para tal, terá de escolher uma de três hipóteses: acesso total, acesso condicionado, ou a sua proibição total e assumir a decisão de forma peremtória.

Sou da opinião que a nossa sociedade ainda não tem maturidade suficiente para permitir que os alunos acedam sem restrições ao telemóvel. Inevitavelmente, assistiríamos a um abuso da confiança dada e, do proveito ao caos, seria um passo demasiado curto.

Por outro lado, estamos numa fase em que já ultrapassámos o ponto sem retorno. É escusado alimentarmos a esperança que ainda é possível controlar a avalanche tecnológica que entra pela sala adentro. Hoje é o telemóvel mas amanhã serão os óculos da google ou mesmo os telemóveis relógios. A sua proibição, além de contraproducente, causará focos de tensão e fará aumentar as ocorrências disciplinares.

É preciso avançar e evoluir, aceitando as vantagens que os telemóveis trazem, mas impondo regras específicas para a sua utilização.

A minha proposta é o uso condicionado, o que implica algumas alterações, a saber:

  1. Eliminar a alínea q), do art. 10º, do estatuto do aluno. Recentemente houve uma alteração mas foi pena terem desperdiçado essa oportunidade.
  2. A escola não deve ignorar a situação, deixando que cada professor/diretor de turma resolva as ocorrências que vão surgindo. A escola é uma comunidade e a questão deve ser resolvida enquanto tal.
  3. Não resolver os problemas à posteriori, com processos disciplinares e medidas sancionatórias. O desgaste que causará e as consequências que daí advirão (ex: reprovação por faltas) obrigam a uma abordagem mais ponderada. Além disso, o seu efeito será sempre de curto prazo, pois a dependência é tão grande que esta estratégia por si só, estará condenada ao insucesso.
  4. Incluir os alunos na definição de regras específicas para a utilização do telemóvel. Os alunos, enquanto grupo, conseguem ter o senso necessário para estabelecer limites. Desvalorizar este capital humano é ignorar os visados, aumentando as dificuldades da implementação das medidas.
  5. Responsabilizar e diferenciar. Depois de estipuladas as regras, todos os intervenientes devem ter acesso às mesmas liberdades. Porém, a quebra das regras implementadas deverá responsabilizar/sancionar não só o visado mas também toda a turma. Sim, é polémico, eu sei. Só que deste modo, além do professor, serão os próprios alunos a pressionarem o infrator, diminuindo o foco de tensão no professor e ajudando-o no controlo da regra.
  6. As sanções que refiro no número anterior, não se tratam de medidas sancionatórias, pois tal seria injusto para com os restantes colegas. O que defendo é que o aluno infrator, e consequentemente a turma, fiquem privados da utilização do telemóvel na sala de aula, sendo estes colocados no início de cada aula num recipiente destinado para o efeito.
  7. A privação do seu uso, seria durante um tempo determinado e se não houvesse reincidência durante esse tempo, a “suspensão tecnológica” terminaria.
  8. Se durante essa suspensão houvesse algum aluno que voltasse a utilizar o telemóvel ou outros, tal seria apreendido e entregue ao encarregado de educação. Em novo ato de reincidência, o aparelho tecnológico deveria ficar apreendido até ao final do ano letivo.

Sobre este último ponto, surge um problema, pois esta situação não está contemplada na lei. A escola não possuí autoridade para apreender algo que não é dela. Se os alunos tiverem menos de 18 anos de idade, legalmente não possuem bens, logo, todos os aparelhos tecnológicos, em particular os telemóveis, pertencem aos respetivos encarregados de educação. Atualmente, a escola só pode reter o telemóvel e entregá-lo aos seus proprietários, os pais.

Muitos códigos de conduta e regulamentos internos são apenas copy/paste do estatuto do aluno. Certas questões deveriam constar nestes documentos, e esta é uma delas. A autonomia das escolas é pouca, eu sei, mas ainda permite algumas coisas…

Penso que a proposta apresentada incentiva a responsabilização e autonomia do aluno, mas salvaguarda regras essenciais para que o processo de ensino-aprendizagem decorra com normalidade. Fica a minha proposta, certamente haverá outras…

Qual é a vossa?

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14 COMENTÁRIOS

  1. Um excelente artigo:-) na minha sala de aula o telemóvel também é um instrumento de trabalho. Eu uso o telemóvel como instrumento de trabalho, portanto, os alunos copiam este procedimento. Quanto mais souberem otimizar a tecnologia, menos problemas existem…claro que ninguém utiliza o telemóvel para fazer compras ou dizer olá aos amigos…durante as aulas…fora delas, já esclareci muita dúvida através deste objeto. 🙂

  2. Existem dois aspetos a ter em consideração: o aspeto pedagógico e o aspeto social. No primeiro caso não devemos ignorar o impacto desta tecnologia na sala de aula e a mais valia que pode representar. Do outro lado do “muro”, está já o “telebullying”, para o qual não há solução social, face à novidade que esta atitude entre os jovens representa. Porém, creio que o trabalho sobre a gestão do telemóvel, para ambas as situações, deve ser feito na sala de aula. Preocupa-me mais, confesso, a falta de resposta que as autoridades policiais evidenciam à questão do cyberbullying (inclusivamente o telebullying – envio de mensagens de índole negativa e visando pressão psicológica a outros jovens) do que a forma como os docentes usam este instrumento de forma pedagógica na aula.

  3. O telemóvel nem sempre existiu mas, antes dele já outros “objetos” criavam constrangimentos na sala de aula. Que seja esclarecido de uma vez por todas a autorização de utilização deste equipamento. A favor da utilização do telemóvel!

  4. Existindo computadores com acesso à Internet, projectores e quadros interactivos nas salas de aula, pergunto: porquê/para quê a utilização de telemóvel na sala de aula? Todos nós, professores e não só, sabemos com alguma certeza que os alunos/jovens (na sua grande maioria) usam o telemóvel para enviar e receber sms, consultar o facebook, tirar fotos/selfies e jogar jogos de discutível gosto – actividades perfeitamente dispensáveis numa sala de aula. Em que é que isso facilita o processo de ensino-aprendizagem e contribui para o sucesso escolar? Em que é que isso melhora a atenção/concentração dos alunos, ou dos professores? (Sim, porque não faltam colegas que são tão ou mais viciados no telemóvel que os alunos…) Se o assunto fosse a utilização dos tablet a conversa seria outra… Agora o telemóvel… este é, sobretudo, objecto de distracção, ostentação e vaidade. E como afirma Simon Blackburn, “tanto a vaidade como a ganância são hoje ‘valores’ não só desculpáveis, mas também equiparados a pilares da civilização”.

  5. Mais do que facebook e sms, penso que o mais grave é que muitos alunos estão a filmar as aulas sem o nosso conhecimento. Sei que existem diversos filmes nos telemóveis de vários alunos que servem para gozar com colegas/professores.
    No entanto, parece-me óbvio que pode e deve ser esporadicamente utilizado na aula como ferramenta de pesquisa

  6. Como diria um amigo meu, o telemóvel é como o martelo. Este instrumento de trabalho tanto esmaga a cabeça a uma pessoa como é capaz de esculpir uma obra de arte. Tudo está na forma como é usado.

  7. O uso do telemóvel na sala de aula pode ser positivo, no entanto sabemos que a maioria das vezes é usado de forma negativa enviando testes para explicadores, pais , colegas e obtendo a resolução dos mesmos.

  8. A propósito da apreensão de telm, transcrevo o esclarecimento prestado pelo gabinete jurídico da DGEstE, que solicitei durante o passado ano letivo.

    Exmo. Senhor Diretor do Agrupamento de Escolas XXXXXXXXXXXXXX

    Relativamente à questão sobre se tem a escola legitimidade para estatuir no seu regulamento interno a retenção, em sua posse, de quaisquer materiais, equipamentos tecnológicos, instrumentos ou engenhos apreendidos por qualquer agente educativo, até ao final do período lectivo (no caso de uma primeira transgressão) ou até ao final do ano lectivo (no caso de reincidência) foi tecido o seguinte enquadramento da questão:

    O Estatuto do Aluno e Ética Escolar determina (Art.º 10º alínea r)) que os alunos não devem utilizar quaisquer equipamentos tecnológicos, designadamente telemóveis, equipamentos, programas ou aplicações informáticas, nos locais onde decorram aulas ou outras atividades formativas ou reuniões de órgãos ou estruturas da escola em que participe, exceto quando a utilização de qualquer dos meios acima referidos esteja diretamente relacionada com as atividades a desenvolver e seja expressamente autorizada pelo professor ou pelo responsável pela direção ou supervisão dos trabalhos ou atividades em curso;
    Por outro lado, o Estatuto do Aluno e Ética Escolar (Lei nº 51/2012, de 5 de Setembro) nos seu artigos dedicados ao Regulamento Interno das escolas e agrupamentos de escolas (48º a 51º) estabelece que:
    O regulamento interno da escola é elaborado nos termos do regime de autonomia, administração e gestão dos estabelecimentos da educação pré-escolar e dos ensinos básico e secundário, aprovado pelo Decreto-Lei n.º 75/2008, de 22 de Abril, na sua redação atual, devendo nessa elaboração participar a comunidade escolar, em especial através do funcionamento do conselho geral. (art.º 50º).
    O Art.º 49º – sobre o objecto do regulamento interno da escola – determina:
    1 – O regulamento interno da escola tem por objecto:
    (…)
    b) A adequação à realidade da escola das regras de convivência e de resolução de conflitos na respectiva comunidade educativa;
    c) As regras e procedimentos a observar em matéria de delegação das competências do director, previstas neste Estatuto, nos restantes membros do órgão de administração e gestão ou no conselho de turma.
    2 – No desenvolvimento do disposto na alínea b) do artigo anterior, o regulamento interno da escola pode dispor, entre outras matérias, quanto:
    a) Aos direitos e deveres dos alunos inerentes à especificidade da vivência escolar;
    b) À utilização das instalações e equipamentos;
    c) Ao acesso às instalações e espaços escolares;
    (…)

    No caso da apreensão de bens, como telemóveis, os bens ficam estes à guarda da Direcção da escola, não existindo a intenção da mesma de exercer o direito de propriedade e tendo os pais e alunos aceitado tal facto, pelo que não se está perante um acto ilícito.

    Atendendo ao disposto na alínea d) do n.º 1 do artigo 13.º do DL 75/2008, de 22 Abril, com as alterações do Dec-Lei 137/2012 de 2 de Julho, compete ao Conselho geral aprovar o regulamento interno dos agrupamentos, por sua vez o Conselho geral dispõe na sua composição de representantes dos pais (n.º 2 do artigo 12.º DL 75/2008), para que estejam garantidos e salvaguardados os interesses de pais e alunos.
    Acresce o facto de quer os Pais e Encarregados de Educação, quer os alunos, deverem conhecer o regulamento interno da escola e subscreverem declaração anual de aceitação do mesmo e de compromisso activo quanto ao seu cumprimento, conforme melhor dispõe a alínea o) do artigo 10.º e alínea k) do artigo 43.º do Estatuto do Aluno e Ética Escolar.

    Esperando ter prestado o esclarecimento pretendido, continuamos ao dispor de V. Exa., caso pretenda esclarecimentos adicionais.

  9. Gosto imenso da ideia de usar o telemóvel como ferramenta de trabalho em sala de aula. E adorei as dicas e sugestões deste artigo…obrigado pelo artigo que está excelente.

    Eu estou sempre a pensar como posso pôr os formandos/alunos a pesquisar nas aulas ou a darem respostas a questões e a internet é sempre a solução mas também o problema, porque nunca há suficientes computadores para os alunos. Os telemóveis com acesso à net são por isso uma excelente solução.

    Só me preocupa uma coisa…como fazer em relação aos alunos que não têm telemóvel ou que têm telemóvel sem acesso à net?
    Mais uma vez muito obrigado

    Xana

  10. Comentário:os alunos filmam as aulas realçando muitas vezes o corpo DAS professoras. UMA VERGONHA! Como evitar em turmas de 32 alunos??? Não há telemóveis à vista e pronto.Dentro da mochila!

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